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#791 Nada a ver

August 05, 2022
Q

Olá, Dr. Craig.

Obrigado por seu ministério e por tudo que faz pelo Reino! Sou pastor que lidera o ministério de evangelismo na nossa igreja e, no momento, estou ensinando o argumento kalam na aula de apologética; também uso o kalam em conversas evangelísticas, e sou muitíssimo grato por todo o trabalho que tem feito para fortalecer o argumento!

Em relação à primeira premissa do kalam, será que a objeção a que “o universo começou a existir sem causa” é o mesmo que dizer que “a causa do universo É nada”? Em outras palavras, será que chamar X de “nada” é o mesmo que dizer: “não existe X”? Ou seriam as duas afirmações, na realidade, duas objeções diferentes? Pergunto porque fiquei pensando se a refutação da segunda objeção seria também refutação da primeira (uma vez que as declarações seriam idênticas).

Muito obrigado.

Kirk

United States

Dr. Craig responde


A

Para quem não está familiarizado com o argumento cosmológico kalam, Kirk, permita-me expressar a primeira premissa do argumento à qual você se refere:

Ou, na versão preferível,

1’. Se o universo começou a existir, ele tem uma causa do seu começo.

As suas perguntas relacionadas a respostas a esta premissas são muito apropriadas.

Primeiro: Sim, dizer: “o universo começou a existir sem uma causa” é o mesmo que dizer: “a causa do universo É nada”. De fato, a minha primeira linha de argumento favorável à premissa causal é que é impossível que algo venha a existir a partir do nada. Veja o que digo a respeito da primeira premissa do argumento cosmológico kalam, no meu projeto de Teologia filosófica sistemática:

Acima de tudo, o princípio causal se embasa na intuição metafísica de que algo não pode vir a existir a partir do nada. Isto porque vir à existência sem uma causa de qualquer espécie é vir a existir a partir do nada. A sugestão de que as coisas pudessem, simplesmente, surgir incausadas, a partir do nada, significa deixar de fazer metafísica séria e recorrer a mágica.

Segundo: Sim, “chamar X de ‘nada’ é o mesmo que dizer: ‘não existe X’”. Ao dizer isto, você discerne corretamente que “nada” não seja termo de referência, mas quantificador negativo com significado de “não-algo”. Você, portanto, expõe a representação equivocada da ciência por parte de popularizadores como Lawrence Krauss, que nos diz sem perder a compostura:

 

“Há uma variedade de formas de nada, [e] todas elas têm definições físicas.”

“As leis da mecânica quântica nos dizem que nada é instável.”

“70% da matéria dominante no universo é nada.”

“Não há nada ali, mas ele tem energia.”

“Nada pesa algo.”

“Nada é quase tudo.”[[1]]

Todas estas afirmações tomam a palavra “nada” como termo singular em referência a algo — por exemplo, o vácuo quântico ou os campos quânticos. Eles são realidades físicas e, portanto, claramente algo. Chamar essas realidades de nada é, na melhor das hipóteses, equivocado, garantindo a confusão aos leigos, e, na pior das hipóteses, constituindo uma falsa representação deliberada da ciência.

Entendida corretamente, a afirmação “As leis da mecânica quântica nos dizem que nada é instável”, por exemplo, significa: “As leis da mecânica quântica nos dizem que tudo é estável”, o que é patentemente falso. “Não há nada ali, mas ele tem energia” significa: “Não há coisa alguma ali, mas ele tem energia” não quer dizer nada, uma vez que “ele” não tem antecedente. Uma afirmação como “Nada pesa algo” é disparate agramatical. Como é que conseguem se safar com isto?

Assim, a pessoa que afirmar ter vindo o universo à existência sem uma causa está afirmando que o universo veio à existência a partir do nada, sendo que “nada” não se trata de palavra em referência a algo, mas, sim, a um quantificador que significa “não-algo”.


[1] Todas essas citações vêm dos vídeos de Krauss postados no YouTube, incluindo seu “Debate Memorial a Isaac Asimov sobre Nada”, 1:20:25; sua prelação para American Atheists [Ateus Americanos], 26:23; sua entrevista a Richard Fidler; sua discussão com Richard Dawkins no “Projeto Origens” na Universidade Estadual de Arizona, 37 min.; e sua preleção em Estocolmo, 46:37.

- William Lane Craig