#819 O cristianismo como seguro contra incêndio
March 01, 2023Dr. Craig,
Gosto de ler os seus textos; o senhor apresenta uma defesa racional do teísmo, e é a melhor que já ouvi. Apesar de ser teísta de uma família mista judaica e cristã, tenho dificuldade em acreditar no argumento a favor da salvação proposta pela fé cristã. Quero perguntar-lhe se o cristianismo tem um problema de “falha de mercado”. Permita-me explicar rapidamente. Em economia (sou formado em economia), há um conceito chamado de “risco moral”, em que alguém com seguro contra certo risco (como um banco que tem depósitos protegidos por seguro de depósitos) talvez se envolva em comportamento mais arriscado, por estar coberto. Por exemplo, um banco com seguro de depósitos talvez empreste a indivíduos ou empresas mais arriscados, mas isto não é ideal.
Os cristãos defendem que estão “salvos” por aceitarem a Jesus, e os seus pecados são removidos porque Jesus morreu na cruz. No entanto, se os cristãos têm o “seguro” contra a condenação eterna, simplesmente por “aceitarem” a Jesus, será que isto não levaria a um problema de risco moral, em que o comportamento imoral aumenta após a aceitação de Cristo, porque a apólice do “seguro” de Cristo diminui o custo de cometer os comportamentos? Se for assim, será que o cristianismo não tem um problema de “falha de mercado”, em que o seu sistema de crença, em vez de levar a um mundo melhor, leva a mais comportamento imoral, diferentemente de religiões como o judaísmo, que incentivam o comportamento moral mediante um “contrato” de mandamentos que ajudam a resolver o problema do risco moral?
Obrigado.
Gabriel
Estados Unidos
Dr. Craig responde
A
Embora você tenha organizado a sua questão em termos econômicos deveras fascinantes, Gabriel, creio que ela pressupõe a antiga noção errônea de que a intenção da fé cristã é funcionar como apólice de seguro contra incêndio para salvar-nos do inferno.
Tal interpretação fundamenta-se em mal-entendido fundamental. A fé cristã é mais como uma relação de amor, em que se deseja voluntariamente fazer todo o possível pelo amado. É bem assim, porque devemos estar cheios de gratidão a Deus por sua graça salvadora. Quando você pensar no que o Senhor Jesus sofreu e suportou por você, o seu coração responderá naturalmente com o desejo de agradá-lo. E, obviamente, tem-se a consciência de que o Deus de amor, o foco da bondade absoluta, é o nosso dever moral, independentemente das consequências da desobediência.
Assim, o cristão verdadeiramente regenerado não buscará uma vida de comportamento imoral, o que seria uma vergonha para o seu amado Senhor, mas será zeloso para viver uma vida digna do Senhor. João escreve: “Aquele que diz: ‘Eu o conheço’, e não guarda seus mandamentos, é mentiroso, e a verdade não está nele; mas todo o que guarda a sua palavra, neste o amor de Deus tem de fato se aperfeiçoado. E assim sabemos que estamos nele. Quem afirma estar nele também deve andar como ele andou” (1 João 2.4-6). Felizmente, ao andarmos com o Senhor, somos transformados internamente por Sua graça santificadora, de modo a nos tornarmos mais parecidos com Cristo no nosso caráter e comportamento. Assim, Paulo ora pelos colossenses que eles possam “viver de maneira digna do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus” (Colossenses 1.10).
De todo modo, da minha perspectiva teológica arminiana-wesleyana, é perfeitamente possível que um cristão regenerado apostate e, assim, perca a salvação. Embora eu ache que não se possa “desviar” da salvação com pecados menores, o pecado tem efeito endurecedor no coração e perturba a relação da pessoa com Deus, o que pode levar, no longo prazo, a decair da graça. Portanto, somos devidamente aconselhados a sermos zelosos em evitarmos o pecado e fugirmos do comportamento imoral.
Quanto à sua última conjectura sobre “falha de mercado”, é empiricamente demonstrável que o cristianismo, apesar de falhas, por vezes, espetaculares (como as Cruzadas e a Inquisição) dos seus adeptos, tem sido a maior força para o bem na história da humanidade, sendo responsável pela preservação da alfabetização e da educação, pela fundação das universidades, pelas contribuições incalculáveis à música e às artes, pelo surgimento da ciência moderna, a instituição da enfermagem e a fundação de hospitais, a abolição da escravidão, a elevação da condição das mulheres por onde quer que passou, o alívio da pobreza e da fome etc. etc.
- William Lane Craig