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#744 O dever está encerrado naquilo que ele implica?

September 12, 2021
Q

Olá, Dr. Craig.

Tenho uma pergunta relacionada à natureza do bem e do mal. Segundo entendo, o bem costuma ser definido como a maneira em que as coisas “devem” ser, e o mal é definido como a maneira em que as coisas “não devem” ser. Em outras palavras, o mal é a privação do que é bom. No entanto, pergunto como isto se dá, quando certos “bens maiores” necessariamente exigem que o mal ocorra a fim de serem realizados. Embora haja vários exemplos cotidianos que eu poderia dar que mostram como o mal e o sofrimento costumam levar a bens que, de outro modo, não ocorreriam, penso que o exemplo definitivo seria o perdão de Cristo aos nossos pecados. Como é que isto se daria, porém, considerando o meu entendimento presente de bem e mal? Se o mal é privação do que é o bem, como é que o mal, em alguns casos, seria necessário para atingir um bem maior? Em outras palavras, como é possível que um “dever” necessariamente exija um “não dever” a fim de ser realizado? Obrigado por todo o trabalho que tem feito, Dr. Craig. O senhor tem me ajudado tremendamente na minha fé.

Ryan

United States

Dr. Craig responde


A

Em resposta ao problema do mal, Alvin Plantinga sugeriu que, talvez, o sacrifício doador de Cristo para expiar os nossos pecados é um bem de tal grandeza — talvez mesmo um bem incomensurável, um bem ao qual nada mais poderia ser comparado — que justifica a permissão de Deus para os males morais no mundo. Isto porque a morte de Cristo por nossos pecados implica que o mal moral existe. Assim, qualquer mundo possível que inclua este grande bem será um mundo manchado pelo mal moral. Por isso, como você disse: “certos ‘bens maiores’ necessariamente exigem que o mal ocorra a fim de serem realizados”.

Portanto, ao aceitar “o bem ... definido como a maneira em que as coisas ‘devem’ ser, e o mal ... definido como a maneira em que as coisas ‘não devem’ ser”, a questão que enfrentamos é a seguinte: “como é possível que um ‘dever’ necessariamente exija um ‘não dever’ a fim de ser realizado?”.

Penso que parte da resposta, ao menos, é que o dever não está encerrado naquilo que ele implica. Quer dizer que uma verdade sobre a maneira como algo deve ser talvez implique outra verdade, sem que o dever seja transferido para a verdade implicada. A título de ilustração, a capacidade de realizar algo, igualmente, não está encerrada naquilo que ela implica. Tenho a capacidade de fazer com que um foguete seja pintado de vermelho. O fato de que o foguete é pintado de vermelho implica que o foguete existe. No entanto, por não ser Elon Musk, certamente não tenho a capacidade de fazer com que um foguete exista!

Igualmente, o dever não parece estar encerrado naquilo que ele implica. Suponha que aceitamos que a morte expiatória de Cristo deva ocorrer. A ocorrência da morte expiatória de Cristo implica que o pecado ocorre. No entanto, daí não decorre que os pecados devam ocorrer. Pelo contrário! Assim, se o dever não está encerrado naquilo que ele implica, não há nenhum problema em “um ‘dever’ necessariamente exige um ‘não dever’ a fim de ser realizado”.

Anos atrás, li uma declaração de um teólogo relacionada ao pecado, segundo a qual o fato de que algo não deve ser não implica que ele não deva ser permitido. Fiquei intrigado por muito tempo com essa declaração paradoxal. Porém, penso que o que nos ajuda a entendê-la é perceber que o dever não está encerrado naquilo que ele implica. O pecado não deve ser, mesmo que seja implicado por algo que deve ser; e, se esse “dever” maior é grande o suficiente, talvez justifique a permissão de Deus para que o “não dever” aconteça.

- William Lane Craig