#676 Devemos ressuscitar a teoria da conspiração?
July 17, 2020Caro Dr. Craig,
Sou grande admirador do seu trabalho há alguns anos. Sempre serei grato pelo que o senhor faz.
Por mais ou menos dez anos, estava convencido de que Jesus ressuscitara dentre os mortos e de que a sua ressurreição não foi falsa. Via a ressurreição como prova irrefutável de que Deus, de fato, existe na realidade, pois somente Deus poderia produzir uma ressurreição dentre os mortos. Recentemente comprei e li o livro Gunning for God, do Professor John Lennox, e gostei demais dele. Algo extraordinário aconteceu enquanto eu lia a seção sobre a ressurreição de Jesus. Ele discutia a teoria de que os discípulos podem ter levado o corpo do sepulcro. Antes, eu concordava com o senhor de que a teoria era muito improvável, porque os discípulos foram, em seguida, torturados e crucificados, e pensava que seria muito improvável aos discípulos, que sabiam ser a ressurreição uma mentira, defender tal mentira até o ponto de sofrerem tortura e crucificação. Sempre me pareceu que, se fosse mentira, eles admitiriam ser mentira a fim de evitar a tortura e a morte por crucificação.
No entanto, nessa seção do livro do Professor Lennox, ele apontou para o fato de que violação de túmulos era crime capital em Jerusalém, naquela época, algo que eu desconhecia até ler o livro. Descobrir isto mudou totalmente o jogo para mim com relação à ressurreição de Jesus. Agora me parecia que era bastante possível que os discípulos tivessem removido o corpo do sepulcro, inventando a ressurreição como meio de acobertar o seu crime de violar o túmulo. Agora me parecia que a motivação para defender a mentira ressurreição fosse muito forte: da perspectiva deles, parecia-me que eles pensaram que, ao defender essa mentira, poderiam evitar que fossem crucificados pelo crime de violação de túmulo, ao passo que, anteriormente, eu pensava que defender essa mentira poderia tê-los levado a ser crucificados. Saber que violação de túmulos era crime capital naquele tempo e época retirou minha razão para crer nos testemunhos da ressurreição dos discípulos! Evitar a crucificação seria um motivo muito forte para contar uma mentira, mesmo sabendo que assim o era. Na verdade, agora me parece muito provável que os discípulos poderiam ter tirado o corpo do túmulo, depois criando a ideia de que Jesus ressuscitara a fim de acobertar o crime deles e, assim, evitar a crucificação. Se fosse mentira, poderia ter começado com motivações muito fortes, como meio de homens aterrorizados evitar uma horrenda morte sob tortura; e, então, a mentira podia ter se espalhado por inúmeras razões: amigos dos discípulos podem ter repetido a mesma mentira para ajudar a evitar a crucificação dos seus amigos, por exemplo. Uma vez que o boato se espalhou um pouco, o desejo de fazer parte daquele grupo especial que supostamente vira o Jesus ressuscitado pode ter sido mais uma motivação para que outros comprassem a mentira.
Minha pergunta é a seguinte: o senhor não acha que o fato de violação de túmulos ser crime capital e que, se as autoridades romanas tivessem descoberto que eles roubaram o sepulcro, seriam crucificados, constitui ampla motivação para os discípulos criarem a mentira de que Jesus ressuscitara dentre os mortos (caso eles tenham mesmo violado o túmulo)? A ocorrência desta hipotética mudança de eventos me parece muito mais provável do que uma ressurreição real, e me indago como conciliar tudo isto com o fato de que violação de túmulos era crime capital. Por favor, perdoe a minha ignorância e qualquer ofensa da minha parte; não tenho a intenção de ofender, mas realmente gostaria de entender a sua perspectiva e, se há algo que perdi de vista, gostaria muito de descobrir como é que a ressurreição é evento histórico real que pode, afinal, ser defendido racionalmente, como eu aceitava antigamente. Muito obrigado pela consideração.
Atenciosamente,
Purusha
Estados Unidos
United States
Dr. Craig responde
A
Purusha, perco o ânimo toda vez que recebo uma carta assim. Embora você, muito gentil, diga que admira há anos meu trabalho, você mostra que — como posso dizer? — tem pouquíssimo entendimento da defesa histórica da ressurreição de Jesus. Você quer sugerir seriamente que os discípulos roubaram o corpo de Jesus do sepulcro e, então, mentiram às pessoas sobre as aparições da ressurreição? Não percebe que esta velha teoria da conspiração, proposta por deístas nos séculos XVII e XVIII, está morta há mais de 200 anos, e nenhum estudioso contemporâneo defenderia essa visão? Mesmo antes de responder à sua pergunta específica, posso, pelo menos, pedir que você dê um passo para trás e se pergunte: “Por que todos rejeitam essa teoria, embora me pareça tão persuasiva? Qual é a probabilidade de que todos os historiadores estejam errados e apenas eu, certo? Onde está o meu ponto cego?”
Sua falta de entendimento quanto à defesa história da ressurreição de Jesus fica evidente no fato de que você parece pensar que há uma única objeção à teoria da conspiração, a saber, a improbabilidade da disposição dos discípulos de morrer por uma mentira que inventaram. Se tal objeção fracassa, aparentemente você pensa que a teoria da conspiração continua de pé, sem problemas. Embora, penso eu, essa objeção realmente revele uma fraqueza na teoria da conspiração, a teoria encara muito mais objeções — e, devo dizer, objeções muito mais vigorosas — do que aquela.
Há três fatos que qualquer hipótese significativa deve explicar: o sepulcro vazio de Jesus, suas aparições pós-morte e a origem da crença dos discípulos na ressurreição de Jesus. Vou reproduzir aqui para você minha avaliação da teoria da conspiração como explicação desses fatos. Extraí de meu livro Em guarda, explicando por que a teoria é rejeitada universalmente por estudiosos contemporâneos.
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A explicação das provas
Os historiadores ponderam diversos fatores ao avaliar hipóteses rivais. Alguns dos mais importantes são os seguintes:[1]
1. A melhor explicação terá maior escopo explanatório do que outras explicações, ou seja, explicará melhor as provas.
2. A melhor explicação terá mais força explanatória do que outras explicações, ou seja, tornará mais prováveis as provas.
3. A melhor explicação será mais plausível do que outras explicações, ou seja, ela se encaixará melhor nas crenças contextuais verdadeiras.
4. A melhor explicação será menos forçada do que outras explicações, ou seja, não exigirá que se adotem tantas novas crenças que não têm provas independentes.
5. A melhor explicação será negada por menos crenças aceitas do que outras explicações, ou seja, não entrará em conflito com tantas crenças aceitas.
6. A melhor explicará satisfará às condições (1)—(5) de forma tão superior às outras que há poucas chances de que uma das outras explicações, após investigação mais aprofundada, conseguirá melhor satisfazer a tais condições.
Já que uma hipótese pode se dar muito bem ao satisfazer a algumas condições, mas não tão bem com outras, descobrir qual hipótese é a melhor explicação pode, muitas vezes, ser difícil e demanda habilidade. Porém, se o escopo e força explanatórios de uma hipótese são muito grandes, de maneira que ela se dá muito melhor ao explicar uma ampla variedade de fatos, é provável que ela seja a explicação verdadeira.
Portanto, apliquemos estes testes às hipóteses típicas que foram dadas ao longo da história para explicar o sepulcro vazio, as aparições pós-morte e a origem da crença dos discípulos na ressurreição de Jesus, e vejamos se elas se dão melhor ou igualmente bem ao explicar esses fatos quanto o faz a Hipótese da Ressurreição.
Hipótese da conspiração
De acordo com esta hipótese, os discípulos roubaram o corpo de Jesus e mentiram sobre as suas aparições, inventando, assim, a ressurreição. Foi a primeiríssima explicação alternativa para o sepulcro vazio, como vimos, sendo renovada durante o século XVIII por deístas europeus. Hoje, contudo, esta explicação foi completamente abandonada pela pesquisa moderna. Podemos ver o porquê ao avaliá-la com os critérios convencionais para testar hipóteses históricas.
1. Escopo explanatório. A Hipótese da Conspiração parece cobrir todo o escopo das provas, pois dá explicações do sepulcro vazio (os discípulos roubaram o corpo), das aparições pós-morte (os discípulos mentiram sobre ver Jesus) e da origem da (suposta) crença dos discípulos na ressurreição de Jesus (mais uma vez, mentiram).
2. Força explanatória. Qual é a probabilidade das provas, dada a Hipótese da Conspiração? No caso, dúvidas começam a surgir quanto à adequação da hipótese.
Primeiro, considere a história do sepulcro vazio. Se os discípulos roubaram o cadáver de Jesus, seria totalmente sem sentido inventar uma história sobre mulheres descobrindo que o sepulcro estava vazio. Tal história não seria o tipo de conto que homens judeus criariam. Além disso, a simplicidade da história não é o que se esperaria, dada a Hipótese da Conspiração: cadê as provas baseadas em textos bíblicos, os indícios de profecia cumprida? Por que Jesus não é descrito como se estivesse saindo do sepulcro, como em criações posteriores — por exemplo, o Evangelho de Pedro? Tampouco se dá uma boa explicação sobre a disputa com judeus incrédulos. Por que os guardas de Mateus já não estavam presentes na história de Marcos? Mesmo na história de Mateus, os guardas aparecem muito depois: o corpo podia ter sido roubado antes da chegada dos guardas no sábado de manhã, de modo que estariam guardando, sem o saberem, um sepulcro vazio! Para um álibi garantido contra o roubo do corpo, ver, mais uma vez, o Evangelho de Pedro, onde os guardas são postos imediatamente após o enterro do cadáver.
Quanto às histórias da aparição, surgem problemas parecidos. Um falsificador provavelmente descreveria as aparições da ressurreição de Jesus a partir de visões de Deus e descrições da ressurreição no fim dos tempos (como em Daniel 12.2), conforme o Antigo Testamento. Mas aí Jesus deveria aparecer aos discípulos em glória resplandecente. E por que não uma descrição da ressurreição em si? Por que nenhuma aparição ao sumo sacerdote Caifás ou aos vilões no Sinédrio, como predissera Jesus? Eles poderiam, então, ser taxados de mentirosos de verdade por negarem que Jesus lhes aparecera!
A força explanatória da Hipótese da Conspiração fica, sem dúvida, mais fraca ainda quando se trata da origem da crença dos discípulos na ressurreição de Jesus. Pois a hipótese é realmente uma negação desse fato; ela busca explicar a mera aparência da crença por parte dos discípulos. Porém, como reconhecem os críticos universalmente, não se pode negar plausivelmente que os primeiros discípulos, ao menos, criam sinceramente que Jesus ressuscitara dentre os mortos. Eles apostaram as próprias vidas por esta convicção. A transformação nas vidas dos discípulos não se explica de forma crível com a hipótese de uma conspiração. Esta deficiência, por si só, é o suficiente, nas mentes dos estudiosos, para afundar para sempre a velha Hipótese da Conspiração.
3. Plausibilidade. O verdadeiro calcanhar de Aquiles da Hipótese da Conspiração é, no entanto, a sua implausibilidade. Pode-se mencionar aqui objeções à incrível complexidade de tal conspiração ou o suposto estado psicológico dos discípulos; porém, o problema dominante que encolhe todos os demais é que é totalmente anacrônico supor que judeus do primeiro século pretenderam pregar uma peça com a ressurreição de Jesus. A Hipótese da Conspiração vê a situação dos discípulos pelo vidro retrovisor da história cristã, e não com os olhos de um judeu do primeiro século.
Em primeiro lugar, não havia, no judaísmo, a expectativa de um Messias que, em vez de estabelecer o trono de Davi e subjugar os inimigos de Israel, seria vergonhosamente executado pelos gentios como criminoso. Além disso, a ideia judaica de ressurreição não estava ligada à ideia de Messias, sendo até incompatível com ela, uma vez que o Messias não deveria ser morto. Conforme bem o expressou N. T. Wright, se você é um judeu do primeiro século e o seu Messias preferido conseguiu ser crucificado, você tem basicamente duas escolhas: ir para casa ou arranjar um novo Messias.
Em segundo lugar, a concepção judaica de ressurreição dos mortos diferia em pelo menos dois aspectos fundamentais da ressurreição de Jesus.
Primeiro, no pensamento judaico, a ressurreição para a glória e a imortalidade sempre ocorriam após o fim do mundo. Os judeus não possuíam a ideia de uma ressurreição dentro da história. É por isso que, penso eu, os discípulos tiveram tanta dificuldade de entender as predições de Jesus acerca da sua própria ressurreição. Pensavam que ele estava falando da ressurreição no fim do mundo. Veja Marcos 9.9-11, por exemplo.
Enquanto desciam do monte, Jesus ordenou-lhes que a ninguém contassem o que tinham visto, até que o Filho do homem ressuscitasse dentre os mortos. E eles guardaram o caso em segredo, conversando sobre o que seria o ressuscitar dentre os mortos. Então perguntaram-lhe: “Por que os escribas dizem ser necessário que Elias venha primeiro?”
Aqui, Jesus prevê a sua ressurreição, e o que perguntam os discípulos? “Por que os escribas dizem ser necessário que Elias venha primeiro?” No judaísmo do primeiro século, cria-se que o profeta Elias viria de novo antes do grande e terrível Dia do Senhor, o dia do juízo quando os mortos ressuscitariam. Os discípulos não conseguiam entender a ideia de uma ressurreição que ocorresse dentro da história, antes do fim do mundo. Por isso, as predições de Jesus só os confundiam.
Assim, dada a concepção judaica da ressurreição, os discípulos, após a crucificação de Jesus, não teriam criado a estranha ideia de que ele já ressuscitara. Com toda probabilidade, eles estariam aguardando a ressurreição no último dia e, seguindo o costume judaico, talvez preservassem o seu sepulcro como santuário onde os seus ossos pudessem repousar até a ressureição.
Segundo, no pensamento judaico, a ressurreição era sempre a ressureição de todos os mortos justos. Os judeus não tinham a noção da ressurreição de um indivíduo isolado, sem a ressurreição geral. Além disso, simplesmente não havia nenhuma relação entre a ressurreição do fiel individualmente e a ressurreição anterior do Messias. É por isso que não encontramos nenhum exemplo de movimentos messiânicos fracassados reivindicando que o seu líder executado ressuscitara dentre os mortos. Wright tem sido insistente neste ponto: “Todos os seguidores desses movimentos messiânicos do primeiro século estavam fanaticamente comprometidos com a causa... porém, em nenhum caso, exatamente no século antes de Jesus e no século depois dele, ouvimos falar de algum grupo judaico a afirmar que o seu líder executado ressuscitara dentre os mortos e que ele era, enfim, o Messias”.[2]
Os judeus do primeiro século não tinham a noção da ressurreição de um indivíduo isolado, especialmente do Messias, anteriormente à ressurreição geral no fim do mundo. Assim, a ideia de roubar o cadáver de Jesus e dizer que Jesus o ressuscitara dentre os mortos é dificilmente uma ideia que adentraria as mentes daqueles discípulos judeus de Jesus, nem lhes pareceria uma estratégia plausível para evangelizar os outros judeus!
Mas o que dizer de influências de fora do judaísmo? Uma sugestão espalhada na internet hoje em dia é que os primeiros cristãos criaram a ideia da ressurreição de Jesus pela influência da mitologia pagão. A sugestão é antiga. Por volta da virada do século XIX para o XX, estudiosos de religião comparada coletaram paralelos às crenças cristãs em outros movimentos religiosos, e alguns até tentaram explicar as crenças cristãs, incluindo a crença na ressurreição de Jesus, como resultado da influência de tais mitos. O movimento logo entrou em colapso, entretanto, principalmente por causa de dois fatores:
Primeiro, os estudiosos vieram a perceber que os paralelos são falsos. O mundo antigo era praticamente um cesto de frutas cheio de mitos sobre diversos deuses e heróis. Estudos comparados em religião exigem sensibilidade para as semelhanças e diferenças; do contrário, distorção e confusão inevitavelmente ocorrerão. Infelizmente, quem estava empenhado em encontrar paralelos à ressurreição de Jesus não foi capaz de exercer tal sensibilidade.
Muitos dos supostos paralelos são, na verdade, histórias da ascensão do herói ao céu (Hércules, Rômulo). Outros são histórias de desaparecimento, que afirmam ter o herói sumido para uma esfera superior (Apolônio de Tiana, Empédocles). Outros ainda são símbolos sazonais para o ciclo de colheita, à medida que a vegetação morre na estação seca e volta à vida na estação chuvosa (Tamuz, Osíris, Adônis). Alguns são expressões políticas do culto ao imperador (Júlio César, César Augusto).
Nenhuma destas ideias é paralela à ideia judaica da ressurreição dentre os mortos. De fato, a maior parte dos estudiosos passou a duvidar se há sequer um mito, propriamente dito, de deuses que morrem e ressuscitam. Por exemplo, no mito de Osíris, um dos mitos sazonais simbólicos mais conhecidos, Osíris, na verdade, não volta à vida, mas simplesmente continua a existir no mundo dos mortos.
Os estudiosos vieram a perceber que a mitologia pagã é, pura e simplesmente, o contexto interpretativo errado para entender Jesus de Nazaré. Jesus e seus discípulos eram judeus israelitas do primeiro século, e é neste contexto que devem ser entendidos. O colapso dos supostos paralelos é apenas uma indicação de que a mitologia pagã é o contexto interpretativo errado para entender a crença dos discípulos na ressurreição de Jesus.
Segundo, não há, de todo modo, nenhum nexo causal entre os mitos pagãos e a origem da crença dos discípulos na ressurreição de Jesus. Os judeus estavam familiarizados com as divindades pagãs sazonais (Ezequiel 8.14-15) e as achavam abomináveis. É por isso que não há nenhum rastro de cultos de deuses que morrem e ressuscitam no Israel do primeiro século. É muito improvável que os discípulos originais tivessem criado a ideia de que Jesus de Nazaré ressuscitou dos mortos por terem ouvido mitos pagãos sobre divindades sazonais que morrem e ressuscitam. Assim, os estudiosos universalmente abandonaram esta abordagem. Os céticos da internet estão mais de 100 anos desatualizados.
Note que a crítica solapa não só teorias da conspiração, que supõem que os discípulos proclamaram sem sinceridade a ressurreição de Jesus, mas também qualquer teoria que sugira que, com base em influências pagãs ou judaicas, eles sinceramente vieram a crer e pregar a ressurreição.
4. Menos forçada. Como todas as teorias da conspiração da história, a Hipótese da Conspiração é forçada ao supor que o que todas as provas indicam é, na verdade, pura ilusão somente, a ser contornada com hipóteses para as quais não há provas. Especificamente, postula motivos e ideias nas mentes dos primeiros discípulos e ações da parte deles para as quais não há um pingo de provas. Pode ficar até mais forçada, na medida em que hipóteses precisam ser multiplicadas a fim de lidar com objeções à teoria — por exemplo, como explicar a aparição aos 500 irmãos ou o papel das mulheres nas histórias do sepulcro vazio e das aparições.
5. Negada por menos crenças aceitas. A Hipótese da Conspiração tende a ser negada por nosso conhecimento geral de conspirações, a sua instabilidade e a sua tendência a se desmantelarem. Ademais, é negada por crenças aceitas, como a sinceridade dos discípulos, a natureza das expectativas messiânicas judaicas do primeiro século e assim por diante.
6. Excede outras hipóteses ao satisfazer às condições (1)—(5). Esta condição, obviamente, não é satisfeita, uma vez que há hipóteses melhores (como a Hipótese da Alucinação), que não desconsideram a crença dos discípulos na ressurreição de Jesus como se fosse mentira descarada.
Nenhum estudioso defenderia a Hipótese da Conspiração hoje em dia. O único lugar onde se leem coisas assim é na imprensa popular e sensacionalista ou na internet.
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Agora, considere a sua reação à luz desta crítica, Purusha. A sua reação se baseia na famosa inscrição de Nazaré, que declara a profanação de túmulos crime capital. (Para um artigo bem interessante sobre a inscrição, ver https://en.wikipedia.org/wiki/Nazareth_Inscription.) Como você verá com a leitura dessa inscrição, ela não prescreve, como você alegou, a crucificação como pena por profanar um túmulo. Ela simplesmente declara o ato como crime capital.
Como, então, a sua reação se aplica à minha crítica da teoria da conspiração? Você talvez afirme que a sua resposta solape minha crítica da força explanatória da hipótese da conspiração em relação à origem da crença dos discípulos na ressurreição de Jesus, pois os discípulos, já tendo roubado o corpo de Jesus, teriam bom motivo para mentir a este respeito, a fim de não serem executados. Esta é, porém, uma compreensão errônea da crítica. O meu argumento é que “não se pode negar plausivelmente que os primeiros discípulos, ao menos, criam sinceramente que Jesus ressuscitara dentre os mortos”. Ninguém que leia as páginas do Novo Testamento sem preconceitos poderá negar que essas pessoas realmente criam na verdade do que proclamavam. A pergunta não é: será que eles teriam mentido, caso tivessem roubado o corpo? A pergunta é: será que estavam mesmo mentindo? Será que criam sinceramente no que proclamavam? Estudiosos de todas as linhas reconhecem a evidente sinceridade dos primeiros apóstolos quando foram transformados em ousados proclamadores da ressurreição de Jesus.
Você só está fazendo a pergunta errada, Purusha. Sendo M = “os discípulos eram mentirosos” e LC = “os discípulos eram ladrões de corpo”, você está perguntando a respeito da probabilidade condicional Pr (M | LC), em vez da probabilidade Pr (M). A primeira poderia ser alta, embora a segunda seja baixa. Para ilustrar: a probabilidade de que eu use três sapatos, dado que tenho três pernas e pés pode ser bastante alta, mas a probabilidade de que eu tenha três pernas e pés é absurdamente baixa! Você está se enganando porque a sua avaliação da probabilidade de M é condicionada a LC.
Além disso, parte da razão por que você considera a ridícula teoria da conspiração como “muito mais provável do que uma ressurreição real” é porque você entendeu “a ressurreição [de Jesus] como prova irrefutável de que Deus, de fato, existe na realidade”. Em contraste com os defensores clássicos da ressurreição de Jesus, que primeiro estabeleceram a existência de Deus mediante os argumentos da teologia natural, você estava dependendo completamente da ressurreição em si para dar o pleno peso probatório ao teísmo. Se você tivesse seguido o procedimento clássico, o seu teísmo já estaria no lugar quando você viesse até as provas para a ressurreição, de modo que uma explicação milagrosa seria muito mais provável do que na negação do teísmo, além de mais provável do que fantasiosas explicações naturalistas, como a teoria da conspiração.
Portanto, em resposta à sua pergunta (equivocada): será que não acho que “o fato de violação de túmulos ser crime capital ... constitui ampla motivação para os discípulos criarem a mentira de que Jesus ressuscitara dentre os mortos (caso eles tenham mesmo violado o túmulo)?”, não mesmo! Por que arriscar a própria vida proclamando uma mensagem pela qual poderia ser perseguido e morto? É melhor se retirar para a Galileia e ficar calado! Ou culpar outra pessoa pelo roubo do corpo — os discípulos de João Batista, por exemplo! Ou por que não proclamar, alinhada com as crenças judaicas, a assunção de Jesus ao céu, que não teria ofendido ninguém, quer judeu, quer gentio? O argumento maior, no entanto, é o seguinte: por que roubar o corpo, para começo de conversa, quando já se sabia que tal ato era crime capital! Dã!
Assim, a questão importante aqui é que você está fazendo a pergunta errada. A pergunta certa é se os discípulos eram sinceros em sua crença na ressurreição e na proclamação desta. Sem dúvida, eram.
[1] C. Behan McCullagh, Justifying Historical Descriptions (Cambridge: Cambridge University Press, 1984), p. 19.
[2] N. T. Wright, palestra na Faculdade e Seminário Asbury, 1999.
- William Lane Craig