#167 Declarações Falsas do Testemunho do Espírito
October 28, 2014Em seu podcast "Experiência Religiosa: subjetiva ou objetiva", você diz que, como o Mórmon não tem um testemunho "real" do Espírito Santo eventualmente, com o peso de outras evidências verificáveis objetivas, a confiança dele vai ceder. Eventualmente percebendo que ele estava enganado.
Eu acho que consigo seguir a sua lógica de que, neste momento, o conflito entre o cristão e o Mórmon deve ser subordinado a estas "outras evidências" que são, inegavelmente, positivas da visão de mundo cristã, e prejudicial para a visão do Mórmon.
No entanto, eu ainda estou tendo problemas para fazer isso se encaixar com sua postura em permitir que o testemunho do Espírito triunfe a evidência objetiva, como mencionado em sua resposta para a Pergunta #68. Eu entendo que "a evidência disponível" muda de lugar para lugar, e de tempo para tempo, mas enquanto isso permite que o cristão permaneça cristão à luz da "evidência disponível", isso não permite, por sua vez, que os mórmons permaneçam honestamente Mórmons ao citar a mesma filosofia?
Então, se o evidencialismo não é necessário, o que eu concordaria que não é, então, como um cristão e um mórmon ganha algum terreno de uma forma ou de outra? Ambos acreditariam que seu testemunho espiritual seja autêntico, e ambos diriam que, já que só vemos em parte, evidência não pode possivelmente descartar a sua experiência. No podcast acima mencionado, você deu uma analogia de garrafas rotuladas como água. Você disse que, se apenas uma das garrafas é água, e o resto é veneno, que a verdade da garrafa corretamente rotulada não é de modo algum diminuída por causa do erro de rotulagem das outras. Mas, como a pessoa com o veneno (falso testemunho) pode saber que o que ela tem não é a água, se ela não vai ouvir a evidência baseada em sua experiência? Por sua vez, como a pessoa com o H2O (Espírito Santo Real) sabe que não têm a garrafa erroneamente rotulada? A verdadeira garrafa de água é inconfundível quando experimentada? Se assim for, então eu devo concluir que o Mórmon, alegando o verdadeiro testemunho, está mentindo ou simplesmente equivocado? Esse argumento não pode também ser usado pelo mórmon contra um cristão que está certo da sua própria experiência da garrafa de água corretamente rotulada? Eu entendo que, só porque um argumento é reversível, não anula a veracidade da aplicação correta, mas não seria descartar a utilidade de tal aplicação?
Obrigado por tudo o que você faz,
Paul
United States
Dr. Craig responde
A
Comunicar a minha compreensão de certas crenças cristãs serem propriamente básicas fundamentadas no testemunho do Espírito tem mostrado ser extraordinariamente difícil. Sua pergunta diz respeito a um cristão que goza o testemunho do Espírito Santo de Deus, e é confrontado com um mórmon que afirma ter uma experiência semelhante de auto-autenticação de Deus (um "ardor no peito") em favor do mormonismo. Ao abordar esta questão, Paul, é importante fazer a distinção entre saber que o cristianismo é verdadeiro e mostrar que o cristianismo é verdadeiro.
Com relação a saber que o cristianismo é verdadeiro, eu escrevi,
Mas, como o fato de outras pessoas afirmarem experimentar um testemunho auto-autenticável do Espírito de Deus é relevante para o meu conhecimento da verdade do cristianismo através do testemunho do Espírito? A existência de um testemunho autêntico e único do Espírito não exclui a existência de falsas alegações a tal testemunho. Como, então, a existência de falsas alegações do testemunho do Espírito da verdade de uma religião não-cristã faz algo para, logicamente, minar o fato de que o crente cristão possui o genuíno testemunho do Espírito? Por que eu deveria ser roubado de minha alegria e certeza da salvação simplesmente porque alguém falsamente finge, sinceramente ou sem sinceridade, o testemunho do Espírito? Se um mórmon ou muçulmano falsamente afirma experimentar o testemunho do Espírito de Deus em seu coração, isso não faz nada para prejudicar a veracidade da minha experiência (Reasonable Faith, p. 49).
A analogia das garrafas todas rotuladas H2O, mas apenas uma das quais realmente contém água, é relevante a este ponto. A falsidade dos outros rótulos não faz absolutamente nada para minar a verdade do rótulo da garrafa realmente contendo água. Você pergunta: "como a pessoa com o H2O (Espírito Santo Real) pode saber que não tem a garrafa erroneamente rotulada? A verdadeira garrafa de água é inconfundível quando experimentada? Se assim for, então eu devo concluir que o Mórmon alegando o verdadeiro testemunho está mentindo ou simplesmente equivocado?" A resposta é que o testemunho do Espírito Santo é inconfundível (embora não indubitável) para quem O possui e atende a ele. Aquele que o tem, deve, de fato, concluir que o Mórmon está mentindo ou, mais caridosamente, sinceramente enganado. O Mórmon provavelmente foi enganado por uma falsa experiência, e a não veracidade de sua experiência não deve levar você a duvidar da veracidade de sua experiência.
Você pergunta: "Esse argumento não pode também ser usado pelo mórmon contra um cristão que está certo da sua própria experiência da garrafa de água corretamente rotulada?" É claro que o Mórmon pode dizer isso; ele pode usar qualquer argumento que ele quiser. Mas isso não faz sua experiência verídica ou me dá qualquer razão para duvidar da minha. Eu acho que você compreende isso, pois você então diz: "Eu entendo que só porque um argumento é reversível não anula a veracidade da correta aplicação." "Mas", você adiciona, "não seria descartar a utilidade de tal aplicação? "Ah, útil para quê? Mostrar-lhe que o cristianismo é verdadeiro? Isso é uma questão de mostrar que sua fé é verdade, não saber que a sua fé é verdade. Então vamos nos voltar a esse assunto.
No que diz respeito a mostrar que a sua fé é verdade, eu escrevi,
Mesmo que eu mesmo saiba pessoalmente com base no testemunho do Espírito que o cristianismo é verdadeiro, como posso demonstrar a alguém que o que eu acredito é verdade?
Considere novamente o caso do cristão diante de um adepto de outra religião do mundo, que também afirma ter uma experiência de auto-autenticação de Deus. William Alston aponta que esta situação tomada isoladamente resulta em um impasse epistêmico. [1]
Pois nenhuma das pessoas sabe como convencer o outro que só ela tem uma experiência verídica, ao invés de ilusória. Este impasse não diminui a racionalidade da fé do cristão, pois mesmo que o processo de formação de sua convicção seja tão confiável quanto possível, não há nenhuma maneira pela qual ele possa dar uma prova não circular deste fato. Assim, a sua incapacidade de fornecer tal prova não anula a racionalidade de sua crença. Mas, embora ele seja racional em manter sua crença cristã, o cristão em tais circunstâncias está completamente perdido em como mostrar ao seu amigo não-cristão que ele está correto e que o seu amigo está errado em suas respectivas crenças.
Como é possível sair deste impasse? Alston responde que o cristão deve fazer o que puder para procurar um terreno comum sobre o qual julgar as diferenças cruciais entre seus pontos de vista concorrentes, procurando mostrar de uma forma não circular qual deles está correto. Se, procedendo com base em considerações que são comuns a ambas as partes, como a percepção sensorial, auto-evidência racional e modos comuns de raciocínio, o cristão puder mostrar que suas próprias crenças são verdadeiras e as de seu amigo não-cristão falsas, então ele terá conseguido mostrar que o cristão está na melhor posição epistêmica para discernir a verdade sobre esses assuntos. Uma vez que a apologética ganha espaço, a diferença objetiva entre as suas situações epistêmicas torna-se crucial, pois já que o não-cristão só pensa que ele tem uma experiência de auto-autenticação de Deus, quando na verdade ele não tem, a força da evidência e argumento pode, pela graça de Deus, quebrar sua falsa certeza da verdade de sua fé e convencê-lo a colocar sua fé em Cristo (Reasonable Faith [Apologética Contemporânea], p. 51).
Observe minhas palavras: o argumento e a evidência que você apresentar pode (não vai) quebrar sua falsa certeza da verdade do mormonismo.
Você pergunta como esta posição é coerente com "permitindo um testemunho do Espírito triunfar evidências objetivas." Está bastante de acordo com isso, quando você percebe que você está voltando para a questão de como eu sei que o cristianismo é verdadeiro. Meu conhecimento da verdade do cristianismo, enquanto apoiada por argumentos fortes, não é, em última análise, baseado nesses argumentos, mas no testemunho do próprio Deus. Se, portanto, eu encontro-me confrontado com um mórmon bem preparado e articulado que afugenta os meus argumentos, e apresenta um caso para o mormonismo para o qual eu não posso responder, eu não deveria apostatar, pois tenho o testemunho do Espírito Santo para a verdade do cristianismo, e, assim, percebo que, embora eu tenha perdido o argumento, o cristianismo não deixa de ser verdade (e eu preciso estar mais preparado da próxima vez!).
Você responde, "mas enquanto isso permite que o cristão permaneça cristão à luz da "evidência disponível" isso não permite, por sua vez, que os mórmons permaneçam honestamente Mórmons ao citar a mesma filosofia?"A palavra aqui é “justificadamente" (ou, mais precisamente,"autorizadamente"), e não" honestamente", já que não estamos contestando a sinceridade do Mórmon. E a resposta é: Não, ele não pode justificadamente permanecer Mórmon apelando para a sua experiência, já que ele não tem um testemunho realmente verdadeiro do Espírito Santo, mas apenas uma falsa experiência. Claro, ele pode não perceber isso, e apelar para a sua experiência como base para resistir a sua evidência (na verdade, isso é, de fato, o que normalmente acontece com os Mórmons!), mas sua esperança e oração devem ser que a evidência irá levá-lo a duvidar, e assim estar aberto para o genuíno testemunho do Espírito Santo.
Então "como", você pergunta, "pode um cristão e um mórmon ganhar algum terreno de uma forma ou de outra? Ambos acreditariam que seu testemunho espiritual é autêntico, e ambos diriam que, já que nós só vemos em parte, evidências não podem descartar a experiência." Sim, ambos fazem essas alegações; mas as reivindicações do mórmon são falsas, ele não tem nenhuma testemunha auto-autenticável do Espírito Santo em favor da verdade do mormonismo, e, portanto, sob a força da evidência ele pode começar a duvidar e buscar. Desse modo, progresso será feito.
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[1]
William Alston, “Religious Diversity and Perceptual Knowledge of God,” Faith and Philosophy 5, no. 4 (1988): 44243.
William Alston, “Religious Diversity and Perceptual Knowledge of God,” Faith and Philosophy 5, no. 4 (1988): 44243.
- William Lane Craig