#132 O Argumento Cosmológico de Leibniz e o PRS
October 28, 2014Prezado Dr. Craig,
Estou impressionado com a nova edição do Reasonable Faith. Eu já li uma das edições mais antigas e achei os novos acréscimos muito perspicazes. Particularmente, eu gostei do novo material sobre o trabalho de Meier e Ehrman no Jesus histórico e a teoria cosmológica de Dennett. Há também novos acréscimos em outras áreas do livro. Esta é uma leitura obrigatória para os estudantes sérios de apologética.
Eu tenho uma pergunta quanto ao argumento cosmológico de Leibniz a respeito do princípio da razão suficiente. Eu estudei Leibniz com o Professor Sowaal na SFSU. Sua Monadologia é incrível. Em muitos de seus trabalhos ele argumenta a favor da existência de Deus baseada na necessidade para uma explicação do porquê as coisas são como são e não de outra forma. Aqui Leibniz apela para seu famoso Princípio de Razão Suficiente (PRS). Leibniz começa perguntando “Por que deveria existir algo em vez do nada?”
Seguindo Davis, você reconstruiu o argumento cosmológico de Leibniz da seguinte forma:
1) Tudo que existe tem uma explicação para existir, seja essa explicação uma necessidade da própria natureza da coisa ou uma causa externa [Uma versão do PRS].
2) Se o universo tem uma explicação para existir, essa explicação é Deus.
3) O universo existe.
4) Portanto, o universo tem uma explicação para existir (de 1, 3)
5) Portanto, a explicação da existência do universo é Deus (de 2, 4).
A conclusão segue de forma válida das premissas, então a única pergunta é se as três premissas são mais plausíveis do que suas negações. A premissa 3 não está em disputa. Consequentemente, o debate verdadeiro centraliza-se em 1 e 2. Van Inwagen argumenta que o PRS é falso. Se o argumento de van Inwagen é bem sucedido, então a premissa 1 é falsa e o argumento não é sólido.
Van Inwagen confessa que o PRS parece plausível à primeira vista, mas ele acha-o implausível sob maior escrutínio. Quais razões van Inwagen oferece para sustentar sua conclusão? Ele acha que PRS leva à conclusão absurda de que toda a proposição é uma verdade necessária. Isso é uma conclusão inaceitável. Consequentemente, PRS é refutado por reductio ad absurdum. A estratégia é deduzir a falsidade de PRS baseado na suposição de que existem proposições contingentes. O argumento dele é o seguinte.
Primeiro, suponha que existem proposições e mundos possíveis.
1) Existem algumas proposições contingentes.
2) Algumas proposições são verdade em alguns mundos e falsas em outros.
3) Existem mundos possíveis.
4) Suponha que existam quatro mundos possíveis, um dos quais é real.
5) Arbitrariamente, permita que o Mundo Possível 2 seja o mundo real.
6) Se o Princípio da Razão Suficiente está certo, existe razão suficiente para o fato de que o Mundo Possível Dois é o mundo real; isto é, este fato tem uma explicação.
7) Deixe S ser a explicação suficiente para identificar ou descrever o Mundo Possível Dois como o mundo real [a proposição verdadeira “O Mundo Possível Dois é o mundo real”.]
8) S não pode ser verdade em qualquer outro mundo possível salvo no Mundo Possível Dois.
9) S deve ser verdade no Mundo Possível Dois e em nenhum outro mundo possível. Quais proposições existem nesse cenário? Apenas uma: a proposição que o Mundo Possível Dois é o mundo real.
10) Mas o fato que o Mundo Possível Dois é o mundo real não pode servir como uma explicação para o fato que o Mundo Possível Dois é o mundo real. “Porque o Mundo Possível Dois é o mundo real” não é uma resposta para a pergunta “Por que o Mundo Possível Dois é o mundo real?”
11) Portanto, não pode haver resposta para a pergunta “Por que o Mundo Possível Dois é o mundo real?”
Van Inwagen explica: “Outra forma de explicar este ponto seria dizer que não pode haver explicação de todo o conjunto de verdades, pois o mundo real é simplesmente aquele mundo possível tal que, qualquer que seja a verdade, é verdade nele; o que faz um mundo possível em particular o real é que ele “contém” todas as verdades e nenhuma das falsidades. E esta conclusão não é inverossímil. Não podemos explicar o fato que certa proposição contingente é uma verdade simplesmente ao apelar para verdades necessárias. Portanto, qualquer explicação de uma verdade contingente deve apelar a outras verdades contingentes e, como consequência, todo o conjunto de verdades contingentes não pode ser explicado porque não existem verdades contingentes fora deste conjunto para que se apele a elas. Mas então o Princípio da Razão Suficiente é falso.” Finalmente, Van Inwagen repete, “Segue que se o Princípio é verdadeiro, então não existem proposições contingentes; se o Princípio é verdadeiro, toda verdade é uma verdade necessária.”
Minha pergunta principal é se você acha que o argumento de van Inwagen aplica-se para sua formulação do PRS em sua versão do argumento cosmológico Leibziniano? Se sim, então qual a sua proposta de resposta? Se não, então por que não? Você poderia explicar em mais detalhes sua compreensão do PRS e porque você sente que ele escapa ou não escapa o contra-exemplo de van Inwagen ao PRS? Eu acho algumas versões do PRS intuitivamente plausíveis, mais do que sua negação. Alguma coisa deve estar errada.
Felicidades,
Aristophanes
United States
Dr. Craig responde
A
Fico feliz com sua pergunta e de como você a colocou tão bem, porque ela me permite diferenciar a versão do argumento que eu defendo da própria versão de Leibniz. A resposta curta a sua pergunta é que a objeção de Van Inwagen não se aplica à formulação do Princípio de Razão Suficiente que se expressa na premissa (1) do argumento que eu defendo. De fato, a premissa (1) foi formulada deliberadamente para evitar esta objeção tradicional à formulação fortíssima do princípio de Leibniz.
No “A Monadologia”, Leibniz formula seu Princípio da Razão Suficiente (PRS) da seguinte forma: “nenhum fato pode ser real ou existente, nenhuma declaração pode ser verdadeira, a menos que haja razão suficiente do porquê é assim e não de outra forma.” Sob a base desse princípio, Leibniz defendia que deve haver razão suficiente do porquê qualquer coisa existe. Ele continuou argumentando que a razão suficiente não pode ser encontrada em qualquer coisa individual no universo, nem na coleção de tais coisas que é o universo, nem nos estados anteriores do universo, mesmo que estes tivessem um regresso infinito. Portanto, deve existir um ser ultramundano que é metafisicamente necessário em sua existência, isto é, sua inexistência é impossível. Ele é a razão suficiente para sua própria existência assim como para a existência de cada coisa contingente.
Sem dúvida, a premissa mais controversa no argumento cosmológico Leibniziano é o PRS. O Princípio como colocado no “A Monadologia” parece para muitos, incluindo para mim, ser evidentemente falso. O princípio de Leibniz requer que haja uma explicação para todos os fatos ou verdades. Mas nem todo o fato, parece, pode ter uma explicação, pois não pode haver uma explicação do que Alexander Pruss chama o Grande Fato do Contingente Conjuntivo (GFCC) que é, em si, o conjunto de todos os fatos contingentes que existem. (O GFCC é, na verdade, seu Mundo Possível Dois.) Pois se a explicação do GFCC é contingente, então ele também deve ter outra explicação, que é impossível já que o GFCC inclui todos os fatos contingentes que existem. Por outro lado, se a explicação do GFCC é necessária, então o fato explicado por ele também deve ser necessário, o que é impossível já que o GFCC é contingente.
O que Stephan Davis viu é que um argumento cosmológico bem sucedido não depende de qualquer coisa tão forte como a versão de Leibniz do PRS. Existem muitos candidatos mais fracos e mais plausíveis para um PRS que podem ser utilizados em um argumento cosmológico para um ser necessário. Por exemplo, enquanto rejeita o requisito para uma explicação de um fato como o GFCC, Crispin Wright e Bob Hale, em sua discussão da declaração anti-Platonista de Hartry Field de que é uma contingência inexplicável se objetos matemáticos existem, defendem que esta explicabilidade é a posição padrão e que exceções a esta regra tem de ser exceções explicáveis - alguma explicação é necessária para o porquê de nenhuma explicação ser possível.
Por exemplo, eles podem afirmar que se a existência física está em questão, a pergunta de Leibniz, “Por que existe algo em vez do nada?” é uma pergunta que não pode ser respondida se uma explicação satisfatória do porquê situações físicas acontecem tem de aludir a uma situação causalmente anterior, em que ela não acontece, já que um mundo fisicamente vazio não causaria nada. Eles acreditam que a demanda por uma explicação da contingência da existência física é antecipada pelo princípio restritivo que a explicação da situação (física) obtida deve aludir a uma situação causalmente anterior em que ela não é obtida.
Tal princípio será visto pelo teísta, porém, como nem um pouco restritivo já que a explicação do porquê o mundo físico existe pode e deve ser provido em termos de situações não-físicas causalmente anteriores, envolvendo a existência e vontade de Deus. O proponente do argumento cosmológico Leibniziano poderia gerar seu argumento defendendo, juntamente com os princípios acima, que a obtenção de qualquer situação física tem uma explicação.
De forma alternativa, o teísta poderia afirmar que, no caso de qualquer situação contingente, existe uma explicação do porquê aquelas situações são obtidas ou uma explicação do porquê nenhuma explicação é necessária. Isso isentaria algo como o GFCC, já que ele não pode ter uma explicação. Ou, mais estreitamente, o teísta pode defender que para qualquer coisa contingentemente existente, existe uma explicação do porquê aquela coisa existe. Ou, novamente, ele pode afirmar que tudo que existe tem uma explicação para sua existência, ou na necessidade de sua própria natureza ou em uma causa externa. Todas estas são versões modestas, não-paradoxas e aparentemente plausíveis do PRS. Portanto, a objeção colocada por Van Inwagen erra o alvo - ou melhor, está direcionada a outro alvo.
Além do mais, sob a base do trabalho de Alexander Pruss, eu tenho questionado se o tipo de objeção expressado por Van Inwagen realmente é bem sucedido contra a versão forte do PRS. A afirmação de que a explicação do GFCC não pode ser encontrada em uma verdade necessária pressupõe que explicações devem resultar nos fatos que eles servem para explicar. Se algum fato é materialmente implícito por uma verdade necessária, então ele pode ser explicado por aquela verdade sem ele mesmo ser necessário. Pruss sugere que o GFCC pode ser explicado pela verdade necessária que Deus fez um balanço das razões para criar cada mundo e escolheu livremente qual mundo criar. Além do mais, a afirmação que GFCC não pode ser explicado por algumas verdades contingentes assume, de forma ainda mais controversa, que nenhuma verdade contingente pode ser auto-explicada. A razão porque o GFCC é verdade pode ser simplesmente porque cada um de seus conjuntos é verdade; nada mais é necessário para explicar porque o GFCC é verdade do que a verdade de seus constituintes atômicos, cada um do qual tem uma explicação para sua verdade. Ou, novamente, pode se presumir que a explicação para o GFCC é o fato que Deus livremente quer o GFCC. (Note que a proposição O Mundo Possível Dois é o mundo real não é a única proposição unicamente verdadeira naquele mundo; a proposição equivalentemente lógica Deus livremente quer que o Mundo Possível Dois seja real também é). Já que aquela explicação é em si mesma um fato contingente, ela também é um constituinte do GFCC que faz parte da vontade de Deus. Pode também ser vista como auto-explicativo ou sua explicação pode ser que Deus quer querer o GFCC, cujo fato também será constituinte do GFCC para ser da mesma forma explicado em termos de ainda por cima outro conjunto. Esse regresso parece ser tão inofensivo quanto uma série de vinculações como sendo verdade que é verdade que p. O regresso inteiro é contido no GFCC e assim parte da vontade de Deus.
Se você quer ir atrás de mais informações da versão forte do PRS, veja o artigo de Pruss no Blackwell Companion to Natural Theology (2009) ou seu mais anterior The Principle of Sufficient Reason (2006).
De qualquer forma, a versão do PRS na premissa (1) do argumento que eu defendo é compatível com a existência de fatos brutos sobre o mundo como o GFCC ou situações brutas como a obtenção do Mundo Possível Dois. Requer meramente que existam dois tipos de seres: seres necessários, que existem por sua própria natureza e, portanto, não têm qualquer causa externa para sua existência, e seres contingentes, cuja existência é justificada por fatores causais externos. Isso parece, para mim, um princípio eminentemente plausível.
- William Lane Craig