#670 De novo, o problema dos que não foram evangelizados
July 17, 2020Caro Dr. Craig,
Obrigado por seu excelente ministério de apologética e filosofia cristã. Seu trabalho tem sido um verdadeiro vaso da sabedoria e mente de Deus para mim, e agradeço por tantas vezes que ele me ajudou em períodos de dúvida.
Seu vídeo mais recente, intitulado “O problema dos que nunca ouviram de Cristo” gerou um questionamento profundo em mim. É uma daquelas perguntas que “coloquei de molho” por muito tempo, por assim dizer, e agora estou pronto a sacá-la e me empenhar seriamente para chegar a uma conclusão aceitável na minha cabeça.
No vídeo, que busca responder ao “problema dos que não foram evangelizados”, a seguinte solução foi proposta: é possível que, mediante o conhecimento médio de Deus, ele tenha providencialmente ordenado o mundo de tal maneira que qualquer pessoa que livremente viesse ao conhecimento salvífico de Deus numa circunstância possível foi colocada em tal circunstância. Segue daí que toda pessoa que não vem ao conhecimento salvífico de Deus é alguém que jamais chegaria ao conhecimento salvífico de Deus, em circunstância alguma. A sensação de desconforto que leva alguém a buscar uma solução para esta questão é que pensamos injusto da parte de Deus condenar pessoas ao inferno, se essas mesmas pessoas pudessem chegar ao conhecimento salvífico de Deus em circunstâncias diferentes.
Tenho duas perguntas sobre a solução proposta. Primeiro, é razoável pensar que ninguém que morreu sem se achegar a Cristo jamais teria vindo a Cristo, em circunstância alguma? Ao aceitar esta premissa, aparentemente se estaria perdendo espaço em outros argumentos para o teísmo.
Por exemplo, veja as duas afirmações a seguir:
1) “É possível que o mundo tenha vindo à existência incausado, a partir do nada? Sim, é possível, mas extremamente improvável. Logo, é mais razoável que você creia que o universo tem uma causa.”
Igualmente, 2) “É possível que Deus tenha ordenado o mundo de tal maneira que qualquer pessoa que não é salva seja alguém que jamais teria sido salvo, em circunstância alguma? Sim, é possível, mas extremamente improvável. Logo, é mais razoável que você creia que há pessoas que morreram sem serem salvas e que, todavia, teriam sido salvas, caso tivessem ouvido o evangelho ou tivessem sido colocadas em circunstâncias diferentes.”
O senhor conseguiria explicar como é que se pode aceitar 1) e, ao mesmo tempo, rejeitar 2)?
Segundo, o senhor poderia explicar como a solução proposta no vídeo não simplesmente empurra o problema um passo para trás? No vídeo, há a pressuposição de que a alma da pessoa existe antes de ser colocada no corpo, e cada alma diferente já possui uma “personalidade” predeterminada. Por exemplo, pensamos numa pessoa, José da Silva, que morrerá sem chegar ao conhecimento salvífico de Deus. Esta alma teria tido traços específicos que a fariam singular em relação a outras almas. Deus, por meio de seu conhecimento médio, teria sabido antes de criar a alma de José que ele não viria ao conhecimento salvífico de Deus antes de morrer. Pois bem, agora o problema se torna: “Como é justo que Deus crie almas que, como ele bem sabe, não têm nenhuma chance de serem salvas?”. Gostaria muito de ouvir suas respostas a estas perguntas, além de suas recomendações para leituras adicionais na área.
Mais uma vez, obrigado por tudo que tem feito pela fé cristã. Que seu ministério continue a ser abençoado.
Addison
Estados Unidos
United States
Dr. Craig responde
A
Obrigado, Addison, por interagir com nosso mais recente vídeo do Zangmeister! Fico feliz em saber que ele o tenha levado a investigar este difícil assunto com mais profundidade.
Considere sua primeira pergunta: “é razoável pensar que ninguém que morreu sem se achegar a Cristo jamais teria vindo a Cristo, em circunstância alguma?”. A pergunta, no caso, é primeira e essencialmente se é possível que ninguém que tenha morrido sem se achegar a Cristo jamais viesse a Cristo, em circunstância alguma. Parece-me que, dado um Deus com conhecimento médio, não estamos em posição para dizer que é impossível que Deus tenha ordenado o mundo providencialmente, de tal maneira que quem quer que não se achegue a Cristo é alguém que, segundo Deus sabe, não viria a Cristo, em circunstância alguma. Neste caso, esta é provavelmente a solução molinista mais radical. Você poderia manter, mais modestamente, que há pessoas que viriam a Cristo, caso ouvissem o evangelho, mas que vêm à salvação mediante sua resposta de fé à revelação geral somente. Para outras soluções molinistas ainda mais modestas, veja a pergunta #669.
Pois bem, qual é o problema com uma solução molinista dessas? Você receia que ela talvez solape nossa resposta a supostos derrotadores de premissas em outros argumentos teístas. Suponha que, em resposta à premissa “tudo que começa a existir tem uma causa”, o crítico diga: “é possível que o mundo tenha vindo à existência incausado, a partir do nada”. Por que é possível que Deus tenha ordenado o mundo providencialmente, de tal maneira que quem quer que não se achegue a Cristo é alguém que, segundo Deus sabe, não teria vindo a Cristo, em circunstância alguma, mas não é possível que o mundo tenha vindo à existência incausado, a partir do nada? Não consigo ver como estas duas declarações estejam em paridade epistêmica, Addison. No primeiro caso, podemos propor uma explicação do porquê tal coisa é possível, ao passo que, no segundo, nenhuma explicação dessas está disponível. De fato, a sugestão de que o universo veio à existência incausado, a partir do nada, é, como costumo repetir, pior do que mágica.
Você se preocupa que, se dissermos “É possível que Deus tenha ordenado o mundo de tal maneira que qualquer pessoa que não é salva é alguém que jamais teria sido salvo, em circunstância alguma”, o objetor replicará: “Sim, é possível, mas extremamente improvável”. Esta atitude da parte do objetor é análoga ao objetor se retirar do problema lógico do mal para o problema probabilístico do mal. “É possível que Deus tenha razões moralmente suficientes para permitir o mal e o sofrimento no mundo, mas extremamente improvável”. A resposta correta ao objetor é desafiá-lo a mostrar que a solução proposta é improvável. Em minhas publicações sobre o problema dos que não foram evangelizados, abordo não apenas a possibilidade da solução molinista proposta, mas também sua probabilidade. Entenda, porém, que esses vídeos do Zangmeister são, por necessidade, resumos bastante abreviados e, portanto, não dão conta de tudo. Minha esperança é que as pessoas que tenham mais perguntas tirem tempo para ler também minhas publicações sobre o assunto (https://pt.reasonablefaith.org/artigos/artigos-de-divulgacao/como-e-possivel-cristo-ser-o-unico-caminho-para-deus; https://www.reasonablefaith.org/writings/scholarly-writings/christian-particularism/).
Defendo que um mundo como enxerga a solução não seria empiricamente diferente de um mundo no qual o tempo e lugar das pessoas na história fossem completamente acidentais. Por isso, não podemos dizer que é improvável que vivamos num mundo tão providencialmente ordenado assim.
Segundo, você questiona se a solução proposta “simplesmente empurra o problema um passo para trás”. De modo algum! O molinismo seguramente não ensina que “a alma da pessoa existe antes de ser colocada no corpo, e cada alma diferente já possui uma ‘personalidade’ predeterminada”. No entanto, você está certo de que o molinismo sustenta que “Deus, por meio de seu conhecimento médio, teria sabido antes de criar a alma de José que ele não viria ao conhecimento salvífico de Deus antes de morrer”. Você acha que o problema passa a ser, então: “Como é justo que Deus crie almas que, como ele bem sabe, não têm nenhuma chance de serem salvas?”. Caramba, Addison, você caiu direitinho na armadilha do fatalismo teológico! Fico surpreso que você pense que José não tenha nenhuma chance de chegar ao conhecimento salvífico de Deus antes de morrer. Não apenas há inúmeros mundos possível em que José chegue ao conhecimento salvífico de Deus, mas, mesmo em mundos plausíveis para Deus nos quais José se perca, ele tem a liberdade de responder à graça de Deus e vir ao conhecimento salvífico de Deus. Sua salvação está em suas próprias mãos.
Para literatura sobre o assunto, sugiro que leia meu livro O único Deus sábio [título original: The Only Wise God] e, então, progrida para Divine Providence [Providência divina], de Thomas Flint. Evidentemente, não há nenhum substituto à leitura do livro do próprio Molina sobre presciência divina (tradução inglesa: On Divine Foreknowledge).
- William Lane Craig
- William Lane Craig