#710 O compromisso é proporcional à certeza?
March 23, 2021Olá, Dr. Craig.
Primeiramente, só quero dizer que amo o seu trabalho, continuo a ser inspirado por ele e o uso para inspirar os outros. Mas me pego lutando com uma questão ultimamente e espero que o senhor consiga ajudar. Tenho a tendência de pensar que devemos manter as nossas crenças de modo mais ou menos coerente e proporcional à nossa certeza, mas ainda assim estaria bastante aberto a outras ideias, se novas informações surgissem. Por outro lado, tenho bastante certeza de que a Segunda Lei de Newton é válida no regime não-relativista (e não-quântico). Precisaria de muitas informações para mudar minha opinião quanto a esta questão.
No entanto, quando considero as grandes verdades cristãs, como a divindade de Cristo, a sua ressurreição, o seu domínio sobre a criação, encontro-me num grau menor de certeza. Normalmente, isto não seria uma dificuldade para mim, mas o problema que vejo é o seguinte: Jesus não parece aceitar a devoção a ele pela metade (como meu compromisso com o molinismo). Ele quer submissão completa a sua autoridade e quer que a nossa prioridade máxima na vida seja o amor a Deus. Como é que podemos nos comprometer completamente com Cristo, de maneira racional, se não estivermos certos sobre Cristo? Agradeceria muito a sua ajuda com esta questão! Obrigado de antemão por sua resposta.
Charles
Estados Unidos
Dr. Craig responde
A
Só pude sorrir, Charles, quando li do seu compromisso pela metade com o molinismo! Ai de mim! Mas, falando sério, tenho a impressão de que muitas pessoas lutam com a sua questão, de modo que vale a pena abordá-la aqui.
Primeiramente, precisamos concordar que a nossa certeza das grandes verdades cristãs que você menciona é muito menor do que a nossa certeza de muitas outras verdades em que cremos, a maioria delas bastante trivial, como a minha crença de que há plantas do lado de fora da janela do meu escritório. Essa diferença não surpreende nem um pouco, dada a distância de tais verdades cristãs em relação à nossa experiência cotidiana. Esse fato, tampouco, exclui que alguns cristãos tenham certeza muito elevada de verdades cristãs, com base não no argumento e provas, mas em outros fatores, como o testemunho interno do Espírito Santo.
Ao nos limitarmos, porém, ao grau de certeza de grandes verdades cristãs a nós disponíveis somente com base no argumento e nas provas, a questão que enfrentamos é se tal confiança diminuta na verdade das doutrinas cristãs é, de algum modo, inaceitável para o Senhor. Digo que a resposta é, evidentemente, não! Fico muito encorajado com as palavras do pai desesperado que veio até Jesus para a cura do seu filho. Quando Jesus lhe disse que tudo é possível ao que crê, o homem exclamou: “Eu creio! Ajuda-me na minha incredulidade” (Marcos 9.24). E aquela crença não tão certa assim foi aceitável a Jesus para curar milagrosamente o filho dele. Por que a crença do homem, embora incerta, foi aceitável ao Senhor? Porque o homem agiu com base na crença que tinha, em vez de ficar paralisado com suas dúvidas.
Você está certo, Charles, que Cristo “quer submissão completa a sua autoridade e quer que a nossa prioridade máxima na vida seja o amor a Deus”. No entanto, você erra ao supor que a devoção total a Cristo demanda certeza sobre as verdades envolvidas. Podemos fazer um compromisso completo com Cristo sem ter certeza sobre Cristo.
Ao estudar para o projeto da minha teologia filosófica sistemática, estive lendo recentemente o livro impressionante de William Alston, Perceiving God (Ithaca, NY: Cornell University Press, 1991). Na página 277, Alston explica que “é parte essencial do pacote religioso que mantenhamos crenças que vão além do que é estabelecido conclusivamente por indicações objetivas a nós disponíveis (ou, então, manter crenças com mais firmeza do que avalizam as provas objetivas que estão à disposição)”. De fato, ele faz a afirmação chocante de que a fé é apenas “uma crença mantida com mais firmeza do que a prova objetiva indica estritamente”. Ora, para ser justo, Alston deixa claro que ele está falando do que denomina fé doxástica, que equipara a fé com a crença que alguém mantém. Porém, ele reconhece que “há também, obviamente, a necessidade de confiar no ser supremo em que cremos” [grifo meu], o que, na minha opinião, é fé no sentido mais correto.
Não só tal compromisso com base em crenças incertas é parte essencial do pacote religioso e, portanto, aceitável ao Senhor, mas tais compromissos são parte da vida cotidiana, sendo-nos perfeitamente racionais. Cada vez que você sai para dirigir, você faz um compromisso total com base em informações não tão certas assim. De fato, conforme argumentou William James no seu clássico ensaio “The Will to Believe” [A vontade de crer],[1] há ocasiões em que é racional fazer um compromisso com base em crenças para as quais não temos nenhuma prova, como escolher arbitrariamente um caminho na descida da montanha para fugir de uma tempestade alpina iminente. Neste caso, somos confrontados com uma escolha que, nas palavras de James, é vital, momentosa e forçada. Uma escolha vital é aquele que nos apresenta uma crença para a qual podemos dar assenso genuíno. Uma escolha é momentosa se muito depende dela, se ela nos apresenta uma oportunidade rara e se as suas consequências são irreversíveis. Por fim, uma escolha é forçada se não há nenhuma opção para permanecer indiferente, se não escolher significa, efetivamente, escolher não agir. James defendia que a crença religiosa satisfaz a estes critérios.
No caso de crentes bem informados como você, Charles, você goza da vantagem adicional de ter uma grande quantidade de provas para a verdade das suas crenças cristãs. O seu compromisso de fé é, portanto, perfeitamente racional.
[1] Reimpresso em The Will to Believe and Other Essays in Popular Philosophy (Nova Iorque: Dover, 1959), pp. 1-31.
- William Lane Craig