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#818 Os campos quânticos são o fundamento metafisicamente necessário do ser?

March 01, 2023
Q

Dr. Craig,

Espero que esteja tudo bem com o senhor. Tinha mandado uma pergunta antes, mas me ocorreu que podia chegar à mesma questão de modo mais conciso. Por isso, aqui estou de novo.

Em algum lugar, o senhor manteve que uma parte do universo não pode ser um ser necessário (SN). Disse assim: “o candidato mais plausível para um ser material metafisicamente necessário seria a própria matéria/energia” (Pergunta 235), mas não tenho certeza de que seja verdade.

Normalmente, quando falamos de SN, queremos (1) um ser firmemente unificado, (2) nenhum fato arbitrário e (3) nenhuma razão sólida para que ele não fosse necessário. A teologia do ser perfeito atribui tudo isso a Deus.

Aqui vai a minha pergunta: por que é que um campo quântico ou um estado quântico sem o universo não poderia ser o SN, dando origem a outros campos e pares de partícula-antipartícula, e talvez a universos inteiros? É algo simples, firmemente unificado e com pouquíssimos fatos arbitrários.

Obviamente, pode-se dizer: “poderia haver vários tipos de campos”. Stephen Barr faz esta observação nos seus livros:

“Pode-se imaginar um sistema quântico diferente em que os ‘universos’ em questão não tinham três, mas, digamos, sete dimensões, não possuindo os tipos costumeiros da matéria, como elétrons, mas tipos diferentes. Tal sistema teria diferentes estados possíveis. [...] Ora, obviamente, caso se possa falar de diferentes tipos de estados sem o universo — como acabei de mostrar ser possível —, é claro que não se está falando do nada”.

 

A coerência da afirmação dele repousa na asserção de que há, de fato, estados quânticos separados sem o universo (isto é, trata-se de fato arbitrário sobre um campo quântico/estado de vácuo).

Mas será que é verdade? Será que um estado sem o universo poderia dar origem a um universo com dimensões n e dimensões k (n~=k)? Parece ser afirmação sem fundamento, pois acarretaria a afirmação de que todos os universos a surgirem dessa condição de estado de vácuo sem o universo DEVEM ter dimensões n. Também acarretaria que tal estado sem o universo teria existência contingente (isto é, não poderia ser a única possibilidade logicamente coerente).

Não vejo que o senhor tenha escrito muito sobre campos; a maioria da sua obra trata de partículas, tempo e matéria/energia, que, embora relacionados, são distintos.

Grato,

P.

Estados Unidos

Dr. Craig responde


A

Você está bem certo ao dizer que, nas minhas publicações anteriores, considerei as chamadas partículas fundamentais, como quarks e elétrons, como verdadeiramente fundamentais e, assim, possíveis candidatos para o ofício do ser metafisicamente necessário que é almejado com o argumento a partir da contingência segundo Leibniz. Defendi que estas partículas parecem existir de modo contingente e, portanto, não são candidatos plausíveis para a razão suficiente metafisicamente necessária do mundo.

Porém, estas partículas podem ser vistas como excitações de uma realidade ainda mais fundamental, a saber, campos mecânicos quânticos. Assim, na minha futura teologia filosófica sistemática, considero se o ateu não pode afirmar, de modo plausível, que esses campos quânticos são o fundamento necessário do ser, em vez de Deus.

No caso, a minha inclinação é concordar com a sua citação de Stephen Barr de que tais campos quânticos também são contingentes. A última observação de Barr parece ser que tais campos não são nada, como alegaram pessoas como Lawrence Krauss, não conseguindo, pois, explicar a origem do universo a partir do nada em algum momento no passado. Porém, para o propósito da nossa discussão, a citação de Barr também faz observação distinta e importante, a saber, que esses estados quânticos são contingentes. Penso, porém, que é deveras equivocado referir-se a tais estados como “estados quânticos sem o universo”. Antes, esses estados justamente são o universo no seu nível mais fundamental de descrição.

Conforme intima Barr, há inúmeros estados assim, como seis campos para os quarks, três para o elétron e os seus irmãos, três para os neutrinos e assim por diante; em todos os dezessete diferentes campos, de acordo com o modelo convencional de física de partículas. O cosmólogo Luke Barnes resume a situação:

Não há nenhuma teoria conhecida na física que dite:

- O número total de campos.

- A combinação de diferentes tipos de campo livre (escalar, complexo, vetor, espinor etc.)

- A forma matemática das interações entre os campos.

- As constantes que descrevem as propriedades livres dos campos.

- As constantes que descrevem as propriedades de interação dos campos.[i]

Acho que consegue ver que tais campos não exibem a unidade, simplicidade e necessidade desejadas que você menciona. A ideia de que esses diferentes campos, as suas interações e as suas constantes poderiam ser todas metafisicamente necessárias não parece mais plausível do que a alegação de que o universo é metafisicamente necessário.

O mais decisivo é que, mesmo que todas as características elencadas acima fossem metafisicamente necessárias, poderíamos ainda indagar por que esta teoria se sustenta. Por exemplo, a teoria das cordas é alternativa à teoria do campo quântico. Todavia, ninguém pensaria que a teoria das cordas é metafisicamente impossível; ela precisa ser avaliada cientificamente. Ainda que se diga que as leis da natureza são metafisicamente necessárias, que esta é a única maneira em que os campos quânticos poderiam comportar-se, as leis da natureza ainda poderiam ter sido diferentes, pois poderia ter havido substâncias diferentes daquelas que existem, munidas de diferentes disposições e diferentes propriedades, de modo que se teria todo um conjunto distinto de leis da natureza. Penso que seria completamente implausível dizer que tal universo seria o nosso mesmo universo. Seria como dizer que uma vidraça pudesse reter a sua identidade, caso tivesse sido feito de aço. Isto parece, obviamente, absurdo. Não seria a mesma janela, caso fosse feita de aço, em vez de vidro. Assim, penso que temos fundamentos muito bons para pensar que, em virtude da sua composição, o universo não existe de modo metafisicamente necessário. É por isso que, provavelmente, pouquíssimos ateus contemporâneos, se é que algum deles, toma este rumo para tentar escapar do argumento da contingência.

Tenho a leve suspeita de que, quando se trata da emergência do universo a partir dos seus estados quânticos subjacentes, você esteja pensando que ocorreu cronologicamente. Mas não está certo. Não pense nas propriedades emergentes do universo como se fossem arranjadas “horizontalmente” em sequência temporal de estados, no mesmo nível; antes, pense nelas como se fossem arranjadas “verticalmente”, como hierarquia de níveis de estados. Como a água possui certas propriedades emergentes, tal qual umidade — que os seus constituintes atômicos, hidrogênio e oxigênio, não possuem —, assim também o universo possui certas propriedades emergentes que os seus estados quânticos subjacentes não possuem. O fato de que estes campos quânticos não se pretendem cronologicamente anteriores ao universo é evidente pelo fato de que o argumento a partir da contingência contempla um universo a existir eternamente, um universo que jamais começou a existir. A resposta ateísta que estamos considerando diz que, embora o universo emergente que observamos seja contingente, os seus estados quânticos subjacentes são metafisicamente necessários.

É claro que, se o universo começou, de fato, a existir, temos uma segunda razão para pensar que o universo não existe por necessidade da sua própria natureza, a saber, o fato de que ele veio a ser. Se algo existe necessariamente, ele deve existir eternamente, pois, se ele começa a existir, mostra-se que a sua inexistência é possível. Ele veio a ser. Assim, uma propriedade essencial de um ser a existir necessariamente será a sua sempiternidade: não ter começo nem fim. Temos, agora, provas bastante fortes de que o universo não é eterno no passado, mas teve começo, o que mostraria a sua contingência.

Isto nos leva ao argumento cosmológico kalam, que se baseia no começo do universo. Quero manter os argumentos teístas o mais independentes uns dos outros que pudermos, pois, assim, acumulam-se as probabilidades desses argumentos independentes a favor da existência de Deus. Não obstante, isto mostra como os argumentos se encaixam uns com os outros e reforçam-se mutuamente. Se o universo teve mesmo começo, revela-se a contingência do universo. Não só isto, mas revela-se que o universo é contingente de modo muito especial, a saber: ele veio a ser a partir do nada. O fato de o universo existir de maneira contingente e ter começo parece ser duplamente absurdo, pois ele vem à existência sem absolutamente nenhuma explicação, a partir do nada. O argumento cosmológico kalam reforça vigorosamente o argumento a partir da contingência ao ressaltar a contingência do universo de modo muito especial. Se o universo teve começo, a sua contingência se torna ainda mais óbvia.

 

[i] Luke Barnes para William Lane Craig, 19 de agosto de 2022.

- William Lane Craig