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#669 Por que Deus não dá o fim a futuros apóstatas?

July 17, 2020
Q

Olá, Dr. Craig.

Estou estudando a Perseverança dos Santos e achei seu artigo sobre o assunto muito estimulante. Ando lutando com o assunto ultimamente, e parece que há certas dificuldades com o entendimento tradicional de perseverança, algumas das quais o senhor destacou no seu artigo. No entanto, gostaria de fazer uma pergunta sobre uma dificuldade que enxergo no outro lado. Minha pergunta diz respeito à reconciliação entre a natureza amorosa de Deus e o ensinamento de que cristãos podem se perder. Se Deus ama seus filhos o bastante para enviar Cristo para morrer por eles, por que ele simplesmente não tira a vida do crente “antes” de apostatar (dada sua presciência de que, caso ele se mantenha vivo, apostatará)? Afinal, Deus está no controle de quando morremos, e as Escrituras repetidamente afirmam que Deus ama suas ovelhas profundamente e deseja que nenhuma delas se perca.

Parece-me que cabe muito bem dentro das capacidades divinas, sendo mais compatível com seu caráter, tirar a vida de alguém enquanto ainda se encontra num “estado de graça”. Minha mente salta para 1 Coríntios 11.32, que parece repetir este sentimento. Se ele é capaz, por que não o faz? Gostaria muito de ouvir suas ideias a este respeito, já que tenho dificuldade em reconciliar o amor de Deus com sua permissão que a apostasia ocorra, especialmente quando parece que ela poderia ser evitada.

Obrigado.

Nader

Austrália

Australia

Dr. Craig responde


A

Esta é uma pergunta realmente provocadora sobre a qual jamais pensei, Nader! Por isso, permita-me oferecer alguns pensamentos aleatórios que possam estimular mais reflexão sobre o assunto.

Uma maneira de responder à pergunta é afirmar que é exatamente isso que Deus faz. Ele termina a vida de futuros apóstatas antes que eles se desviem permanentemente. O desafio evidente contra esta resposta é que parece termos bons exemplos de pessoas que, de fato, apostatam. Porém, aqui temos de diferenciar entre supostos casos assim e pessoas que temporariamente se desviam e, então, vêm a se arrepender e voltam à fé (como o apóstolo Pedro). Como é que podemos saber que pessoas nas Escrituras que, aparentemente, apostatam (como Demas) fazem-no irrevogavelmente e não voltam para Cristo, mesmo em seu leito de morte? Além disso, devemos diferenciar de apóstatas permanentes aquelas pessoas que jamais tiveram genuína fé salvífica, para começo de conversa, mas meramente uma fé falsa (como Judas). Em casos de fé falsa, a apostasia não entra exatamente na equação. Assim, desta perspectiva, embora seja possível apostatar e perder a salvação, na realidade, ninguém jamais o faz. Como você explica, este é o ponto de vista molinista, conforme as visões que descrevo em meu artigo. Sugeri que Deus pode dar os dons de graça que, como Ele sabia, seriam eficazes em ganhar a livre perseverança dos santos; você sugere que, se isto não for plausível, Ele simplesmente elimine o futuro apóstata. A implicação das duas perspectivas é a perseverança dos santos acompanhada de liberdade libertária.

Uma visão alternativa seria dizer que Deus tem razões moralmente suficientes para permitir que alguém livremente apostate, a despeito de todos os esforços divinos para salvá-lo. Isto porque a preocupação divina não é com um indivíduo isolado, mas com um mundo inteiro de criaturas livres que Ele busca atrair livremente para a salvação. Pode ser que, se, por exemplo, ele eliminar Joe antes que ele se desvie, sua filhinha Sherri, amargurada com o fato de Deus ter levado seu pai prematuramente, venha a recusar-se a crer em Deus ou até mesmo se desvie da fé — e, no caso, Deus teria de eliminar Sherri também, antes que ela venha fazê-lo! Penso que você consegue ver aí como tudo fica fora de controle, muito rapidamente. Talvez Sherri (ou seu filho ou neto etc.), caso Deus não tivesse eliminado o pai de Sherri e, em seguida, a própria Sherri, viesse a ser uma grande compositora de hinos ou médica cristã que ajudaria a levar milhares a Cristo. Em vez de um único apóstata no inferno, pode-se, então, acabar com multidões indo para lá! Quando nos recordamos que o objetivo de Deus é trazer um número ideal de pessoas livremente à salvação, não é nem um pouco implausível que tal mundo venha a incluir alguns apóstatas.

- William Lane Craig