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#379 Antiplatonismo e Realismo Moral

January 14, 2015
Q

Dr. Craig,

Parabéns por terminar a primeira versão de seu livro, resultado de doze anos de trabalho sobre objetos abstratos e asseidade.

Seu anúncio no Facebook diz, “Agora, eu penso que o antirrealismo é uma posição mais plausível”.

Você pode ser antirrealista com relação a algumas coisas e realista com relação a outras? Por exemplo, você já não dá mais a resolução realista para o dilema de Eutífron, não fundamenta mais o bem na natureza de Deus? Não é possível que objetos abstratos tenham como fundamento o Logos (essencialismo divino, ao invés de Platônico)?

Obrigado por tudo que você faz por Cristo e Seu reino!

Maryann Spikes, Presidente

The Christian Apologetics Alliance (Aliança Apologética Cristã) ☺

United States

Dr. Craig responde


A

Obrigado, Maryann, por me dar a oportunidade de esclarecer qual é a minha posição sobre esse assunto. A resposta curta para sua pergunta é: não, eu não mudei de ideia sobre a resolução apropriada para o dilema de Eutífron. Deixe-me explicar.

O alvo do meu trabalho sobre asseidade divina não é o realismo mas o platonismo. Eu rejeito a visão que afirma que coisas como números, proposições, propriedades e mundos possíveis são objetos abstratos que existem independentemente de Deus porque tal visão é incompatível com o status de Deus como a única realidade última. Meu antiplatonismo está bem alinhado com minha rejeição do que eu chamo de Platonismo Moral Ateísta, que é a visão que afirma que valores morais são objetos abstratos. Em minhas publicações eu apresento três objeções contra o platonismo moral ateísta. [1]

Assim, quando eu digo que valores e deveres morais objetivos existem, a ênfase não é na metafísica mas na objetividade, em oposição à mera subjetividade, dos valores e deveres morais. O que eu quero dizer é que certas coisas são objetivamente boas/más e certas ações são objetivamente certas/erradas. Isto é realismo em um sentido diferente da palavra. Realismo moral, neste sentido, é a visão que afirma que afirmações morais são objetivamente verdadeiras ou falsas. Realismo moral, em outro sentido, é a visão de que existem objetos independentes da mente que são valores ou deveres morais e que devem ser incluídos em seu inventário ontológico de coisas. Eu sou um realista moral no primeiro sentido, mas não no segundo.

Então, o que faz com que afirmações morais sejam objetivamente verdadeiras ou falsas? O próprio Deus, que é, definitivamente, um objeto concreto. Ele é o paradigma da bondade moral, e seus mandamentos para nós constituem nossos deveres morais. Dessa forma, o platonismo é evitado, a objetividade da bondade e dos deveres morais é assegurada e o dilema de Eutífron é habilmente contornado.

Agora, eu não tenho nenhuma contenda teológica com o realismo não-platônico, como por exemplo o conceitualismo divino, que entende que coisas como números, proposições, propriedades e mundos possíveis são fundamentadas, como você observou, no Logos, como pensamentos na mente de Deus. De forma similar, alguém poderia dizer que a justiça, por exemplo, é um pensamento divino e é um bem moral objetivo porque o próprio Deus é justo. Ou alguém poderia deixar a parte conceitualista e simplesmente afirmar que é objetivamente bom ser justo porque Deus é justo. Eu nunca quis afirmar nada mais do que essa última afirmação.

Com relação à sua pergunta, “Você pode ser antirealista com relação a algumas coisas e um realista com relação a outras?”, alguém pode não apenas ser um realista sobre certas entidades mas não sobre outras, alguém pode ser até mesmo platonista sobre certas entidades mas não sobre outras! Enquanto os objetos abstratos forem criados ao invés de não criados, a asseidade única de Deus não é desafiada. Dito isso, podemos perguntar, existe algum objeto abstrato criado? Certamente coisas como números, proposições, propriedades e mundos possíveis, se eles existissem, seriam não criados. Mas o que dizer de certos objetos de arte, como trabalhos literários e composições musicais? De acordo com Christy Uidhir em seu recente livro “Art and Abstract Objects”, [2] a visão padrão em estética hoje é que existem coisas que são arte abstracta e que obras de arte são, por necessidade, objetos criados. Segue-se, então, que algumas obras de arte são objetos abstratos criados. A quinta sinfonia de Beethoven é, nessa visão, um objeto abstrato criado por Beethoven e que é instanciada em múltiplas cópias e performances. Da mesma forma que o próprio Uidhir, eu não estou inclinado ao realismo sobre tais objetos de arte abstratos (apesar de ser, em um sentido diferente, um realista com relação a afirmações estéticas serem verdadeiras ou falsas!), mas eu não tenho objeção teológica a eles. Se você quer esses objetos em sua ontologia, sinta-se à vontade.

Similarmente, agora eu tendo a ver o conceitualismo como supérfluo, se não questionável, com relação a coisas como números, proposições e mundos possíveis. O mesmo vale para valores morais. O ponto importante é que a objetividade dos valores morais é baseada em Deus, não em entidades abstratas independentes de Deus.

  • [1]

    Reasonable Faith (Wheaton, Ill.: Crossway Books, 2008), pp. 178-9.

  • [2]

    Christy Mag Uidhir, “Introduction: Art, Metaphysics, and the Paradox of Standards,” in Art and Abstract Objects, ed. Christy Mag Uidhir (Oxford: Oxford University Press, 2012), p. 7.

- William Lane Craig