#711 Contingência histórica e crença cristã
March 23, 2021Olá, Dr. Craig.
Muito obrigado por seus podcasts e escritos, que, embora eu não seja cristão (ainda), tenho aproveitado por muitos anos. Parece-me que as nossas escolhas importantes na vida são produto do que entendemos ser bom naquele tempo e que este entendimento é produto contingente das experiências de vida. Se Josef Stálin tivesse vivido 50 anos antes ou numa parte diferente do mundo, ele teria muito possivelmente vivido o que, do ponto de vista humano, contaria como uma vida boa. Ou, então, se tivéssemos vivido na Alemanha nazista, quem sabe a quais ações duvidosas teríamos sido atraídos?
A contingência do nosso entendimento e, portanto, das nossas escolhas, encaixa-se bem com a crença cristã de que a salvação é dom de Deus que não pode ser ganhado, que nada do que podemos fazer pode por si só nos salvar (ou condenar). Porém, se isto for verdade, qual é o sentido teológico da escolha de virar cristão? Como escolha de estilo de vida, tem muito a ser louvada, mas de onde vem qualquer valor salvífico ou moral? Se é nossa escolha, é completamente contingente e sem valor salvífico. Se, por outro lado, a escolha é reação à intervenção do “espírito santo”, trata-se, em última instância, de escolha de Deus, e não nossa, sendo, portanto, arbitrária, uma vez que Deus não tem nenhum fundamento óbvio para escolher a quem salvar; por mais que nossas escolhas pareçam boas ou más, estamos apenas escolhendo o que nos parece bom com base no nosso entendimento limitado e circunstancial.
A linha de raciocínio acima me parece difícil de evitar e me faz sentir um tanto fatalista. Será que estou entendendo corretamente o que creem os cristãos? Se não estou, poderia, por favor, colocar-me no caminho certo?
Muito obrigado.
Grant
Reino Unido
Dr. Craig responde
A
É desconcertante perceber que, se tivesse crescido na Alemanha nazista, poderia muito bem ter sido membro da Juventude Hitlerista ou mesmo um guarda num campo de concentração. Porém, não penso que tais contingências históricas têm as consequências teológicas que você imagina, Grant.
Em primeiro lugar, não enxergo que a contingência histórica de nossas escolhas e ações tem algo a ver com o mérito que teriam para salvação ou não. Poderia ainda ser o caso que realizar boas ações em quaisquer circunstâncias em que venha a me encontrar seja meritoso de salvação. Supondo a liberdade da vontade, há muitas coisas que eu poderia fazer nessas circunstâncias para me salvar ou condenar. (Se você estiver supondo determinismo causal, aí é uma questão completamente diferente.)
Felizmente, Deus escolheu não nos julgar por nossas boas obras, no quesito salvação. Pelo contrário, Ele nos salva por Sua graça imerecida, apropriada pela fé. A morte expiatória de Cristo nos redime do pecado e sua pena, e temos somente de receber agradecidamente o livre perdão de Deus para sermos salvos. Portanto, “o sentido teológico da escolha de virar cristão” é que nós, assim, chegamos a encontrar perdão e nova vida. Concordo com você que a nossa livre escolha de virar cristão é “completamente contingente e sem valor salvífico”. Podemos imaginar circunstâncias em que eu não teria virado cristão, e minha escolha contingente para seguir a Cristo não é meritoso e, portanto, não tem valor salvífico. Tem importância salvífica porque, mediante minha livre escolha, recebo a graça de Deus e sou salvo, mas não tem nenhum mérito em relação à minha salvação. Ao mesmo tempo, minha livre escolha é, de fato, “uma reação à intervenção do ‘Espírito Santo’”, que me convence do pecado e me atrai para Deus. Se a obra do Espírito pode ser resistida, não sendo coercitiva, não há nenhum risco de que a escolha seja, “em última instância, escolha de Deus, e não nossa”. Fica a seu encargo querer ceder ao convite do Espírito Santo ou não. Tampouco a escolha de Deus é “arbitrária”, como se Deus escolhesse oferecer a graça salvadora a alguns, mas não a outros. Segundo a explicação molinista da providência e predestinação que eu favoreço,[1] Deus oferece graça suficiente para salvação a todo ser humano que Ele cria e que dele busca a salvação.
Segue daí que “Deus não tem nenhum fundamento óbvio para escolher a quem salvar”? Bem, sim e não. Como disse, a graça de Deus não escolhe algumas pessoas com base nos méritos delas e oferece salvação somente a elas. Antes, a graça de Deus é oferecida indiscriminada e livremente. Porém, em outro sentido, Deus tem, sim, um fundamento óbvio para escolher a quem salvar, a saber, Ele escolhe salvar a todos que escolhem receber o Seu amor e perdão. Todos os que “recebem da transbordante suficiência da graça e da dádiva da justiça” serão salvos (Romanos 5.17).
Você lamenta que, “por mais que nossas escolhas pareçam boas ou más, estamos apenas escolhendo o que nos parece bom com base no nosso entendimento limitado e circunstancial”. É verdade, mas, como expliquei, Deus não nos julga com base em tais escolhas. O cristianismo não é a doutrina que, se as suas boas obras superam as suas obras más, você será salvo! Quanto à escolha de receber o dom da graça de Deus, não esqueça que as circunstâncias mencionadas incluem, conforme enfatizou Molina, os vários dons e ministrações do Espírito Santo a nos convencer e nos atrair para Deus. É dado a todas as pessoas graça suficiente para chegar à salvação.
A doutrina esboçada acima é o exato oposto do fatalismo. Embora alguns cristãos talvez creiam que Deus escolhe arbitrariamente salvar a alguns e condenar a outros, muitos outros cristãos acreditam que isso não é ensinamento bíblico, que sustenta que Deus “deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1 Timóteo 2.4). A nossa salvação fica a cargo da nossa livre escolha.
[1] Ver Four Views on Divine Providence, ed. Dennis W. Jowers (Grand Rapids, Mich.: Zondervan, 2011).
- William Lane Craig