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#134 As Falhas e Crueldades da Natureza

September 25, 2014
Q

Em seu debate com Francisco Ayala sobre “O Design Inteligente é Viável?” você respondeu a objeção dele de que as falhas de design e comportamentos de animais cruéis na natureza são incompatíveis com um Designer [Projetista] todo bondoso e onipotente, distinguindo entre o problema científico e o problema teológico que surgem com esta objeção. Você disse que como objeção científica a uma inferência de design na biologia, a objeção é irrelevante e que como objeção teológica a bondade e poder de Deus, isso é solucionável. Você disse que tinha mais para falar sobre o assunto mas o tempo não permitia. Você poderia expandir sua resposta aqui?

Bill

United States

Dr. Craig responde


A

Fico feliz em fazê-lo, Bill! A fim de fazer meus comentários inteligíveis aos leitores que não estavam no debate, eu irei repetir um pouco do que eu disse lá, para construir um contexto.

A evidência científica (por exemplo, acasalamento, desenvolvimento de resistência a droga, etc.) para o poder dos mecanismos Darwiniano de mutação aleatória e seleção natural para explicar a evolução de todas as coisas viventes é surpreendentemente fraca, envolvendo uma extrapolação extraordinária de produção limitada para um desenvolvimento evolucionário universal. Então não é surpreendente que, a fim de invalidar a inferência ao design na biologia, Ayala rapidamente recorra a argumentos filosóficos e teológicos contra a viabilidade do Design Inteligente? Entretanto, ao faze-lo, penso que ele faz uma confusão fundamental entre ciência e teologia.

Deixe-me explicar. O argumento mais importante de Ayala contra a viabilidade de uma inferência de design na biologia é que os organismos exibem certas falhas de design e comportamentos cruéis que excluem a possibilidade deles terem sido projetados por um Deus onipotente e todo-bondoso. Agora, esse é um problema teológico clássico conhecido como teodicéia. Muito já foi escritos sobre isso. O problema chamado “mal natural” é uma questão de grande importância teológica que teólogos cristãos devem abordar. Mas exatamente por essa razão, não é simplesmente relevante para a questão científica de se a inferência de design é justificada na biologia.

Para ver o porque, consideremos primeiro a questão das falhas de design. Durante o debate eu mostrei um slide de um Trabant da Alemanha Oriental. Provavelmente foi um dos piores carros jamais fabricados. Era cheio de falhas de design. (Na verdade eu mesmo dirigi um Trabbi uma vez quando visitei a Alemanha Oriental, e quando eu tentei fechar a porta, toda a parte interna do painel quase foi arrancada!) Logo depois eu mostrei um slide de um Mercedes e-class 2009. Depois perguntei ao público: pelo Trabant não ser uma Mercedes isso justifica a conclusão que o Trabant não foi projetado, mas originado pelo acaso? Obviamente não! Projetos o designs exibem vários níveis de otimização e não há razão para limitar as inferências de design somente aos designs de otimização máxima. Na verdade seria de fato tolice fazer isso. Se um sistema biológico está de acordo com os critérios de William Dembsky para ser projetado (alta improbabilidade mais conformidade a um padrão dado independentemente), esta inferência de design não é nulificada pela possibilidade de estruturas que podem ter sido melhor projetadas.

Considere, então, comportamentos animais que nos parecem incompatíveis com um projetista moralmente bom. Para ver o problema com esse argumento, consideremos um método de tortura medieval. Alguém levaria a sério o argumento de que este mecanismo tão complexo como esse não poderia ter sido o produto de design inteligente, porque uma pessoa que projetasse tal coisa não pode ser uma pessoa muito boa? Obviamente não! A inferência de design não tem absolutamente nada a dizer sobre as qualidades morais do projetista.

Em suma, a inferência de design não permite nenhuma conclusão de que o projetista da natureza seja todo-bondoso ou todo-poderoso. Portanto, o argumento de Ayala, baseado nas falhas e crueldades da natureza, falha como uma objeção científica para a inferência de design na área da biologia. A inferência de design não diz nada sobre o projetista ser todo-bondoso ou todo-poderoso. Um pouco antes do debate estive falando com o filósofo da ciência John Bloom, que é advogado do DI sobre o comentário de Ayala de que o design da natureza é mais compatível com os deuses da antiga Grécia e Roma do que com o Deus da Bíblia. John pensou sobre isso por um momento e depois disse, “Zeus serve. Zeus serve.” Em outras palavras, até mesmo a inferência a Zeus é uma inferência de design. Caso encerrado!

Em resumo, o argumento de Ayala falha como uma objeção científica. Mas e quanto a uma objeção teológica? É assim que ele coloca em seu livro Darwin and Intelligent Design [Darwin e o Design Inteligente]. Ele escreve, “Design Inteligente implica atributos de Deus que são incompatíveis com o Cristianismo” (p. x). Aqui Ayala está afirmando que o projetista postulado pela inferência científica não pode ser o Deus da Bíblia. Agora, isso é de fato uma declaração teológica importante, pelo menos para um cristão, apesar de que um teísta, que não esteja na tradição judaico-cristã, não ser afetado por ele. Em resposta a esta objeção, o teólogo cristão pode trazer todos os recursos de sua cosmovisão para argumentar que qualquer incompatibilidade tem sido mostrada existente entre o Deus bíblico e o design na natureza. O teólogo cristão pode sugerir diversas formas diferentes de conciliar as falhas e crueldades da natureza com a existência do Deus da Bíblia, e o ônus da prova estará sobre Ayala, para mostrar que nenhuma destas teodicéias funciona.

Então suponha, por exemplo, que o teólogo cristão responde a essa objeção dizendo que Deus poderia ter motivos independentes para projetar um mundo com estruturas menos otimizadas dentro dele. A resposta do Dr. Ayala é bastante reveladora. Ele admite que tal resposta “pode ter validade teológica, mas ela destrói o design inteligente como uma hipótese científica” porque faz com que a hipótese do design seja infalsificável (op. cit., p. 86). Ele conclui, “O Design Inteligente como uma explicação para a adaptação de organismos poderia ser teologia (natural), como Paley diria, mas seja o que for, não é uma hipótese científica” (Ibid.).

Mas, espere um minuto! Não era parte da hipótese do design que o projetista seja todo-poderoso e todo-bondoso. Então negar estes atributos ao projetista não faria nada para falsificar a hipótese do design. Em vez disso, a forma de invalidar a inferência do design na biologia é mostrar que os critérios que Dembski propõe para inferir design não foram satisfeitos. É somente quando nós começamos a falar sobre teologia cristã que os atributos de um ser todo poderoso e todo bondoso entram em jogo. Ali o desafio é meramente prover alguma forma consistente, que, se verdadeira, mostraria que o Deus bíblico não é incompatível com as falhas e crueldades da natureza. Falsificação é irrelevante ao projeto teológico. Ao levantar objeções teológicas para a inferência do design, Ayala está confundindo ciência com religião. Ele está tratando algo que é um problema para a teologia como se fosse um problema para a ciência, o que é simplesmente confuso. Isso é tão irônico porque ele fala alto contra o DI porque ele anula os limites entre ciência e religião.

Então como fica a objeção de Ayala? Como um problema científico é irrelevante. Como um problema teológico, ele admite que é solucionável. Então sua objeção ou é irrelevante ou solucionável, que quer dizer que não é um problema.

Apesar disso eu quero dizer algo mais sobre o desafio teológico que surge com as falhas e crueldades da natureza.

Primeiro, considere a questão das falhas de design na natureza. Há algumas maneiras pelas quais o teólogo pode responder com sucesso a esse problema. Ele pode desafiar o pressuposto de que essas supostas falhas são de fato falhas. Tome, por exemplo, a alegação de que a colocação do nervo óptico do olho humano é falha, pois resulta em um pequeno ponto cego no nosso campo visual. Deus pode ter uma boa razão biológica para assim projetar o olho? Sim, de fato! Como Michael Denton explica, a diferença no posicionamento do nervo óptico no olho humano em comparação com os olhos de cefalópodes é por causa da necessidade de um maior fornecimento de oxigênio para a visão de alta acuidade em animais de sangue quente. De acordo com Denton, "Ao invés de ser um caso de má adaptação, a retina invertida é, provavelmente, um elemento essencial no design geral do sistema visual de vertebrados" (comunicação pessoal). Portanto, esta alegada falha acaba por não ser de fato uma falha. Cada vez mais descobrimos que o que parecia à primeira vista falhas de design, com maior compreensão, tem se mostrado não serem falhas.

Mas suponha que, por uma questão de argumento, as falhas pareçam ser reais e sugiram que alguma característica especial é o resultado da seleção natural. Tudo bem! Tal conclusão seria preocupante apenas para alguém que defende uma forma altamente restrita de criacionismo especial, que defende que Deus criou todas as espécies individuais exatamente como são hoje. Mas até mesmo os criacionistas especiais, normalmente, não sustentam uma visão tão restritiva. Eles geralmente defendem que os "tipos" criados por Deus em Gênesis 1 estavam no nível biológico da ordem ou da família, e que a evolução assumiu a partir daí. Assim, por exemplo, Deus criou o ancestral comum da família Ursidae ou a família do urso, que, desde então, evoluiu para oito espécies diferentes de ursos. Não é de se surpreender, então, que o chamado "polegar do panda", muitas vezes apontado como uma falha de design, deve ter evoluído em uma espécie de urso, os Pandas. E quase não precisa ser dito que os teólogos que não defendem o criacionismo especial, mas abraçam a tese da ancestralidade comum não estão nem um pouco surpresos que os organismos devem ter a marca de design de seus antepassados. Muitos dos chamados defeitos são apenas demonstrações de ancestralidade comum. Então eu não acho que supostas falhas de design são um problema teológico muito sério.

O que, então, fazemos com os comportamentos de animais que nos parecem tão cruéis e grotescos? Uma vez mais, isso pode ser um problema apenas para um teólogo que defende uma forma muito restritiva do criacionismo especial. Mas a maioria dos criacionistas especiais abraça a evolução entre tipos gerais, que permite que os organismos mudem. Por exemplo, o ponto de vista geralmente aceito entre os biólogos é que bactérias patogênicas, ou produtoras de doenças, eram organismos que viviam livremente que evoluíram para se tornarem parasitas patogênicos. O sequenciamento do genoma revelou que este é um tipo de "de-evolução", caracterizado por uma enorme perda de genes.

Claro, esta apelação à evolução limitada dentro de tipos gerais não vai melhorar o problema geral do sofrimento dos animais e a predação. Mas este é um problema teológico que confronta a visão de Ayala também. Ayala não parece perceber que a adoção de evolução teísta apenas empurra o problema para trás um pouco, pois o evolucionista teísta deve agora enfrentar a pergunta, por que um Deus bom e todo-poderoso optaria por criar vida por meio de um processo tão cheio de dor e morte como a evolução? Ayala parece estranhamente alheio ao fato de que, quando ele cita David Hull no sentido de que "o Deus implícito na teoria evolutiva ... é descuidado, desperdiçador, indiferente, quase diabólico," Hull está falando sobre o Deus de Ayala. O que Ayala chama de "presente" de Darwin para a ciência e a religião parece que pode ser um Cavalo de Tróia!

Então teólogos cristãos de todos os tipos têm de enfrentar o desafio da dor animal. Aqui estudos recentes em biologia têm fornecido insights surpreendentes e novos sobre este velho problema. Em seu livro Nature Red in Tooth and Claw: Theism and the Problem of Animal Suffering [Natureza Vermelha em dente e garra: teísmo e o Problema do Sofrimento Animal], Michael Murray distingue três níveis, em uma hierarquia ascendente, de dor (leia de baixo para cima):

Nível 3: uma consciência de segunda ordem que alguém está experimentando por si mesma (2).

Nível 2: uma de primeira ordem, experiência subjetiva de dor.

Nível 1: os estados neurais com suporte de informações produzidos por estímulos nocivos, resultando em um comportamento aversivo.

Aranhas e insetos - o tipo de criaturas que mais exibem os tipos de comportamento mencionados por Ayala - experimentam (1). Mas não há razão nenhuma para atribuir (2) a tais criaturas. É plausível que eles não sejam seres sencientes com algum tipo de vida subjetiva interior. Esse tipo de experiência plausivelmente não surge até que se chega ao nível de vertebrados no reino animal. Mas, apesar de animais como cães, gatos e cavalos sentirem dor, a evidência é que eles não experimentam nível (3), a consciência de que eles estão com dor. Para a consciência de alguém perceber que está com dor, requer desse alguém uma auto-consciência, que é centrada no córtex pré-frontal do cérebro, uma seção do cérebro que está em falta em todos os animais, exceto para os primatas humanóides. Assim, surpreendentemente, apesar de os animais poderem experimentar dor, eles não estão cientes de estar em dor. Deus, em Sua misericórdia, aparentemente poupou os animais da consciência da dor. Este é uma tremenda conforto para nós donos de animais. Pois, embora o seu cão ou gato possam estar com dor, ele realmente não está ciente disso e por isso não sofre como você faria se estivesse com dor.

Isto significa também que argumentos como os de Ayala, baseados nas chamadas crueldades da natureza, são culpados da falácia de antropopatia, que é atribuir sentimentos humanos a entidades não-humanas. Isso é difícil não fazer. Nós, seres humanos temos uma tendência inveterada de atribuir agência pessoal para criaturas não-humanas e até mesmo objetos. Falamos com nossas plantas de casa, nossos carros, nossos computadores. Na verdade, alguns psicólogos cognitivos pensam que esta tendência está realmente embutida no cérebro humano. Chamam-lhe de Dispositivo de Detecção de Agência Hiper-ativo (DDAH). Nós tratamos outras coisas, até mesmo objetos inanimados, como se fossem agentes. Richard Dawkins, por exemplo, ilustra essa tendência contando como ele uma vez se viu xingando sua bicicleta porque não estava funcionando corretamente. Quando atribuímos agência e consciência de dor aos animais, nós nos comprometemos à falácia de antropopatismo.

Ayala é, penso eu, consciente disso porque ele sutilmente qualifica sua afirmação sobre a natureza ser cruel, dizendo, por exemplo, "as interações de acasalamento ... em alguns insetos ... seriam julgados como cruéis e sádicos mesmo pelos padrões humanos." Mas é claro, é precisamente o ponto que é falacioso o de julgar o comportamento de insetos pelos padrões humanos! Certas aranhas e insetos são apenas caçadores vorazes e comerão sua própria espécie se chegarem perto. Um parceiro em potencial é, portanto, também uma potencial refeição. Chamar esse tipo de comportamento de cruel ou sádico é, no mínimo, antropopatismo. As interações desses organismos não-sencientes não têm significado moral maior do que um braço robótico em uma linha de montagem que perfura um buraco em um metal e insere um parafuso. Pensar de outra forma é ser vítima do DDAH.

É claro, as perguntas ainda permanecem, tanto para Ayala quanto para mim, do por que Deus criou um mundo com um prelúdio evolucionário para o surgimento do homem. Eu suspeito que a resposta a esta pergunta terá a ver com os propósitos finais de Deus para os seres humanos, para a criação de um ecossistema onde agentes humanos autônomos podem florescer e escolher, sem coerção, aceitar ou rejeitar a oferta de Deus de graça salvífica e um relacionamento pessoal com Ele. Mas uma discussão sobre estas perguntas teológicas aqui nos levariam longe demais fora de tópico “Philosophical Foundations for a Christian Worldview” (pp. 543) (veja em português: Filosofia e Cosmovisão Cristã).

- William Lane Craig