#235 Parte do Universo é um Ser Necessário?
October 28, 2014O filósofo cristão C. Stephen Layman sugere em seu livro 'Letters to Doubting Thomas: A Case for the Existence of God' [Cartas a Tomé Duvidoso: Um Caso a favor da Existência de Deus] (OUP, 2007) que o naturalista pode escapar de um argumento cosmológico como o da contingência de Leibniz, ao afirmar que "uma parte (ou aspecto) da realidade física existe por necessidade” e "a parte (ou aspecto) necessária da realidade física gera peças adicionais ou aspectos da realidade física de uma forma contingente (não necessariamente)" (p.96). Esse tipo de "naturalismo da necessidade" pode, então, explicar a existência de seres contingentes: embora a maior parte da realidade física seja contingente, há alguma parte (ou aspecto) dela que existe necessariamente, e esta parte necessária gera o resto do universo de uma maneira contingente. (a conclusão de Layman, na verdade, é que "o naturalismo da necessidade" pode realmente explicar a existência de seres contingentes, bem como o teísmo, mas o preço é que isso faz com que o naturalismo seja uma hipótese mais complicada do que mero "naturalismo básico".)
Se esta é uma opção viável para o naturalista, então não se precisa postular um ser sobrenatural necessário para explicar a existência dos seres contingentes. Uma parte natural (física) necessária do universo (ou multiverso) pode fazer o trabalho. Se isso está certo, então certamente este é um problema para um argumento cosmológico do tipo de Leibniz, pelo menos se o argumentador cosmológico quer que sua conclusão tenha algumas implicações teológicas.
Então você acha que esta é uma opção viável para o naturalista?
Obrigado, e obrigado também por seu trabalho encorajador que ensina.
Ilari
Finland
Dr. Craig responde
A
Não, eu não acho que isso seja uma opção viável, Ilari, e nem tampouco qualquer naturalista! Estou um pouco surpreso que Layman tenha tomado essa opção tão a sério. Receio que este seja um daqueles casos em que os filósofos estão procurando qualquer brecha acadêmica em um argumento, em vez de ponderar alternativas realistas (como evitar o argumento cosmológico, negando que alguma coisa existe).
Nenhum naturalista que já li ou conheci acha que há algo existente no espaço que seja um ser metafisicamente necessário, e que explique porque existe o resto do universo. O problema não é apenas que essa hipótese seja menos simples do que o teísmo; é mais que não há nenhum candidato plausível para tal coisa. De fato, tal hipótese é totalmente não científica. Pergunte a si mesmo: O que acontece com tal ser ao você rastrear a expansão do universo, de volta no tempo, até que a densidade torna-se tão grande que nem mesmo átomos podem existir? Nenhum objeto material composto no universo pode ser metafisicamente necessário em qualquer relato cientificamente preciso do universo. (Esta é uma razão porque a teologia mórmon, que postula divindades físicas humanóides no espaço exterior, é tão ridícula.)
Assim, o candidato mais plausível para um ser material metafisicamente necessário seria a própria matéria/energia em si. O problema com esta sugestão é que, de acordo com o modelo padrão da física subatômica, a própria matéria é composta de partículas fundamentais (como quarks). O universo é apenas uma coleção de todas estas partículas dispostas de maneiras diferentes. Mas, agora surge a pergunta: Será que cada uma destas partículas existem necessariamente? Pareceria fantástico supor que todas estas partículas independentes são seres metafisicamente necessários. Não seria possível uma coleção de diferentes quarks ter existido em vez disso? E outras partículas regidas por diferentes leis da natureza? E se fossem cordas em vez de partículas, como a teoria das cordas sugere?
O naturalista não pode dizer que as partículas fundamentais são apenas configurações contingentes da matéria, mesmo que a matéria da qual as partículas são compostas exista necessariamente. Ele não pode dizer isso porque as partículas fundamentais não são compostas de nada! Elas simplesmente são as unidades básicas da matéria. Assim, se uma partícula fundamental não existe, a matéria não existe.
Penso eu que nenhum naturalista se atreve a sugerir que alguns quarks, embora parecendo e agindo apenas como quarks comuns, têm a propriedade especial e oculta de serem necessários, de modo que qualquer universo que existe teria de incluí-los. Mais uma vez, isso seria extremamente anticientífico. Além disso, os quarks metafisicamente necessários não seriam causalmente responsáveis por todos os quarks contingentes, de modo que um é preso com contingência bruta, que é o que nós estávamos tentando evitar. Então, é tudo ou nada aqui. Mas ninguém pensa que cada quark existe por uma necessidade de sua própria natureza. Segue que a alternativa de Laymen simplesmente não é uma resposta plausível para a pergunta.
- William Lane Craig