#697 O que devo fazer para ser salvo?
March 23, 2021Olá, Dr. Craig.
Até alguns meses atrás, tinha abandonado a fé cristã que herdara em favor do ateísmo. Isto se deveu em grande parte a uma falta de envolvimento sério com o cristianismo. Recentemente, porém, aos poucos comecei a ficar tomado de um sentimento de que a visão ateísta não era intelectual e moralmente suficiente. Agora, estou me empenhando em desenvolver uma fé madura no cristianismo e venho estudando apologética e doutrina cristãs. Ainda estou aprendendo, mas, ao estudar o seu trabalho e de outros, vieram-me à tona perguntas que me parecem mais delicadas do que deveriam.
Quais são as doutrinas cardeais em que se deve crer para receber a salvação e, por outro lado, quais pecados, se é que algum pecado assim exista, não podem ser perdoados por Deus (isto é, garantirão a condenação)? O senhor e outros autores modernos que li tocam numa resposta a esta questão, mas não estou conseguindo encontrar uma resposta completa. Ao procurar nos seus vídeos e respostas anteriores para achar uma solução à questão acima, deparei com declarações suas que parecem incoerentes em relação a este assunto.
Em sua resposta à pergunta 592, o senhor diz: “a crença na divindade, na morte expiatória e na ressurreição de Cristo parecem estar entre as doutrinas cardeais nas quais qualquer pessoa instruída deve crer para salvação. Além dessas doutrinas centrais, parece não haver muitas outras que funcionam, por assim dizer, como ‘nota de corte’”. No entanto, na sua resposta à pergunta 4, o senhor diz: “Permita-me dizer que alguém que afirma conhecer a Cristo, mas não mostra nenhum fruto de regeneração, não tem absolutamente nenhum fundamento para a segurança da salvação”.
Como é que as duas afirmações podem ser compatíveis? Se o forem, o que constitui uma demonstração minimamente suficiente do fruto da regeneração para a segurança da salvação? Esclarecendo a pergunta acima, não quero dar a entender que a salvação possa ser recebida mediante as obras. Porém, estou com dificuldade para enxergar como, segunda a sua perspectiva, alguém pode se comprometer suficientemente com o cristianismo enquanto faz coisas como exercer um trabalho sem relação com o ministério. Por fim, parece deliberadamente equivocado dizer algo como “fé em Deus e crença em xyz lhe darão a salvação”, mas, então, afirmar que a fé e a crença, nesse contexto, vão bem além o uso comum dos dois termos. Se o cristianismo se pretende acessível a todos, parece contraintuitivo ir além da interpretação literal de tal afirmação fundamental. Será que as pessoas deveriam ser enviadas para o inferno pela incapacidade delas de entenderem a nuança adicional que o senhor interpreta nessa doutrina?
Atenciosamente,
Collin
Estados Unidos
Dr. Craig responde
A
É sempre uma alegria ter notícia de alguém que está reencontrando seu caminho de volta à fé cristã, Collin! Concordo plenamente que o ateísmo é uma cosmovisão existencialmente vazia e até mesmo impraticável.
Pertinente à sua pergunta é a distinção feita pelos grandes reformadores protestantes como Martinho Lutero entre os três sentidos de fé, que denominavam em latim de notitia, assensus e fiducia. Notitia significa entendimento. Para ter fé, é preciso primeiro entender o que quer dizer determinada afirmação doutrinária. Isto não envolve uma compreensão teológica profunda da afirmação, mas apenas um entendimento do significado linguístico da afirmação doutrinária. Compreender a língua vernácula e conhecer o significado das palavras bastam para notitia em relação a uma afirmação como “Jesus ressuscitou dentre os mortos”. Assensus significa assentimento, isto é, a concordância com a afirmação doutrinária. É o mesmo que dizer que se crê que a afirmação é verdadeira. Por exemplo, pode-se confessar: “Creio que Jesus ressuscitou dentre os mortos”. Por fim, fiducia significa confiança ou compromisso pessoal. Costumamos expressá-la ao crer em alguém ou algo. A fé salvadora envolve mais do que simplesmente crer que certas afirmações doutrinárias são verdadeiras, mas também crer em Cristo, no sentido de confiar nele ou entregar-Lhe a própria vida.
Por isso, em relação à sua pergunta, quando eu disse que há pouquíssimas crenças acima da “nota de corte”, ou seja, que pouquíssimas são as crenças que você deve afirmar para ser salvo, estava me referindo às afirmações doutrinárias às quais você deve assentir para ser salvo. A maior parte das doutrinas cristãs, embora verdadeiras, não são essenciais para a salvação. Se negá-las, estará errado, mas não será um herege, isto é, alijado da salvação.
Porém, como disse, simplesmente ter crenças doutrinárias corretas não basta para a salvação. Você precisa também colocar a sua confiança em Jesus Cristo, confiando nele como seu Salvador e Senhor. É disso que estava falando quando disse que “alguém que afirma conhecer a Cristo, mas não mostra nenhum fruto de regeneração, não tem absolutamente nenhum fundamento para a segurança da salvação”. A fé genuína produz mudança de vida. Uma fé que não tem nenhuma consequência não é genuína fé salvadora. Confiança sincera em Cristo resulta em renascimento espiritual que mudará a sua vida (obviamente, não estou falando aqui de conversão no leito de morte). Paulo diz que “o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, amabilidade e domínio próprio“ (Gálatas 5.22-23).
Assim, “o que constitui uma demonstração minimamente suficiente do fruto da regeneração para a segurança da salvação?” Parece-me que a resposta, muito provavelmente, é relativa à pessoa. Alguém que tenha sido emocionalmente prejudicado quando criança talvez enfrente obstáculos enormes para produzir fruto espiritual, ao passo que alguém com uma infância emocionalmente saudável talvez não tenha as mesmas lutas com ansiedade, depressão, ira e assim por diante.
Você diz: “estou com dificuldade para enxergar como, segunda a sua perspectiva, alguém pode se comprometer suficientemente com o cristianismo enquanto faz coisas como exercer um trabalho sem relação com o ministério”. Caramba! Será que me expressei tão mal assim? É claro que não creio que Deus chamou todo o cristão para o ministério cristão vocacional. O plano de Deus para você pode ser que você se torne um contador, uma dona de casa ou um encanador. Devemos produzir o fruto do Espírito em qualquer vocação para a qual Deus nos chamar.
Você acha “deliberadamente equivocado dizer algo como ‘fé em Deus e crença em xyz lhe darão a salvação’, mas, então, afirma que a fé e a crença, nesse contexto, vão bem além o uso comum dos dois termos”. Espero que fique óbvio que estou usando “fé” e “crença” no sentido linguístico corriqueiro desses termos, como, por exemplo, “creio na minha esposa” e “creio que seja 2020”. Estou apenas dizendo que fé e crença devam ser sinceras, e não fingidas.
A sua pergunta: “Será que as pessoas deveriam ser enviadas para o inferno pela incapacidade delas de entenderem a nuança adicional que o senhor interpreta nessa doutrina?” se esquece justamente do meu argumento acima, segundo o qual pouquíssimas crenças estão acima da nota de corte, incluindo crenças sobre a natureza da fé. Essencial para a fé salvadora não é ter as visões corretas sobre a fé, mas simplesmente ter fé sincera em Cristo e crer nas doutrinas cristãs cardeais.
- William Lane Craig