#346 Deus e Outras Mentes
May 16, 2015Olá Dr Craig,
Deixe-me admitir desde o início que eu sou um ateu. Não um agnóstico. Eu acredito que Deus não existe e tenho, penso eu, boas razões para isto. Dito isso, eu tenho gostado muito de ler e ouvir o seu trabalho, e respeito o fato de que você tenta fazer do teísmo uma busca racional.
Então, eu gostaria de saber os seus pensamentos sobre algo.
Um dos argumentos que eu costumo dar para o meu ateísmo é o seguinte. Um dos conceitos mais básicos e gerais de Deus incluiria os seguintes dois atributos essenciais:
1) Deus é pessoal - com isso quero dizer que Deus é uma pessoa com uma mente, uma consciência, conhecimento, vontade, sensibilidade, etc.
2) Deus é primordial - refiro-me que sua existência não depende de qualquer outra coisa. Ele é lógica e temporalmente antes de tudo o mais que existe.
De fato, como ateu, eu insisto em que Deus tem esses dois atributos (pelo menos). Se algum teísta tem um conceito de Deus que não inclua esses dois, eu peço que eles usem um termo diferente de "Deus" para descrever o que eles acreditam - pelo menos ao falar comigo.
Assim, a minha primeira pergunta é: Você acha que esta é uma boa descrição de Deus, no mínimo?
Agora, o meu primeiro argumento contra a existência de Deus é muito simples: Uma pessoa NUNCA pode ser primordial nesse sentido. Eu resumo esse argumento com uma premissa simples, que vou chamar de Premissa A para referência:
Premissa A: "Mentes requerem cérebros"
Não necessariamente [requerem] cérebros humanos ou mesmo biológicos, mas algum tipo de cérebro que tenha estrutura, componentes que interajam e algum grau mínimo de complexidade. Eu poderia expandir isso muito mais, é claro, mas esse não é o ponto da minha pergunta.
Eu suponho, a partir do que você tem dito e escrito, que você rejeitaria a Premissa A - e tudo bem (eu acho que a minha próxima pergunta deveria fazer você confirmar esta suposição).
Com isto em mente, tenho mais duas perguntas para você:
1) Se pudesse ser - de alguma forma - demonstrado convincentemente que a Premissa A é de fato verdade, isso seria suficiente para provar o ateísmo? Ou há algum sentido em que Deus pudesse ter um cérebro complexo e estruturado de algum tipo e ainda ser primordial no sentido requerido?
2) No sua visão a Premissa A é necessariamente falsa, ou é só às vezes falsa? Em outras palavras, algumas mentes - por exemplo, as mentes humanas – requerem cérebros, o que tornaria Deus simplesmente uma exceção ao que, de outra forma, poderia ser uma regra perfeitamente plausível?
Obrigado antecipadamente por considerar essas perguntas.
Atenciosamente
Damien
Austrália
Australia
Dr. Craig responde
A
Quão refrescante é receber uma pergunta tão pensativa, Damien! Eu queria que você tivesse realmente compartilhado seu argumento anti-teísta por completo, embora eu imagine que podemos deduzir as premissas que faltam.
Eu, também, insisto em que Deus tem ambos os atributos que você menciona, pessoalidade e primazia. Na verdade, o meu foco de pesquisa de mais de uma década tem sido sobre o que você chama de primazia de Deus, e os teólogos chamam de asseidade de Deus. Então, eu estou sempre ansioso para discutir o assunto. Gostaria de corrigir a sua declaração de (2), apenas substituindo "ontologicamente e causalmente" em sua "lógica e temporalmente." A prioridade lógica é uma relação muito fraca para capturar a primazia de Deus, e a prioridade temporal é desnecessária, já que, se Deus é atemporal, Ele não é temporalmente antes de qualquer coisa. Então, sim, a sua descrição de Deus é justa, no mínimo.
Então, por que uma realidade primal não pode ser pessoal? Por causa da premissa A (ou A) "Mentes requerem cérebros"? Por que pensar que (A) é verdadeira? Eu não consigo pensar em nenhum bom motivo para pensar que (A) é, em geral, verdadeira, nem você dá um. A palavra "requerer" implica que você acha que (A) é necessariamente verdadeira. Mas como você sabe que é impossível que exista uma mente sem corpo? Mesmo que os seres humanos sejam essencialmente encarnados, o que é discutível, qual argumento você poderia dar de que não há e de que não pode haver tal coisa como uma mente sem corpo? Isto não é uma falta de imaginação de sua parte?
Então, mais uma vez, sim, eu obviamente rejeito (A). Qualquer pessoa que supõe que não podem existir mentes sem corpo, apenas está supondo que o ateísmo é verdadeiro. Por outro lado, eu ofereci muitos argumentos a favor do teísmo, o quais, se sólidos, implicam que (A) é falsa. De fato, em minhas palestras sobre a Doutrina do homem do Defenders [Defensores] argumentei que (A) é falsa mesmo para os seres humanos, sem mencionar para Deus. Mas isso não vem ao caso. Já que é você que está oferecendo o argumento aqui, você precisa arcar com o ônus da prova e dar-nos algum argumento para pensar que (A) é verdadeira.
Então, referente as suas duas perguntas:
(1) Se pudesse ser demonstrado de forma convincente que a Premissa A é de fato verdadeira, isso seria suficiente para provar o ateísmo? Sim! Pois a Premissa A simplesmente é uma afirmação de que não há Deus. Para ter certeza, existem teólogos do processo que irão dizer que o universo é o corpo de Deus. Mas eles não são teístas clássicos; eles são panenteístas.
(2) A Premissa A é necessariamente falsa, ou é só às vezes falsa? Eu suspeito que a sua pergunta está mal formulada, Damien. (A) é necessariamente falsa porque Deus existe em todos os mundos possíveis e é essencialmente incorpóreo. Assim, em nenhum mundo possível é verdadeiro que todas as mentes são essencialmente corpóreas (ou encarnadas). Mas pode muito bem ser o caso de que algumas mentes são essencialmente corpóreas. Muitos filósofos pensam que as mentes humanas são essencialmente corpóreas. Até mesmo alguns filósofos cristãos acham que isso é verdadeiro e é por isso que a doutrina judaico-cristã da ressurreição do corpo (em oposição à mera imortalidade da alma) apela para eles. Então, eu confio que você pode ver que a alegação de que algumas mentes são essencialmente corpóreas não implica que (A), que faz uma afirmação universal, é possivelmente verdadeira.
Será que essa confusão de sua parte talvez subverte o seu argumento para (A)?
- William Lane Craig