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#380 Argumentos Ontológicos Bizarros

May 16, 2015
Q

Olá Dr. Craig,

Eu sou um estudante de graduação em filosofia e agnóstico, e por algum motivo acho a ideia de necessidade divina particularmente interessante. Gostaria de saber se você pode responder a seguinte pergunta/argumento.

Quando eu penso sobre o conceito de Deus --um ser maximamente grande -- parece claro que Deus, se ele existe, existe necessariamente. Então, se Deus existe no mundo real, então por definição não existe nenhum mundo possível em que Deus não existe. Mas o problema é o seguinte: parece haver um número quase infinito de mundos possíveis em que Deus não existe. Aqui eu estou pensando em um mundo que não consiste de nada senão uma única mereológica simples, talvez parado quieto ou flutuando através de um espaço finito. Tal mundo é muito provável e não quebra nenhum princípio metafísico de que eu estou ciente. Pode-se construir um argumento simples ao longo destas linhas:

1) Se Deus existe no mundo real, não há nenhum mundo possível em que Deus não exista (esta é apenas uma declaração da necessidade de Deus).

2) Mas há um mundo possível em que Deus não existe.

3) Deus não existe no mundo real.

Agora, esse argumento meu (embora eu certamente não sou o primeiro a pensar nele) parece ser basicamente o inverso dos argumentos ontológicos modais que pretendem mostrar que se a existência de Deus é pelo menos metafisicamente possível, então Deus deve existir. A ideia lá, evidentemente, é que se há um mundo possível em que Deus existe, e Deus é um ser necessário, então Deus existe em todos os mundos possíveis, incluindo o mundo real.

Para aceitar o Argumento Ontológico Modal, você tem que aceitar que:

1) A existência de Deus é possível.

2) NÃO há nem mesmo um único mundo possível, da vasta gama de mundos possíveis, em que Deus não existe.

Para aceitar o meu argumento, você tem que aceitar que:

1) HÁ, pelo menos, um único mundo possível, da vasta gama de mundos possíveis,

em que Deus não existe (E isso, claro, implica que a existência de Deus é impossível, mas não é preciso aceitar isso como uma premissa do argumento).

Intuitivamente, o meu argumento parece estar num terreno mais sólido.. Acho que é mais fácil aceitar que há um único mundo possível sem Deus do que o fato que Deus é possível e, portanto, existe em todos os mundos possíveis. Em especial quando eu considero que tipo de ser é Deus. O Argumento Ontológico Modal em favor do teísmo requer que este ser pessoal imaterial com todos esses poderes extremos exista em todos os mundos possíveis. Tudo o que eu preciso para que o meu argumento saia do chão é que haja um mundo metafisicamente possível sem este ser pessoal imaterial de imenso poder. Mais uma vez, de forma intuitiva, o meu argumento parece estar num terreno mais sólido.

Por favor, fale-me o que você pensa, e se eu errei em algum lugar. Obrigado Dr. Craig.

Robert

Estados Unidos

United States

Dr. Craig responde


A

Se admite que muito difícil para o teísta fornecer alguma prova da premissa fundamental no argumento ontológico, a saber

1. É possível que um ser maximamente grande (isto é, Deus) exista.

Por essa razão, Plantinga pensou inicialmente, pelo menos, que o argumento (embora sólido) não é "uma peça bem sucedida de teologia natural". No entanto, com razão Plantinga insistiu que o argumento mostra que a crença na existência de Deus é perfeitamente racional. Pois a pessoa que aceita a premissa (1) está sendo inteiramente razoável em seus julgamentos modais. Eu acho que isso conta como sucesso para justificar uma "fé razoável". Por essa razão, eu costumo simplesmente deixar que o meu público responda a pergunta: "Você acha que é possível que Deus exista?" O conceito de “grandeza máxima” ou de um ser maximamente grande (um ser que é onipotente, onisciente e onibenevolente em todos os mundos possíveis) parece perfeitamente coerente e, portanto, possível.

Agora, muitas pessoas têm procurado oferecer argumentos ontológicos reversos (o que poderíamos chamar de argumentos "bizarros" a exemplo do Doppelgänger (ou dublê) do Superhomem), com o objetivo de minar a própria justificação intuitiva para crer em (1). Você pode recorrer a qualquer tipo de mundo em que Deus não exista, quer se trate de um mundo sem nada dentro ou com uma única partícula, como você sugere, ou um mundo com muitas partículas, estrelas, planetas, e uma coleção de coisas. Desde que alguém estipule que APENAS essas coisas existem, se exclui Deus e, portanto, grandeza máxima.

Acho que o problema com todos esses argumentos ontológicos bizarros é sua segunda premissa

2) Mas há um mundo possível em que Deus não exista.

incorre a petição de princípio, ao supor que o conceito de grandeza máxima é incoerente. Só porque podemos imaginar um mundo em que uma única partícula (ou o que for) existe não dá nenhuma razão para pensar que tal mundo é metafisicamente possível. Estes cenários são, por assim dizer, meramente figuras com um título abaixo "Mundo em que apenas uma única partícula existe". O fato de que eu posso imaginar e rotular essas figuras não dá nenhuma razão para declará-las metafisicamente possíveis. Para fazer isso, você tem que saber primeiro que a grandeza máxima é impossível.

Agora você pode pensar: "Mas o teísta não está na mesma situação? Para que ele saiba que é possível que um ser maximamente grande existe, ele deve pressupor ou saber primeiro que é impossível que apenas uma única partícula existe." Nem um pouco! A confiança do teísta em (1) baseia-se na coerência intuitiva da grandeza máxima considerada por si só. Ele então infere que um mundo com apenas uma única partícula ou o que for é impossível. É uma conclusão a partir do (e não um pressuposto de) argumento ontológico. Por outro lado, a objeção bizarra é baseada, não na possibilidade reconhecidamente intuitiva de uma partícula (digamos, um quark ou um bóson), considerado por si só, mas sim é baseada na especulação de um mundo inteiramente constituído por tal partícula. A possibilidade da especulação não é dada a você pela possibilidade da própria partícula, mas exige a incoerência de grandeza máxima.

Parece-me, Robert, que você pensa erroneamente que a possibilidade metafísica dos mundos tem a ver com as considerações da probabilidade: não há "pelo menos um único mundo possível, da vasta gama de mundos possíveis, em que Deus não existe?" Você parece pensar na possibilidade metafísica um pouco como uma loteria: de todas essas possibilidades, certamente em um delas existiria apenas uma única partícula! Isto é equivocado. Eu poderia com igual justiça dizer que do vasto conjunto de mundos possíveis, certamente um ser maximamente grande existiria em um deles. Mas então ele existe em todos! A questão é que você não pode avaliar a possibilidade metafísica da grandeza máxima com base em distribuições do acaso.

Mais uma vez, você parece pensar na possibilidade metafísica como uma questão de simplicidade ou economia ontológica. Você acha que a sua objeção está num terreno mais sólido porque "Tudo o que eu preciso para que o meu argumento saia do chão é que haja um mundo metafisicamente possível sem um ser pessoal imaterial de imenso poder." Isso não é razão para pensar que o seu mundo imaginado é possível e que a grandeza máxima é incoerente. O que queremos do objetor é que forneça alguma razão para pensar que é impossível que um "ser pessoal imaterial com todos esses poderes extremos exista em cada mundo possível". Caso contrário, não temos nenhuma razão para pensar que o mundo especulativo do objetor é realmente possível.

E não se esqueça dos outros argumentos teístas, os quais nos dão motivos para pensar que tal especulação é impossível. Por exemplo, o argumento cosmológico de Leibniz implicaria que um mundo constituído por uma única partícula é metafisicamente impossível, já que não existe, então, nenhuma explicação de por que a partícula existe em vez de nada. Da mesma forma, o argumento moral nos dá um ser pessoal metafisicamente necessário como o fundamento das verdades morais necessárias, o que implica que tal mundo moralmente neutro como o seu mundo de uma única partícula é impossível. Tais argumentos servem para reforçar nossas intuições modais sobre a possibilidade metafísica de um ser maximamente grande. O argumento ontológico é, assim, melhor visto como apenas um elo em um casaco de cota de malha que constitui o caso cumulativo para o teísmo.

- William Lane Craig