#677 O conhecimento proposicional e não-proposicional de Deus
July 17, 2020Olá.
Somos três alunos na escola UWC Red Cross Nordic, um colégio internacional na costa oeste da Noruega. Estamos, no momento, frequentando a aula de filosofia onde discutimos conhecimento médio e a onisciência divina, no tema geral de filosofia da religião. Dentro deste assunto, assistimos a uma entrevista sua em Closer to Truth. Achamos suas ideias sobre o assunto muito interessantes, mas ficamos um pouco confusos com algumas coisas. Na entrevista que vimos, o senhor explica a diferença entre conhecimento proposicional e não-proposicional. O senhor crê que Deus possui os dois tipos de conhecimento; se sim, o senhor concorda que isto levaria a algumas complicações em relação à perfeição de Deus? Isto porque, se Deus for perfeito e tiver conhecimento proposicional (por exemplo, conhecimento de qual é a sensação de viver em pobreza), ele não faria algo a este respeito?
De Doreen, Casper e Astrid
Noruega
Norway
Dr. Craig responde
A
É tão incrível pensar que três estudantes na Noruega estejam interagindo com meus materiais sobre onisciência divina. Que Deus os abençoe e os use para o Seu Reino!
A sua pergunta me faz pensar que estejam confusos quanto à diferença entre conhecimento proposicional e não-proposicional. Conhecimento proposicional é conhecimento de que _______________, em que a lacuna é preenchida com alguma proposição como A Noruega é um país escandinavo. Pode-se pensar nele como conhecimento factual. Em contraste, o conhecimento não-proposicional não é conhecimento de que _______________, mas inclui outros tipos de conhecimento, por exemplo, conhecimento de como _______________, em que a lacuna não é preenchida por uma proposição, mas por alguma outra frase, como “andar de bicicleta” ou “limão tem gosto”.
Assim, “conhecimento de qual é a sensação de viver em pobreza” não é conhecimento proposicional. Trata-se de conhecimento não-proposicional. Alguém com tal conhecimento poderia dizer: “Conheço qual é a sensação de viver em pobreza”. Conhecimento proposicional seria, por exemplo, conhecimento de que viver em pobreza traz a sensação de desespero ou viver em pobreza causa desnutrição. Pode-se conhecer estes fatos sem conhecer qual seja a sensação de viver em pobreza.
Isto se torna importante em relação à onisciência divina, pois a onisciência é definida tradicionalmente a partir do conhecimento proposicional:
Uma pessoa S é onisciente se, para toda proposição p, S conhece que p e não crê em não-p.
Enquanto ser onisciente, Deus, portanto, tem conhecimento proposicional completo. Isto é compatível com a sua carência de conhecimento não-proposicional.
Talvez, porém, a excelência cognitiva de Deus exceda até mesmo a onisciência! Talvez ele também tenha conhecimento não-proposicional. Isto se torna importante com relação a declarações feitas da perspectiva da primeira pessoa, como “Eu sou Napoleão”. Se tal declaração expressa a proposição Eu sou Napoleão, há pura e simplesmente proposições privadas, o que impossibilitaria a comunicação. Se Napoleão diz: “Diga à Josefina que estou chegando”, não posso comunicar a ela o que Napoleão disse. Posso dizer a ela: “Napoleão está vindo”, mas isto não é o fato que Napoleão me disse para comunicar. Se eu disser a ela: “Estou vindo”, isto não expressa a proposição que Napoleão me pediu para comunicar. Assim, a maioria dos filósofos pensa que declarações feitas dessas perspectivas de primeira pessoa (com palavras dêicticas pessoais, como “eu”, “você”, “ela” etc.) expressam proposições não-perspectivais. Assim, quando Napoleão diz: “Eu sou Napoleão”, e eu lhe digo: “Você é Napoleão”, expressamos a mesma proposição neutra a partir de diferentes perspectivas. Ora, obviamente, o conhecimento de primeira pessoa de Napoleão envolve mais do que o fato neutro de que Napoleão é Napoleão. Por isso, deve ser um tipo de conhecimento não-proposicional que apenas Napoleão tem. Pois bem, Deus também deve ter conhecimento de primeira pessoa, que ele pode expressar em declarações como “Eu sou o Deus dos teus antepassados”. Assim, Deus deve ter tanto conhecimento não-proposicional quanto proposicional, mas ele não tem todo conhecimento não-proposicional, pois isto seria um defeito cognitivo, e não uma perfeição cognitiva. Se Deus pensasse ser Napoleão, ele seria louco. Por isso, Deus deve ter apenas conhecimento não-proposicional que seja coerente com a perfeição cognitiva.
Pois então, será que Deus sabe qual é a sensação de viver em pobreza? Será que ele tem este conhecimento não-proposicional? Isto é debatível, mas não vejo por que não. Deve haver um estado mental associado aos que vivem em pobreza. Por que é que Deus não poderia se colocar nesse estado mental, de modo a experimentá-lo por si mesmo?
Não penso que isto aumente a força do problema do mal e do sofrimento de forma alguma, como vocês receiam. Conhecimento proposicional, como Milhões estão sofrendo na pobreza, basta em si mesmo para levá-los a perguntar: por que “ele não faria algo a este respeito?”. Se há uma boa resposta para esta pergunta, como eu penso, essa mesma resposta servirá também caso Deus não tenha conhecimento não-proposicional. De fato, para quem vive na pobreza, deve ser verdadeiro consolo saber que Deus conhece como eles se sentem e que ele tem um plano na história humana para resolver isso tudo.
- William Lane Craig