#800 Aumentando e diminuindo a exigência epistêmica
October 07, 2022Olá, Dr. Craig.
Em episódio recente do seu podcast, o senhor respondeu à pergunta de um ouvinte chamado Kyle. Ele perguntou sobre confiança epistêmica e se deveria abandonar a fé, caso não se possa alcançar alta confiança epistêmica. O senhor respondeu dizendo: “Se houver uma chance em um milhão que o cristianismo é verdadeiro, vale a pena crer”.
Será que diminuir qualquer exigência epistêmica se trata do caminho correto para a verdade? Será que os cristãos não deveriam elevar a exigência epistêmica para Deus, se as provas ao Seu favor são tão boas?
Van
Estados Unidos
United States
Dr. Craig responde
A
Blogueiros ateus andam em polvorosa, injustificadamente, com a minha resposta a Kyle; por isso, fico feliz com esta oportunidade de esclarecer a minha resposta.
O primeiro passo é entender corretamente a pergunta de Kyle (que pode ser encontrada aqui). Ele não disse que “deveria abandonar a fé, caso não se possa alcançar alta confiança epistêmica”. A afirmação de Kyle foi muito mais radical do que isto. Ele deu a entender que, para que a crença cristã seja epistemicamente justificada, ele precisaria ter a experiência de uma aparição pessoal da Vigem Maria ou do próprio Jesus! Esta exigência eleva o nível epistêmico tão ridiculamente que se excluiria da fé cristã praticamente qualquer pessoa viva hoje.
Eu poderia ter respondido a Kyle simplesmente indicando que temos boa justificação epistêmica para a fé cristã (argumentos da teologia natural, além das provas do cristianismo) e que o padrão dele para a crença racional era irrealisticamente elevado. Escolhi, porém, tomar um rumo diferente.
A fim de entender a minha resposta, é preciso fazer distinção entre justificação pragmática e justificação epistêmica.[i] Justificação epistêmica busca razões dirigidas pela verdade para determinada crença. Ou seja, busca razões para pensar que a crença é verdadeira. Em comparação, justificação pragmática busca razões que não são dirigidas pela verdade para determinada crença. Isto se costuma fazer a partir da análise de custo/benefício. Perguntam-se quais custos e benefícios se acumulam na sustentação de uma crença, e ponderam-se uns em relação aos outros.
Às vezes, pode-se ser pragmaticamente justificado na sustentação de uma crença, mesmo que não seja justificado epistemicamente na sustentação de tal crença. Um exemplo muito conhecido na literatura convida a pessoa a imaginar que foi diagnosticada com câncer em estágio 4. O prognóstico é sombrio: o tratamento, provavelmente, não será eficaz, e a pessoa não terá muito tempo de vida. Não obstante, os estudos mostram que os pacientes de câncer que creem que superarão a doença têm chance maior de sobrevivência do que aqueles que não o creem. Assim, o que a pessoa deveria fazer? Se a pessoa crê apenas no que é epistemicamente justificado, ela já está condenada. Portanto, ela está pragmaticamente justificada a crer que superará tudo, mesmo que tal crença vá de encontro aos indícios.
Por vezes, os epistemólogos falarão de “ingerência pragmática” no epistêmico. De acordo com esta ideia, razões pragmáticas podem servir para aumentar ou diminuir as exigências para a crença epistemicamente justificada. Kyle, evidentemente, crê na ingerência pragmática, pois ele pensa que, em vista dos custos significativos concomitantes à crença cristã, a barreira epistêmica deve ser estabelecida em nível tão ridiculamente elevado para que a crença cristã seja justificada epistemicamente. A minha abordagem na resposta ao Kyle foi aceitar com ele a ingerência pragmática no epistêmico, mas discordar completamente com a análise que ele fez do custo-benefício. A minha afirmação é que os custos costumeiramente associados com a crença cristã são mínimos em vista do amor, gozo, paz, paciência etc. que se acumulam na vida do cristão cheio do Espírito e, o que é ainda mais importante, quaisquer desses custos são, simplesmente, submergidos pelo benefício infinito da vida eterna e do relacionamento com Deus, um bem incomensurável. Isto continua a ser verdade, mesmo para aqueles cristãos que sofram perseguição e martírio por sua fé. Se isto tudo estiver correto, os argumentos pragmáticos podem servir para diminuir radicalmente as exigências da justificação epistêmica para a crença cristã. De todo modo, os argumentos certamente não a aumentam (mesmo que, como você disse, as provas favoráveis a Deus sejam extremamente boas).
A alternativa seria que, mesmo que se pense que argumentos pragmáticos não aumentam ou diminuem as exigências para justificação epistêmica, continua a ser verdade, como mostra a ilustração do câncer, que se pode ser pragmaticamente justificado na sustentação de uma crença que não seria epistemicamente justificada. Para alterar um pouco a ilustração, suponha que alguém lhe disse que havia uma nova droga experimental que você poderia tomar e lhe daria uma chance de sobrevivência de um em um milhão, além de não haver nenhum efeito colateral negativo importante com esse remédio. Isto sem contar que a droga é gratuita. Você não tomaria o remédio? Igualmente, dada a sentença de morte sob a qual vivemos, será que a pessoa não estaria justificada em render a sua vida a Cristo, em fé?
Justificação epistêmica leva à verdade, pois se estão buscando razões para a crença dirigidas pela verdade, isto é, razões para pensar que a crença é verdadeira. Porém, às vezes, pode-se estar pragmaticamente justificado na sustentação de uma crença em vista dos grandes benefícios a se obterem, caso a crença venha a ser verdadeira. Considerações pragmáticas podem, portanto, suplantar considerações epistêmicas, em alguns casos.[ii]
[i] Ver Philosophical Foundations for a Christian Worldview, com J. P. Moreland, 2.ed.rev. (Downers Grove, Ill.: InterVarsity Press, 2017), pp. 145-147 [publicado em português com o título Filosofia e cosmovisão cristã, 2.ed.rev. (São Paulo: Vida Nova, 2021)].
[ii] Agradeço a Liz Jackson pelas úteis discussões sobre o assunto.
- William Lane Craig