English Site
back
5 / 06

#77 Conhecimento Médio e Particularismo Cristão

January 14, 2015
Q

Pergunta 1:

Prezado Dr. Craig,

Queria saber como você responderia ao seguinte argumento.

1. O Deus Cristão deseja fortemente um relacionamento de amor com quase todos os seres humanos e deseja que esse relacionamento dure por toda eternidade. [Suposição Cristã]

2. Um relacionamento de amor com Deus é possível apenas se alguém (a) acredita que Ele existe e (b) escolhe estar em um relacionamento de amor com Deus.

3. Portanto, se o Deus cristão existe, já que ele quer que a humanidade tenha um relacionamento de amor com ele, ele faria sua existência notável para quase todos, assegurando, desta forma, a condição (a). (de 1, 2)

4. Existe uma grande diversidade de religiões e crenças religiosas conflitantes (Cristianismo, Islamismo, Hinduísmo, Budismo, secularismo, etc.), e mais pessoas que não acreditam que o Deus cristão existe do que aqueles que acreditam. [Suposição empírica]

5. Portanto, não é verdade que quase todos os seres humanos acreditam que o Deus cristão existe. (de 4)

6. Portanto, a existência do Deus cristão não é notável para quase todos. (de 5)

7. Portanto, o Deus Cristão não existe. (de 6,3)

--

Spencer

Pergunta 2:

Ouvi você falar duas vezes sobre pluralismo religioso. Nessas duas vezes você apresentou o que acredita ser uma solução plausível para o problema dos não-evangelizados. Se eu entendo sua visão corretamente, você propõe que Deus determina o tempo e o lugar da existência de cada pessoa baseado em Seu conhecimento médio de como eles responderiam ao Evangelho se eles o ouvissem. Aqueles que Ele sabe que não acreditariam no Evangelho se o ouvissem são designados a viver em um tempo e lugar em que eles não serão expostos ao evangelho. Aqueles que Ele sabe que vão crer se forem expostos ao evangelho são designados a viver em um tempo e lugar em que eles serão expostos ao Evangelho.

Embora eu ache sua proposta atrativa, o sucesso dela parece requerer a crença na preexistência de almas, de tal forma que Deus designa certas almas para certos corpos quando eles são criados: as almas descrentes são infundidas em corpos que viverão em áreas onde o Evangelho não será ouvido (e mesmo em alguns lugares onde o evangelho será ouvido), e almas crentes são infundidas em corpos que viverão em áreas onde o Evangelho será ouvido. De que outra forma Deus poderia consignar pessoas a viver em certos tempos e lugares? Sei que você não concorda com a pré-existência de almas, então como você explica como Deus é capaz de assegurar que não-crentes -- e apenas não-crentes -- nascerão em tempos e lugares específicos?

Jason

United States

Dr. Craig responde


A

Vou responder a sua pergunta primeiro, Spencer. Eu já lidei com este argumento em alguns lugares, por exemplo, no meu debate com Theodore Drange e em minha discussão sobre o ocultamento divino em Philosophical Foundations for a Christian Worldview [Filosofia e Cosmovisão Cristã]. A falha fatal no argumento é (3). Dado o fato que Deus tem conhecimento médio, isto é, conhecimento do que cada pessoa possível faria livremente em qualquer circunstância em que Deus poderia colocá-la, Deus sabe, para cada ser humano, qual tipo de evidência iria conduzí-lo, de forma não coerciva, a acreditar. Assim, Ele sabe, por exemplo, que mesmo que mais evidência seja dada para determinada pessoa, essa pessoa ainda assim não entraria livremente em um relacionamento de amor com Deus. Claro, aquela pessoa pode vir a acreditar que um ser como Deus existe, mas isso não quer dizer que tal pessoa viria a amar e conhecer a Deus. Nesse caso, dado o fato de que Deus proveu àquela pessoa fundamentos suficientes para acreditar (incluindo o testemunho de Seu Espírito Santo), Deus não está sob qualquer obrigação de prover mais evidências para tal pessoa, já que Ele sabe que isso não faria diferença. Na verdade, até onde sabemos, fazer isso poderia resultar em circunstâncias nas quais outra pessoa não chegaria a um conhecimento salvífico de Deus, de forma que o balanço geral de salvos e perdidos seria pior! É possível que, em um mundo onde a existência de Deus fosse tão óbvia como o nariz no seu rosto, uma porcentagem ainda menor da população do mundo viria a conhecer e amá-Lo do que a porcentagem que temos no mundo real em que vivemos. Portanto, eu acho que você pode ver que o não-teísta está indo longe demais quando afirma (3), especulando sobre fatores que estão além da nossa capacidade de conhecer.

Essa perspectiva de conhecimento médio tem aplicações óbvias para a questão do destino dos não-evangelizados, que é levantada pelo Jason. Você não apresentou o meu posicionamento de forma muito precisa, Jason. Eu defendo que é possível que Deus tenha ordenado o mundo de tal forma que todos aqueles que nunca foram expostos ao Evangelho e se perdem são pessoas que não teriam aceitado o Evangelho e sido salvos mesmo que tivessem sido expostos a ele. Mas, obviamente, existem muitas pessoas que não receberiam o Evangelho se fossem expostas a ele e que, de fato, são expostas a ele! De forma similar, nem todas as pessoas que acreditariam no Evangelho se tivessem sido expostas a ele nascem em um tempo e lugar em que elas são expostas a ele, pois é possível que alguns dos não-evangelizados respondam positivamente à revelação geral de Deus na natureza e consciência e, assim, são salvos pela morte expiatória de Cristo sem ter conhecimento consciente de Cristo. Minha preocupação é com os não-evangelizados que rejeitaram a revelação geral de Deus e estão condenados, mas que teriam aceitado o evangelho se tivessem sido expostos a ele. A minha proposta é que é possível, pela providência de Deus, que não existam tais pessoas. Deus é amoroso demais para permitir que qualquer pessoa seja condenada pelos acidentes históricos e geográficos de seu nascimento.

Tal proposta não requer de forma alguma a pré-existência de almas anteriormente às suas encarnações. Tal hipótese não é condição nem necessária nem suficiente para minha proposta. Ao invés disso, o que é requerido e suficiente é somente o conhecimento médio. Se Deus em Sua onisciência sabe o que qualquer pessoa possível que Ele poderia criar faria livremente em qualquer circunstância possível em que Deus pudesse colocá-la, então Deus sabe as condições nas quais cada pessoa possível iria ou não aceitar livremente a salvação. Lembre-se: Deus tem conhecimento médio antes (falando em termos de precedência lógica) de Seu decreto de criar qualquer coisa, então não existe nenhuma alma pré-existente por aí antes de Seu decreto.

Já que a Bíblia diz que Deus quer que todas as pessoas se salvem, podemos confiar nEle para ordenar o mundo de forma tão providencial que a todas as pessoas são dadas graça suficiente para a salvação e evidência suficiente para acreditar. Ninguém pode levantar-se diante de Deus no Dia do Julgamento e reclamar dizendo que deveria ter tido melhores evidências, pois Deus sabia que mesmo que Ele tivesse dado mais evidências para essa pessoa, isso não teria resultado na aceitação livre, por parte dessa pessoa, de Sua salvação.

- William Lane Craig