#272 Os Limites da Razão
January 14, 2015Caro Dr. Craig,
Eu sou um ateu, mas ainda assim sou um grande fã seu. Eu sempre o defendo contra os ateus burros de internet, que nunca se preocuparam em ler qualquer coisa, mas ainda pensam que podem ridicularizar um homem com dois doutorados (PhD) e duas dezenas de livros.
Você defende as provas clássicas de Deus muito bem. Mas eu acho que você está contando o suficiente com bom senso e intuição neste tempo. Nós não estamos em uma época onde podemos ser confiantes de que as leis da razão são as mesmas que as leis da realidade, como as pessoas no tempo de Aristóteles acreditavam. Se fosse esse o caso, nós nunca teríamos que abandonar a física aristotélica. Parecia perfeitamente intuitiva, mas acabou por ser falsa até mesmo na simples ideia de inércia, a qual é um princípio que o nosso cérebro simplesmente não aceita por causa da forma como somos ligados ao que parece.
Podemos simplesmente ver como a razão é limitada no entendimento da física, então, quanto mais teria que ser limitada para a compreensão da criação e Deus. Ao pensar sobre o início dos tempos e sobre a criação e Deus, a nossa razão (na verdade) gera ideias contraditórias. Ela não está satisfeita com a ideia de que o passado deve ser infinito, mas ao mesmo tempo, nem com a ideia de que o tempo tem um começo também. Ambos parecem absurdos e nós somos forçados a acreditar no contrário, mas o seu oposto também é igualmente absurdo. Além disso, a razão exige que a cadeia causal para o passado não dure para sempre, mas ela realmente não pode fazer sentido da própria ideia de uma "primeira causa" também. E também ela exige que as coisas contingentes devem ser, em última instância, explicadas por um ser necessário, mas ela acha que a própria ideia de um "ser necessário" é incoerente ao mesmo tempo. Ela quer ter Deus como o criador do tempo, no entanto, não pode compreender a ideia de que pode haver um agente que age como criador, mas não tem dimensão de tempo próprio e, ao mesmo tempo, em nossa própria experiência, podemos agir exatamente porque estamos no tempo; é o que faz qualquer ação possível em primeiro lugar.
Esses exemplos devem ser um indicador de que não devemos realmente seguir nossas intuições até suas conclusões lógicas para além dos limites do mundo natural. Porque a razão quer seguir a linha de pensamento até o fim, mas, aparentemente, ela está tentando lidar com uma esfera que não funciona na lógica humana depois de um ponto. Podemos sentir que estamos no caminho certo, mas isso é apenas uma ilusão e não devemos levar a sério tais sentimentos.
Eu vou admitir que o ateísmo vem com seus próprios problemas. É óbvio que a forma como nós ateus temos de aceitar o positivismo ou o pós-modernismo e ambos têm problemas fatais. O pós-modernismo é autorrefutável, como você explica em seu ótimo livro Filosofia e Cosmovisão Cristã. E, aparentemente, o positivismo é simplesmente logicamente imaturo e a caminho do pós-modernismo, se a pessoa quer ser coerente.Como Wittgenstein que amadureceu e abandonou o seu positivismo para se tornar um pós-modernista. E esse é o fim da estrada.
Portanto, parece que o debate entre o ateísmo e o teísmo é um impasse. Mas se você ainda disser que eu devo rejeitar o ateísmo porque acaba no absurdo do pós-modernismo e que devo, portanto, adotar sua negação que é o teísmo, bem, então eu vou ter que lembrá-lo de problemas fatais em sua cosmovisão, tais como teorias JEDP para a origem da Torá e do sucesso acadêmico do darwinismo que exige aceitação.
Felicidades
KS
Turkey
Dr. Craig responde
A
KS, eu realmente aprecio a sua interessante pergunta e especialmente sua defesa em meu favor em seus fóruns ateus!
Ao ler a sua carta, pensei: Uau, isso soa como um bom kantiano! (Você já leu Crítica da Razão Pura [1781] de Kant? Os seus argumentos são ecos dos dele!) Agora, praticamente nenhum filósofo, hoje, é kantiano no que diz respeito à capacidade da razão para entregar-nos verdades importantes sobre a realidade. Desde o desaparecimento do Verificacionismo em meados do século XX, a metafísica, apesar das críticas de Kant, foi crescendo mais uma vez. Isso sugere que deve haver algo de errado com o seu argumento. Então, vamos falar sobre ele.
Em primeiro lugar, parece-me que não temos escolha a não ser considerar bom senso e intuição como os nossos pontos de partida. Eu suspeito fortemente que mesmo aqueles que afirmam não colocar nenhuma confiança no bom senso e intuição, de fato, dependem deles o tempo todo, no que diz respeito a hipóteses metafísicas inconscientes. Portanto, quando um ponto de vista filosófico voa na cara do bom senso e intuição (por exemplo, que o mundo externo não existe), então podemos justamente exigir um argumento muito poderoso em favor desse ponto de vista. Na ausência de algum invalidador (defeater) do que o bom senso e intuição nos dizem, somos justificados em ser céticos em relação a esse ponto de vista, e perfeitamente racionais em rejeitá-la. Por isso, enquanto o que o bom senso e intuição nos dizem seja certamente derrotável e pode ocasionalmente ser revisto, eles ainda são um ponto de partida indispensável, que não deve ser levemente abandonado.
As leis da razão e as leis da realidade são as mesmas, como as pessoas da época de Aristóteles acreditavam? Nada aconteceu desde a época de Aristóteles que tenha minado as verdades da lógica ou da aplicabilidade da lógica para o mundo.A lógica de Aristóteles é chamada lógica silogística. Ele identificou formas de argumentos válidos que ainda são reconhecidos, hoje. Por exemplo, todos os As são Bs; Bs não são Cs; portanto, As não são Cs. Este é um padrão inegavelmente válido de raciocínio. O principal avanço da lógica moderna sobre a de Aristóteles é que os lógicos modernos vieram a perceber que as premissas do raciocínio silogístico como "Todos As são Bs" tem em si uma estrutura lógica que a lógica de Aristóteles não divulgou. Uma declaração como "Todos As são Bs" tem na lógica sentencial moderna (a lógica de sentenças) a estrutura de uma condicional: "Para qualquer item x, se x é um A, então x é um B." Isso nos permite fazer inferências que a lógica silogística de Aristóteles não pode expressar, por exemplo, "Tudo que começa a existir tem uma causa; o universo começou a existir; Portanto, o universo tem uma causa”.
A lógica formal tornou-se uma disciplina de precisão técnica e rigor incríveis, semelhante à matemática. Na verdade, a lógica formal muitas vezes tem o nome de lógica matemática. Não há nada no avanço desta disciplina que deva nos levar a duvidar da capacidade da razão para fazer inferências válidas sobre a realidade. Na verdade, o desenvolvimento de sub-disciplinas como a lógica modal (a lógica que lida com o necessário e o possível) e lógica contrafactual (lidando com declarações condicionais subjuntivas) tem sido um grande trunfo em sermos capazes de raciocinar com mais cuidado e rigor ao fazer metafísica.
Não confunda a lógica aristotélica com a física de Aristóteles! Aristóteles não era apenas um grande filósofo, mas um cientista natural também. Como você poderia esperar, seu trabalho científico foi substituído pela ciência posterior, à medida que instrumentos mais sofisticados para sondar o mundo físico se desenvolveram. Ao a ciência avançar em nossa compreensão das leis da natureza, a física aristotélica foi substituída pela física newtoniana, que, por sua vez, foi substituída pela física de Einstein, e que em breve, esperamos que será substituída por uma física unificada gravitacional quântica. Em cada revolução científica sucessiva, a ciência anterior não é simplesmente abandonada; em vez disso suas verdades são reformuladas e preservadas na teoria que a substitui e suas imprecisões são abandonadas.
Eu espero que você possa ver que nada disso dá qualquer motivo para duvidar da eficácia da razão humana em conhecer a realidade; muito pelo contrário, este é o testemunho do incrível poder da razão humana!
A lição aqui para o teólogo natural é que ele precisa ser cientificamente alfabetizado e manter-se a par das descobertas atuais e novas teorias da ciência. Por essa razão, tenho me esforçado por ser responsável a este respeito. Eu quero ter uma teologia que é cientificamente informada e, assim, apresentar uma perspectiva integrada da realidade.
Agora você lembrar-nos, com toda a razão, que, quando se trata de temas como Deus e a criação, estamos fazendo metafísica, e não física (embora física possa fornecer evidência em apoio às premissas em um argumento metafísico que leva logicamente a uma conclusão que é de significado teológico). Então, se temos premissas plausivelmente verdadeiras que implicam, pelas regras normais da lógica, uma conclusão de significado teológico, por que devemos resistir a essa conclusão?
Aqui é onde o seu kantianismo entra em cena. Você afirma: "Ao pensar sobre o início dos tempos e sobre a criação e Deus a nossa razão, na verdade, gera ideias contraditórias." Você está dizendo que a razão nos leva a antinomias e por isso não pode ser confiável. Eu tenho respondido a esta alegação kantiana no The Kalam Cosmological Argument (1979), Apêndice 2: "O Argumento Cosmológico Kalam e a Tese de Primeira Antinomia de Kant." KS, se você está falando sério sobre resolver as suas reservas, por favor, leia essa seção. Eu mostro que não há nenhuma antinomia porque não há nada incoerente sobre um princípio do tempo. Kant pensava que para que o tempo tivesse um começo, tinha de haver um tempo antes do tempo durante o qual nada existia. Isso é um erro. Tudo o que é necessário é que tenha havido um tempo que não tenha sido precedido por qualquer tempo antes. Longe de ser incompreensível, este é precisamente o conceito de um começo do tempo que é usado em astrofísica contemporânea. Por exemplo, o cosmólogo agnóstico Sean Carroll caracteriza modelos cosmológicos que apresentam um início do universo, dizendo: "houve um tempo de tal modo que não havia tempo antes". [1]
Da mesma forma, não há nenhum problema em postular um Criador ou primeira causa que existe atemporal sem o universo. Mais uma vez, Carroll usa justamente essa noção em relação a uma condição de limite no espaço-tempo: "Não há nenhum obstáculo lógico ou metafísico para completar a história temporal convencional do universo ao incluir uma condição de limite atemporal no início". [2] O estado eterno, atemporal de Deus é, por assim dizer, tal condição de limite do tempo. O ato de criar o universo de Deus é simultâneo com o começo da existência do universo. Portanto, Deus é atemporal sem a criação e temporal desde sua criação. Então, onde está o problema?
Quanto ao argumento de seres contingentes e seres metafisicamente necessários, qual é a dificuldade? Muitos filósofos pensam que os objetos abstratos como números e outros objetos matemáticos existem necessariamente. Então, onde está a incoerência na ideia de um ser necessário? É um ser que existe em cada mundo possível amplamente lógico.(Aqui, os avanços da lógica modal de que eu falei a respeito anteriormente, na verdade, ajudam-nos a compreender melhor essa noção de um ser metafisicamente necessário.) Então, qual é a objeção?
Portanto, essas pseudo-antinomias não suportam a conclusão radical de que "não devemos realmente seguir nossas intuições até suas conclusões lógicas para além dos limites do mundo natural." Na verdade, quando você afirma, "a razão quer seguir a linha de pensamento até o fim, mas, aparentemente, ela está tentando lidar com uma esfera que não funciona na lógica humana depois de um ponto. Podemos sentir que estamos no caminho certo, mas isso é apenas uma ilusão," podemos justificadamente virar a mesa e perguntar: "Como você sabe disso? Como, do seu ponto de vista, você pode saber alguma coisa sobre como essa esfera é? Como você sabe que a lógica humana não funciona lá? Na verdade, como pode a lógica 'não funcionar'?" KS, você, como Kant antes de você, estão em uma posição auto-refutável de você mesmo fazer afirmações metafísicas!
A lição aqui é que não devemos apenas deixar de pensar, mas que devemos pensar ainda mais profundamente. Ouça, KS, você não está no fim da estrada. Mesmo para um ateu, suas escolhas não estão limitadas ao Positivismo e Pós-Modernismo. Mas por que ficar com o ateísmo? O teísmo oferece uma visão intelectualmente expansiva e ricamente recompensadora, para não falar dos seus benefícios espirituais.
E, KS, o que hei de lhe dizer em resposta ao seu parágrafo final? "Por favor cara!" Você sabe fazer melhor do que isso. Você pode ser um teísta e um cristão e aceitar a hipótese documentária do Pentateuco e a teoria darwiniana da evolução, se você acha que é onde a evidência o leva (veja Perguntas #253, 269).
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[1]
“Does the Universe Need God?” em The Blackwell Companion to Science and Christianity, ed. James B. Stump e Alan G. Padgett (Blackwell Wiley, 2012). Para uma discussão do artigo de Carrol escute nossos três podcasts do Reasonable Faith que serão postados.
“Does the Universe Need God?” em The Blackwell Companion to Science and Christianity, ed. James B. Stump e Alan G. Padgett (Blackwell Wiley, 2012). Para uma discussão do artigo de Carrol escute nossos três podcasts do Reasonable Faith que serão postados.
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[2]
Ibid.
Ibid.
- William Lane Craig