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#792 Decidido eternamente?

August 05, 2022
Q

Olá, Dr. Craig.

No podcast do curso Defenders, série 3 > Doutrina de Deus: Trindade (Parte 10): A relação entre Pai, Filho e Espírito Santo (21 de setembro de 2016)

https://www.reasonablefaith.org/podcasts/defenders-podcast-series-3/s3-doctrine-of-god-trinity/doctrine-of-god-trinity-part-10, o senhor afirmou que

“A visão de Marcelo era que se tratava de uma decisão temporal tomada em algum momento no passado finito, como o momento da criação. Não me sinto muito à vontade com essa visão. Parece-me que, em virtude da presciência divina do futuro de que três pessoas saberiam, desde a eternidade, quais papéis desempenhariam, não há, portanto, nenhum motivo para dizer que a Trindade econômica tenha sido decidida em algum tempo, há um número finito de anos. Trata-se de um tipo de decisão eterna da parte de Deus, mas é decisão livre. Não foi uma decisão que ele teve de tomar”.

Poderia, por favor, falar mais a respeito desta questão?

1) Se a decisão é eterna, quer dizer que se trata de decisão fora do tempo, tendo ela sempre existido? Se sim, como se pode dizer que se trata de decisão livre? Se Deus sempre teve tal decisão, não pode parecer que ele não fez uma escolha, mas ela sempre esteve simplesmente ali, na mente de Deus?

2) Igualmente, se a decisão em questão acerca da Trindade econômica é eterna, como é que isto difere da decisão de Deus de criar? Será que a decisão de Deus de criar também foi eterna? Se a decisão de criar foi eterna, por que é que a criação também não é eterna? Ou será que a decisão de criar não foi eterna, mas, sim, foi tomada no momento da criação?

Espero que me consiga ajudar.

Deus abençoe.

Anônimo

United States

Dr. Craig responde


A

Creio que você há de concordar que um Deus onisciente não pode tomar decisão no sentido de firmar as suas ideias após um período de indecisão. Uma vez que, como eu disse, Deus tem presciência do futuro, ele sabe desde a eternidade o que Ele fará. Ele não pode, portanto, jamais estar em condição de não saber o que fará. Deus decide desde a eternidade o que fará.

Isto não implica que as decisões de Deus sejam necessárias. Não devemos fazer a equivalência de que algo, por ser eterno ou onitemporal, seja necessário em qualquer sentido. Aristóteles fez tal equivalência, mas, hoje, reconhece-se que algo pode ser eterno, mas contingente. Mesmo que algo tenha sempre sido assim, esse algo não tem de ser assim. Poderia ter sido diferente. Fica a cargo de Deus decidir livremente qual tipo de mundo criar e o que Ele deve fazer nele. Ele poderia, com a mesma facilidade, ter escolhido, desde a eternidade, criar um mundo diferente ou absolutamente nenhum mundo. Em relação às suas perguntas:

1. A possibilidade de que a decisão eterna de Deus seja atemporal ou onitemporal depende da sua visão da relação de Deus com o tempo. Teólogos e filósofos cristãos diferem quanto a esta questão. Há quem pense que Deus existe atemporalmente, ao passo que outros pensam que Deus existe infinitamente através do tempo. Por isso, a resposta à sua pergunta dependerá de qual visão da eternidade divina se adote. Nos dois casos, a decisão de Deus é livre, pois não há restrições impostas em Deus; fica a cargo dele decidir da forma que Ele escolher. Deus não faz uma escolha no sentido de formar suas ideias após um período de indecisão. Porém, ele escolhe, sim, o que fazer no sentido de que a Sua vontade é direcionada livremente a este ou aquele fim.

2. Parece-me que a decisão de Deus de criar o mundo e a Sua decisão sobre como executar o plano da salvação estão no mesmo nível quanto à eternidade delas. Certamente, você não pensa que Deus estivesse sentado desde a eternidade passada tentando formas Suas ideias sobre criar ou não o mundo! Isto seria incompatível com a Sua onisciência: “Se a decisão de criar foi eterna, por que é que a criação também não é eterna?”. Boa pergunta! Não basta à vontade inclinar-se a algum fim: a fim de que um efeito seja produzido, deve haver um exercício de poder causal. Por isso, eu diria que o exercício divino de poder causal foi feito no momento da criação, mas não a Sua decisão de criar o mundo, que é desde a eternidade, assim como a Sua vontade de que Cristo se encarnasse foi desde a eternidade, mas executada em algum momento no tempo cerca de 2000 anos atrás.

- William Lane Craig