#701 Como lidar com Bart Ehrman
March 23, 2021Olá, Bill.
Estou no primeiro ano na Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, frequentando um curso sobre o Jesus histórico com o Dr. Bart Ehrman, cujo trabalho, com certeza, o senhor conhece bem. Infelizmente, gastar dois dias por semana com um dos maiores críticos textuais no mundo ocidental me fez questionar a minha fé. Assisti à sua série Defenders sobre inerrância bíblica, e meu entendimento atual é que uma Bíblia que não seja inerrante não necessariamente apresenta um problema doutrinário significativo para os cristãos. Aqui vão minhas perguntas, então:
1. Há uma interpretação da Bíblia em que Jesus adotaria uma visão não-literal da história do Antigo Testamento, por exemplo, a narrativa do dilúvio?
2. Se não, ficamos presos entre as opções de Jesus estar possivelmente errado, com base nos dados científicos (o que negaria a onisciência e/ou divindade dele), e a Bíblia “citar erroneamente Jesus” (em referência ao livro do Dr. Ehrman) e, portanto, tornar-se errante?
3. Será que uma Bíblia inerrante solaparia a confiabilidade histórica do Novo Testamento?
Por favor, entre em mais detalhes, se possível.
Anônimo
Estados Unidos
Dr. Craig responde
A
Fico muito chateado de receber uma carta dessas, revelando o dano desnecessário causado pela crítica de Bart Ehrman ao cristianismo do Novo Testamento. Só espero que, ao passar por esse banho ácido de crítica, você sairá mais forte após a provação. Vou abordar as suas perguntas em ordem:
1. “Há uma interpretação da Bíblia em que Jesus adotaria uma visão não-literal da história do Antigo Testamento, por exemplo, a narrativa do dilúvio?” Sim, existe, e aparece no meu breve lançamento In Quest of the Historical Adam [Em busca do Adão histórico] (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans). Você pode ter uma prévia dessa interpretação nas minhas aulas Defenders, série 3, sobre a doutrina da criação: excurso sobre criação e evolução. Permita-me reproduzir aqui um excerto do meu livro sobre Adão que poderia ser igualmente aplicado a Noé e o dilúvio.
Muitos estudiosos buscam distinguir entre o Adão literário e o Adão histórico. O Adão literário é um personagem numa história, especificamente nas histórias de Gênesis 2-3. O Adão histórico é a pessoa, se ela houve mesmo, que existiu na realidade, o próprio indivíduo de que supostamente tratam as histórias. A título de analogia, o Pompeu das Vidas de Plutarco é o Pompeu literário, ao passo que o general romano que, de fato, viveu era o Pompeu histórico. O que queremos saber é o quanto o Pompeu literário das Vidas se parece com o Pompeu histórico. Bastante, pensamos nós, pois Plutarco era um bom historiador. Igualmente, queremos saber o quanto o Adão literário de Gênesis 2—3 se parece com o Adão histórico, se ele houve mesmo, ou, para ser mais preciso, se os autores do Novo Testamento afirmam que o Adão literário de Gênesis 2—3 muito se aproxima do Adão histórico.
Esta distinção implica outra distinção entre verdade e verdade em uma história. Uma afirmação A é verdadeira se A afirma o que se passa. Uma afirmação S é verdadeira em uma história se ela se encontra ou se subentende naquela história. Assim, se eu disser, por exemplo, que Gilgamexe matou o Touro do Céu, minha afirmação, embora verdadeira na Epopeia de Gilgamexe, é falsa. Verdade em uma história não exclui, porém, a verdade em si. Na Epopeia de Gilgamexe ocorrem ou subentendem-se afirmações como “Gilgamexe foi um antigo rei sumério”, que são tanto verdadeiras na epopeia quanto verdadeiras em si. Por isso, a pergunta correspondente seria se as passagens neotestamentárias pertinentes se pretendem afirmar verdades em si ou, pura e simplesmente, verdades nas histórias de Gênesis.
Tendo em mãos tais distinções, precisamos ainda distinguir entre o uso que um autor do Novo Testamento faz de um texto ilustrativamente e assertivamente. Usar um texto ilustrativamente significa usá-lo simplesmente para fornecer uma ilustração, real ou imaginada, do argumento que o autor está tentando afirmar. Tal uso ilustrativo de um texto não compromete aquele que dele se utiliza com a verdade do texto em si, mas simplesmente com a verdade em um texto. Por exemplo, a mitologia grega, tão familiar à cultura ocidental, é-nos fonte frequente de ilustrações. Falamos que algo é um cavalo de Troia, ou do calcanhar de Aquiles de alguém, ou que alguém está abrindo uma caixa de Pandora, sem pensar que estamos, assim, comprometendo-nos com a realidade das respectivas entidades míticas.
Estas distinções não são feitas para se safar habilmente do compromisso que os autores do Novo Testamento têm com a verdade das histórias de Gênesis e, portanto, do Adão histórico. Antes, são importantes no nosso tratamento de muitas passagens do Novo Testamento que, se interpretadas assertivamente, seriam infundadas no Antigo Testamento e, por vezes, plausivelmente falsas. É intrigante que... algumas dessas passagens envolvem a citação de textos pseudepigráficos e mitológicos a cuja verdade não desejaríamos nos comprometer.
Passo, então, a criticar o que denomino de “provas muito fáceis de historicidade” baseadas nas citações que o Novo Testamento faz do Antigo Testamento, bem como de escritos pseudepigráficos e mitológicos. Em seguida, aplico isto a alguns dos ditos de Jesus:
Assim, voltando à nossa lista de textos relacionados a Adão no Novo Testamento, vemos que alguns deles, plausivelmente, não vão além da figura de Adão em Gênesis. As afirmações do nosso Senhor relativas a Adão são, plausivelmente, ilustrativas. Ele começa chamando atenção para o Adão literário: “Não lestes que...?”. Em seguida, cita Gênesis 1.27: “o Criador os fez homem e mulher”, unindo esta afirmação a Gênesis 2.24: “Por isso o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher; e serão os dois uma só carne”. Isto forma a base para o ensino dele sobre o divórcio. Jesus estava fazendo uma exegese da história de Adão e Eva para discernir as suas implicações para o casamento e o divórcio, e não afirmando a sua historicidade.
Igualmente, a afirmação de Jesus de que “esta geração prestará contas do sangue derramado de todos os profetas, desde a fundação do mundo, desde o sangue de Abel, até o sangue de Zacarias” (Lucas 11.50-51) é caso paradigmático do uso de figuras literárias. Comentaristas costumam observar que o que se tem em mente aqui não é a história do mundo, mas a história do cânon do Antigo Testamento. Jesus está falando da história literária do Antigo Testamento e dos dois extremos literários do Antigo Testamento.
Os mesmos princípios poderiam ser aplicados às afirmações de Jesus sobre o dilúvio de Noé. Ele está falando do Noé literário e, assim, não implica historicidade. Por isso, inferir historicidade é fácil demais, como mostram tão claramente as referência pseudepigráficas e mitológicas.
2. “Se não [i.e., se não há nenhuma interpretação das palavras de Jesus que não nos comprometa com a historicidade do Antigo Testamento], ficamos presos entre as opções de Jesus estar possivelmente errado, com base nos dados científicos (o que negaria a onisciência e/ou divindade dele), e a Bíblia “citar erroneamente Jesus” (em referência ao livro do Dr. Ehrman) e, portanto, tornar-se errante?” Ótima pergunta! O dilema é que, se essas histórias do Antigo Testamento não são históricas, será que as afirmações de Jesus sobre elas são falsas, ou será que ele foi mal representado pelos evangelistas? Novamente, no meu livro sobre o Adão histórico, tento mostrar que, mesmo na pior das hipóteses, não ficamos presos nesse dilema, mas temos uma terceira alternativa. Eu a explico na pergunta # 693. Em vez de me repetir aqui, recomendo que leia aquela resposta.
3. Acho que você quis dizer: “Será que uma Bíblia errante solaparia a confiabilidade histórica do Novo Testamento?”, uma vez que uma Bíblia sem erros, obviamente, seria confiável do ponto de vista histórico. Tal Bíblia errante não seria inspirada, mas apenas um registro humano dos atos revelatórios na história, culminando em Jesus. Muitos teólogos contemporâneos entendem a Bíblia assim. No entanto, muitos dos mesmos estudiosos tratam os evangelhos como registros bastante confiáveis da vida e ensinos de Jesus de Nazaré. Obviamente, um registro histórico de eventos não precisa ser sem erro para ser confiável, em linhas gerais.
Em particular, como mostro nas minhas publicações, a vasta maioria dos críticos do Novo Testamento concordam que, historicamente, (1) Jesus de Nazaré foi executado por crucificação pelas autoridades romanas no período da Páscoa em Jerusalém; (2) o cadáver de Jesus foi enterrado num sepulcro por um membro do Sinédrio judaico chamado José de Arimateia; (3) o sepulcro de Jesus foi descoberto vazio no domingo após a crucificação por um grupo de discípulas, incluindo Maria Madalena; (4) diversos indivíduos e grupos de pessoas, em diferentes ocasiões e numa variedade de circunstâncias, vivenciaram aparições de Jesus vivo dentre os mortos; e (5) os discípulos originais vieram a crer repentina e sinceramente que Deus ressuscitara Jesus dentre os mortos, apesar de terem toda predisposição contrária. O próprio Bart Ehrman, nas suas aulas sobre o Jesus histórico para Teaching Company, concordou com estes fatos. Apenas posteriormente, depois do meu debate com ele sobre a ressurreição de Jesus, ao ver aonde isto tudo estava levando, ele recuou dessas conclusões, mesmo sem ter nenhuma prova nova e contrariamente à maioria dos estudiosos. Estes fatos subjazem a inferência da ressurreição de Jesus — pela qual se mostra que o cristianismo é verdadeiro —, independentemente da inerrância bíblica.
Quero recomendar-lhe algumas palestras de divulgação que dei sobre a visão de Ehrman do Jesus histórico, expondo muitos dos erros dele e, para ser bem franco, enganos deliberados: https://www.youtube.com/watch?v=zANl-OcPnfI. Quanto ao critério de autenticidade, sobre o qual você, certamente, ouviu de Ehrman nas aulas, é alarmante a regularidade com que ele, primeiramente, distorce cada critério e, em seguida, aplica-os erroneamente, viciando, assim, as conclusões a que chega.
- William Lane Craig