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#817 Cristãos ricos

March 01, 2023
Q

Olá, Dr. Craig!

As minhas orações pelo senhor e a equipe de RF sempre; e minha gratidão por tudo. O seu ministério tem ajudado minha fé de modo incrível e, sem dúvida, o mesmo se aplica a inúmeras outras pessoas. Tomara que eu consiga apertar as suas mãos algum dia.

A minha pergunta diz respeito à riqueza do cristão. Em situação na qual um cristão verdadeiramente guiado pelo Espírito venha a ser rico ou muito abastado, como ele deve usar a sua riqueza de forma responsável? Diz Mateus 19.24, com as palavras de Cristo: “Então, Jesus disse aos discípulos: Em verdade vos digo que um rico dificilmente entrará no reino do céu”. O meu entendimento é que este versículo ensina que apenas mediante a graça de Deus podemos entrar no céu e que as posses mundanas (e a dependência delas) em nada podem ajudar.

Mas será que, no caso, Cristo também está dando conselhos financeiros? Acho que a minha questão real é a seguinte: até que ponto é certo ao cristão ser rico? Num cenário em que o cristão também ganhou muito dinheiro, seria talvez pecado, por exemplo, levar a sua família para férias luxuosas? Ou, então, comprar um carro esportivo, em vez de algum veículo mais barato e menos chamativo? Se um cristão dizimista e generoso, que é também rico, escolheu gastar dez mil dólares para construir um minicinema em casa, será que isto deporia contra si, por não ter dado esse valor aos pobres?

Recordo a história de Judas e o perfume, em João 12, e pergunto-me se há aí alguma importância também. Será que um cristão pode ser rico? Ou será que somos chamados a ser como João Batista, vivendo com o mínimo?

Aguardo os seus conselhos.

Justin

Estados Unidos

Dr. Craig responde


A

Esta é pergunta intensamente pessoal que cada um de nós com o desejo de viver como discípulo de Jesus deve responder por si mesmo.

Uma razão por que é tão difícil responder à pergunta é que aquilo que conta como “rico” se trata de algo relativo. Nós, em países do primeiro mundo, talvez não nos consideremos ricos, quando comparados com os nossos compatriotas; contudo, leva-nos a refletir muito o fato de que, caso a pessoa possua uma bicicleta, sem contar um automóvel, ela é formidavelmente rica em comparação com a maioria da população mundial. Porém, seria errado consumir-se com culpa por ter um carro, numa sociedade em que tal veículo é quase uma necessidade. Neste caso, parece que a pessoa deve reconhecer que é, de fato, rica e deve ser grata a Deus por ter suprido com tanta abundância as suas necessidades. O cristão rico que leva a sua família para férias luxuosas talvez seja filantropo generoso também, que apoia a obra do Senhor e gasta de férias, proporcionalmente, muito menos do que a maioria das pessoas. Dada a relatividade pessoal da riqueza, penso que nos é sensato não julgar os demais, mas julgar apenas a nós próprios, a fim de ver se somos bons mordomos do dinheiro que Deus nos confiou.

Acho que Jesus não estava dando conselhos financeiros na passagem que você cita, mas, sim, advertindo contra a fácil idolatria da riqueza. O mero fato de tornar-se pobre nada faria para resolver o problema do materialismo e o desejo de ser rico (Marcos 4.19). O pobre pode ser obcecado com desejos materialistas, enquanto o rico talvez seja cheio de gratidão a Deus por Sua bondade.

Duas passagens, no Novo Testamento, levam-me a pensar que Deus não espera que todos nós nos tornemos como João Batista. A primeira é a conhecida história da vida de Jesus sobre Zaqueu, o rico cobrador de impostos. Em decorrência do seu encontro com Jesus, Zaqueu proclama: “Vê, Senhor, darei aos pobres metade dos meus bens” (Lucas 19.8a). Só metade? Parece sovina, em comparação com o que se exigiu do jovem rico! Ainda assim, Jesus aceitou esta resposta da parte de Zaqueu. “Hoje a salvação chegou a esta casa” (Lucas 19.9).

A segunda passagem vem da carta de Paulo a Timóteo, onde ele explicitamente instrui:

Ordena aos ricos deste mundo que não sejam orgulhosos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus, que nos concede amplamente todas as coisas para delas desfrutarmos; que pratiquem o bem e se enriqueçam com boas obras, sejam solidários e generosos. Com isso acumularão um bom tesouro para si mesmos, um bom fundamento para o futuro, para que possam alcançar a verdadeira vida. (1 Timóteo 6.17-19)

Não podia ser mais claro! Na igreja primitiva, havia aqueles que eram ricos, e a instrução que Paulo lhes dirigiu não foi que dessem toda a sua riqueza, mas que prestassem atenção às suas atitudes, sem desprezar os demais nem transformar a riqueza num ídolo. Antes, deviam ser liberais e generosos ao darem, como expressão do seu discipulado cristão. Feito isto, estão livres para desfrutar das coisas que possuem.

Isto me parece conselho relevante para nós, atualmente. Em comparação com a maioria do mundo, muitos de nós estamos, deveras, entre os ricos deste mundo. Precisamos estar cônscios da capacidade que as riquezas têm de enganar-nos. E devemos dar uma grande proporção do nosso dinheiro para a obra do Senhor. No pensamento de Paulo, o modelo que devemos seguir não é simplesmente o dízimo. Antes, o padrão é que devemos ser os mais generosos que pudermos ao apoiarmos a obra do Senhor (2 Coríntios 9.6-11). Para nós, no ocidente de hoje, penso que isto pode muito bem significar que muitos de nós deveríamos dar 30% a 50% da nossa renda. Conseguimos viver com muito menos do que o fazemos.

Isto talvez envolva uma reestruturação radical das nossas vidas e uma rejeição dos valores culturais do Ocidente materialista. Será que conseguimos viver com apenas um carro? Será que preciso mesmo daquele relógio sofisticado? Será que se trata de boa mordomia gastar milhares de dólares numa aliança de noivado? Será que devo gastar tanto dinheiro para montar uma biblioteca particular? São estas perguntas que devemos fazer, não a respeito dos outros, mas de nós mesmos, individualmente.

- William Lane Craig