#746 Nominalismo ou antirrealismo?
September 12, 2021Dr. Craig,
Estava discutindo com Bob Stewart, o meu diretor, sobre o entendimento que ele tem do nominalismo do senhor. Porém, um amigo meu, Andrew Hollingsworth, corrigiu “nominalismo” para “antirrealismo”. Será que o senhor poderia confirmar esta questão e explicar a diferença entre os dois? Aguardo ansioso para ler a sua teologia sistemática.
David
United States
Dr. Craig responde
A
O Dr. Hollingsworth, que nos está ajudando a desenvolver o currículo e os cursos para a nossa proposta de Centro Acadêmico, está totalmente correto ao fazer esta correção. Conforme explico em meu livro God Over All (2016) [Deus acima de tudo], na literatura filosófica, tanto o antiplatonismo quanto o antirrealismo são designados “nominalismo”. Uma vez que o antiplatonismo e o antirrealismo são duas visões diferentes, este rótulo é muito confuso. Os antiplatonistas negam que haja objetos abstratos. No entanto, alguns antiplatonistas são realistas quanto a entidades matemáticas e outros objetos supostamente abstratos, considerando-os como, de fato, objetos concretos, tais como pensamentos de Deus, e não abstratos. Em contraste, os antirrealistas quanto a entidades matemáticas e outros abstracta negam que tais entidades sequer existam, seja abstrata ou concretamente. Assim, dizer que alguém é nominalista quando se trata, digamos, de números, não nos diz em que ele crê.
Além disso, “nominalismo” é termo usado em dois diferentes debates filosóficos para denominar duas visões muito diferentes. O primeiro é a disputa secular sobre a existência de universais. Neste debate, o nominalismo é a visão segundo a qual os universais não existem, que tudo que existe é um particular. O segundo debate é discussão bastante recente, centrada na filosofia da matemática, conforme surgiu apenas desde a publicação de Os fundamentos da aritmética (1884), do matemático alemão Gottlob Frege. Neste debate, a palavra “nominalismo” costuma ser usada como sinônimo para antiplatonismo quanto a objetos abstratos. O problema é que alguém que seja nominalista em um debate pode não ser nominalista no outro! Por exemplo, na antiga disputa sobre universais, um tipo de nominalismo é chamado de nominalismo de classe, segundo o qual objetos semelhantes são aqueles incluídos em determinada classe. Uma vez que classes são objetos abstratos análogos a conjuntos, no entanto, tal pensador não é nominalista no segundo debate, mas, sim, platonista! Igualmente, a pessoa que identifique universais como pensamentos na mente de alguém é nominalista no segundo debate (uma vez que pensamentos são objetos concretos, e não abstratos), mas não nominalista no primeiro debate (uma vez que considera que os pensamentos sejam reais e, portanto, que os universais sejam reais). A tendência de alguns filósofos de borrar as linhas destes dois debates usando a palavra “nominalismo” tem sido, portanto, fonte de confusão.
Por fim, em contexto teológico, “nominalismo” tem sido usado como rótulo para uma visão particular de predicação sobre Deus que tem implicações teológicas muito negativas. Embora soubesse vagamente desta questão quando escrevi God Over All, desde então topei com ela mais plenamente ao trabalhar na minha teologia filosófica sistemática. A questão em jogo aqui é se as predicações que fazemos de Deus, como “Deus é bom” ou “Deus é todo-poderoso”, têm algum conteúdo factual. Penso que tais predicações sejam univocamente verdadeiras. Tais predicados, quando atribuídos a Deus, têm o mesmo sentido no discurso comum, e as predicações decorrentes são verdadeiras. Deus é, deveras, bom e todo-poderoso. Porém, enquanto antirrealista que nega a existência de objetos abstratos como propriedades, não penso que a razão por que Deus é bom e todo-poderoso seja porque ele se coloque em alguma relação de exemplificação diante de um objeto abstrato de bondade ou plenipotência. Afirmo até que Deus é necessária ou essencialmente bom e todo-poderoso, sem implicar que haja algum objeto abstrato chamado de essência divina que Deus instancie.
Em comparação, alguns nominalistas medievais sustentavam que tais predicados são meras palavras e que as predicações decorrentes são simples sequências de palavras, sem conteúdo proposicional, isto é, não asseveram nada nem afirmam um fato sobre Deus, de forma alguma. Embora digamos coisas como “Deus é bom” ou “Deus é todo-poderoso”, nada, na realidade, corresponderia a tais predicações. Tal visão nos deixa com agnosticismo completo em relação a Deus, já que nenhuma das predicações que fazemos dEle O descreve de verdade. Resta-nos nada além do misticismo. Tal visão é anátema, teologicamente falando, pois nega as verdades sobre Deus que são centrais ao cristianismo, como “Deus amou o mundo de tal maneira que deu...” (João 3.16). Chamar o meu antirrealismo de “nominalismo” não é, portanto, apenas equivocado, mas difamatório.
- William Lane Craig