#820 Dê aos argumentos uma oportunidade
March 01, 2023Olá, Dr. Craig.
Apesar do meu ceticismo, continuo a ouvir seus podcasts, que aprecio e acho estimulantes.
Tenho uma pergunta sobre fé.
Sem fé, tudo que se pode ter são frios argumentos racionais e silêncio, o que, diante da onipresença do sofrimento e carência humanos, são, no mínimo, tão suscetíveis a repelir quanto a alimentar a fé. Parece até que Deus não se importa. Os cristãos tendem a responder assim: “Mas Jesus partilhou do sofrimento humano na cruz, o que mostra que Deus se importa, sim”. Talvez, mas pressupõe-se que a ressurreição aconteceu, o que é discutível. Porém, por que haver sequer alguns sofrimentos? Alguns tipos de sofrimento parecem, simplesmente, em vão. Qual é a utilidade da demência ou do câncer infantil, por exemplo? Então, o cristão é capaz de responder: “Deus age de formas misteriosas”, o que é outro jeito de dizer: “Só tenha fé”. Mas aí surge a questão: “Por que ter fé, para começo de conversa?”, o que só pode, de fato, ser respondido de modo pragmático, isto é, porque serve como um tipo de consolo. Porém, a única discussão racional que resta é esta: por que Deus exigiria a fé, um bem aparentemente arbitrário e relacionado intimamente com a criação e as experiências pessoas, para a doutrina cristã? Se Deus é incapaz ou reticente em dar a fé a todos, ela não pode ter importância decisiva: talvez seja um consolo nesta vida, mas tal escolha arbitrária não pode, se Deus for justo, determinar o destino eterno de alguém.
Para mim, o silêncio total de Deus me inclina a afastar-me da religião ou, no mínimo, mantém-me a uma distância segura do que parece uma estratégia de sobrevivência ou até mesmo uma mera escolha de estilo de vida, em vez de verdade indubitável. Será que o meu raciocínio é bom, neste caso, ou será que existe um modo mais persuasivo, do ponto de vista racional, de enxergar a fé?
Obrigado.
Grant
Reino Unido
Dr. Craig responde
A
Agradeço por sua pergunta, Grant! Fico feliz de que continue a ouvir os nossos podcasts e a ponderar sobre o que é dito.
Parece-me que a sua pergunta exibe muitas tensões internas, empurrando para direções opostas ao mesmo tempo e dificultando a descoberta de uma visão coerente.
Por exemplo, as suas duas frases iniciais dão a entender que você pensa que os argumentos apologéticos favoráveis ao teísmo cristão são inefetivos e, de fato, contraproducentes. Não concordo nem um pouco, uma vez que os depoimentos emocionantes que recebemos toda semana dão testemunho da eficácia dos argumentos; de todo modo, atentemos para o que você tem a dizer.
Você observa que os cristãos talvez respondam à alegação de que Deus não se importa com o nosso sofrimento, apontando para o sofrimento substitutivo de Cristo em nosso favor. Uma resposta muito boa, na minha opinião! Mas, então, de repente, você muda de rumo e, em vez de negar o argumento, reclama: “Talvez, mas pressupõe-se que a ressurreição aconteceu, o que é discutível”. Espere aí! Dizer que a ressurreição de Jesus é discutível é dizer que a sua facticidade é debatida. Mas, então, voltamos a esses frios argumentos racionais que você já descartou! Você descarta os argumentos como se fossem insensíveis e, depois, reclama da falta de argumentos. Se você acha que os argumentos não são bons, precisará interagir com os argumentos que os estudiosos do Novo Testamento propuseram em relação à ressurreição de Jesus, e não simplesmente descartar a abordagem deles como se fosse insensível.
Em seguida, você muda o rumo e volta-se para o problema do mal. Mais uma vez, não se pode fazer objeção intelectual ao teísmo cristão com base no mal, ao mesmo tempo que não se permite a resposta intelectual do cristão ao problema do mal, por parecer insensível. (Eu mesmo tenho cuidado em fazer distinção entre o problema intelectual do mal e o problema emocional do mal, uma vez que a resposta ao primeiro talvez pareça, de fato, seca e insensível a uma pessoa que está sofrendo emocionalmente com o problema do mal.) Para uma “fria resposta racional” ao problema do mal, veja o meu capítulo em Filosofia e cosmovisão cristã. O ateu tem de provar que é impossível ou extremamente improvável que Deus tenha razões morais suficientes para permitir os males no mundo, um ônus da prova tão pesado que nenhum ateu jamais conseguiu sustentar.
Você diz que o cristão é capaz de responder assim: “Deus age de formas misteriosas”, que você equipara a afirmar: “Só tenha fé”. Você afirma que esta questão “só pode ser respondida de modo pragmático”. Caramba! Por que pensar assim? Eu diria que pode ser respondida de modo racional, dando argumentos favoráveis à fé cristã os quais você já descartou como se fossem frios, racionais e insensíveis. A única razão que você dá para desconsiderá-los é emotiva. Mesmo que você estivesse correto sobre o impacto emocional de tais argumentos, não adiantaria em absolutamente nada para mostrar que sejam insuficientes na fundamentação da fé de modo racional.
Você percebe o que quero dizer com a tensão interna na sua pergunta? Por um lado, você descarta os argumentos, não porque sejam infundados, mas porque são insatisfatórios do ponto de vista emocional, mas, então, por outro lado, você dá a meia volta e reclama da falta de argumentos sólidos.
Em seguida, você afirma: “a única discussão racional que resta é esta: por que Deus exigiria a fé... para a doutrina cristã?”. Espera aí! “Discussão racional”? Foi o que você rejeitou na sua primeira frase como se fossem “frios argumentos racionais”. Não se pode entrar em discussão racional, caso se exclua o uso que o seu parceiro de discussão faz de frios argumentos racionais. Você está tentando assobiar e chupar cana ao mesmo tempo.
A resposta à sua pergunta é que Deus quer ter uma resposta livre e de amor da nossa parte ao Seu amor. É por isso que Deus é “reticente em dar a fé a todos”. Ele não se envolve em coação divina, como se nos tratasse como marionetas e puxasse as nossas cordas. Ele lhe deu livre-arbítrio para responder às Suas graciosas iniciativas, e Ele deu testemunho da verdade da fé cristã tanto com Seu próprio testemunho interno do Espírito Santo quanto com suas provas externas objetivas.
O seu protesto de que a fé seja “um bem aparentemente arbitrário e relacionado intimamente com a criação e as experiências pessoais” não consegue levar em conta os fatos de que (i) mesmo dentro dos parâmetros de tal determinismo moderado, temos liberdade o suficiente para responder a Deus de modo moralmente significativo (não existe nenhum perfil sociológico ou psicológico específico das pessoas que vêm à fé cristã) e de que (ii) mesmo as experiências e criação pessoal estão sob o controle soberano de um Deus que deseja que você venha à fé (“De um só fez toda a raça humana para que habitasse sobre toda a superfície da terra, determinando-lhes os tempos previamente estabelecidos e os territórios da sua habitação, para que buscassem a Deus e, mesmo tateando, pudessem encontrá-lo. Ele, de fato, não está longe de cada um de nós” – Atos 17.26-27). Se você escolher não depositar a sua fé em Deus, é somente porque você O rejeita, bem como a cada esforço Seu para salvá-lo.
A sua reação ao “silêncio total de Deus” de manter-se a uma “distância segura” da religião garante, paradoxalmente, que Deus lhe parecerá silencioso! Você o afasta e, então, reclama que Ele não lhe está falando! Mais uma vez, a tensão! Deus está, de fato, falando com você, por exemplo, por meio desses podcasts que você mencionou. Tudo que você tem de fazer é ouvir e prestar atenção.
Por fim, na sua última pergunta: “Será que o meu raciocínio é bom, neste caso, ou será que existe um modo mais persuasivo, do ponto de vista racional, de enxergar a fé?”, mais uma vez vemos resumida a tensão interna de que falei. Você depende do “raciocínio” e quer encontrar um “um modo persuasivo, do ponto de vista racional, de enxergar a fé”. Isto é ótimo! Mas, então, quando ouve tais argumentos, você não pode rejeitá-los de forma coerente por serem frios, racionais e insensíveis. A fé pode ser fundamentada de modo racional em bons argumentos, conforme busco mostrar nos meus escritos e debates. Você precisa dar a esses argumentos uma oportunidade.
- William Lane Craig