#236 Valores Morais e Objetos Abstratos
August 04, 2013Prezado Dr. Craig
Muito obrigado por todo o seu trabalho para o reino de Deus, e que tem ajudado imensamente na minha própria fé.
Em conexão com o argumento moral para a existência de Deus, tenho dificuldade de compreender o platonismo.
Em seus escritos você parece na melhor das hipóteses deixar objetos abstratos como uma questão em aberto. Eu acho que você parece preferir algum tipo de posição nominalista embora possa estar aberto a uma visão conceptualista. Eu acho que esses são os únicos que consigo entender!
Eu entendo também que os valores morais “parecem ser a propriedades de uma pessoa”. Isso nos leva diretamente a um ser moral pessoal no final do argumento moral.
No entanto, a minha pergunta é esta – por que podemos aceitar objetos abstratos como números mas não valores morais. Acho difícil de entender como somente os números ou proposições ou leis científicas podem existir. No entanto, você parece contente em deixar isso como uma questão em aberto e alguns filósofos em declará-los objetos abstratos. Acho difícil de ver como os valores morais podem existir como objetos abstratos separarados de pessoas, mas qual é a diferença entre tentar conceber isso em oposição aos objetos abstratos como já relatado acima? Se podemos conceber alguns objetos abstratos (como números), por que não incluir os valores morais também. Será que isso é, em última instância, uma questão de epistemologia – ou seja, o que é propriamente básico para mim?
Parece que isso também poderia se aplicar ao dever, ou seja, mandamentos morais poderiam existir como abstrações seguindo o meu mesmo argumento acima.
Sou grato por qualquer resposta que você possa ter. Eu poderei levá-la para o grupo “Em Guarda” que criamos.
Bênçãos
Mac
United States
Dr. Craig responde
A
Espero que eu tenha sido suficientemente claro, Mac, em minha oposição ao platonismo no que diz respeito aos objetos abstratos. Tanto por razões teológicas quanto filosóficas, eu não acho que, como o platônico afirma, existam entidades abstratas não-criadas como números, conjuntos e outros objetos matemáticos. (Se há ou não objetos abstratos criados, como obras de literatura e música, é outra questão; ver Q&A 9 e 94). Vejo o nominalismo e o conceptualismo como formas de evitar a realidade de tais objetos. O nominalista nega que tais entidades existam, o conceptualista as reduz a idéias na mente de Deus.
No que diz respeito aos valores morais, o platônico entende o Bem como sendo um objeto abstrato não-criado, necessariamente existente. Eu acho que seria de fato bizarro pensar que o Bem pode ser um objeto abstrato criado por Deus, pois Deus não teria de ser bom a fim de criar o Bem? Poderia um ser moralmente neutro criar a bondade? Explicativamente anterior à criação de sua própria bondade, Deus seria moralmente neutro, e assim parece que temos um exemplo do poder criando o justo. Esse é o círculo vicioso bem conhecido ou objeção bootstrapping à criação por Deus de suas próprias propriedades. Então, eu estou inclinado a concordar com o platônico que o Bem não pode ser um objeto abstrato criado.
Disso decorre, então, que o Bem não pode ser um objeto abstrato, uma vez que não há objetos abstratos não-criados. Então, na minha opinião, nem os números nem os valores morais são objetos abstratos. Ao invés disso eu considero o Bem como sendo um objeto concreto, ou seja, o próprio Deus. O próprio Deus é o paradigma da Bondade.
Sou totalmente simpático ao seu ceticismo quanto à classificação dos números, das proposições e das leis científicas como objetos abstratos. Além disso, na medida em que eles são concebidos como sendo não-criados, eu sou totalmente contra eles. Eu também não acho que os valores morais sejam objetos abstratos existindo separadamente das pessoas. A propriedade de ser bom não é um objeto abstrato, do mesmo modo que as propriedades de ser marrom ou de ser rápido não o são. Há pessoas boas, certamente, mas não vejo nenhuma razão para formular isso ontologicamente em termos da posição de uma pessoa em relação a algum objeto misterioso moralmente neutro para além do tempo e do espaço, em virtude da qual uma pessoa, que de outro modo é moralmente neutra, é boa. A inclusão de tais entidades ao nosso inventário do que existe não tem valor explicativo e leva ao problema do bootstrapping mencionado acima, a menos que se faça uma distinção ad hoc entre propriedades criáveis e não-criáveis.
Parece-me óbvio que mandamentos morais não podem existir independentemente de uma pessoa que emita tais mandamentos. Assim como não há interrogações a menos que alguém faça perguntas, não há imperativos a menos que alguém emita comandos.
Espero que vocês apreciem a leitura de Em Guarda juntos!
- William Lane Craig