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#69 Dificuldades sobre a Ressurreição de Jesus

October 28, 2014
Q

Prezado Dr. Craig,

Acabei de terminar seu profundo livro The Son Rises: The Historical Evidence for the Resurrection of Jesus (O Filho Levanta-se: A Evidência Histórica para a Ressurreição de Jesus) com o sincero objetivo de resolver minhas dúvidas sobre a ressurreição de Jesus, que você corretamente insiste ser a doutrina central do Cristianismo, sem a qual o Cristianismo se desfaz. Apesar de ter sido criado como Cristão, há muito tempo deixei a igreja por causa de dúvidas a respeito da confiabilidade histórica da Bíblia. Não sou membro de nenhuma religião. Ainda assim, tento manter minha mente aberta e ocasionalmente visito novamente a doutrina Cristã com a esperança de encontrar alguma forma de reconciliar minhas dúvidas.

Infelizmente, achei que seu livro falhou em responder minhas dúvidas chave a respeito dos testemunhos da ressurreição de Jesus encontrados nos quatro evangelhos.

Estou escrevendo para lhe perguntar se você faria a gentileza de responder as perguntas listadas a seguir que eu tenho sobre a ressurreição de Jesus e oferecer qualquer esclarecimento que você acha que possa ajudar a resolver essas dificuldades.

Dificuldade: #1: Mateus 27:51-3 descreve a ressurreição de muitas pessoas devotas a Deus que saíram do cemitério na sexta-feira da morte de Jesus e retornaram a Jerusalém onde foram vistos por muitas pessoas. Se verdadeiro, este evento teria chocado toda a população de Jerusalém e seria inquestionavelmente documentado por numerosas fontes - evangelho assim como não evangelhos - e em termos de impacto teria ofuscado até mesmo a ressurreição de Jesus. Porém, em nenhum lugar além de Mateus alguém confirma esse milagre relacionado à ressurreição. Porque a falta de confirmação, senão pelo motivo de que essa história é lendária em vez de factual? E se for lendária, isso não traz questionamentos sobre o restante da história da ressurreição?

Dificuldade #2: Você repetidamente insiste em seu livro que a ressurreição de Jesus não poderia ter sido mera lenda, porque lendas não conseguem se enraizar em uma cultura em uma única geração, particularmente quando testemunhas oculares “autoridades” estão disponíveis para denunciar essas lendas. Entretanto, consigo pensar em muitas lendas modernas que foram inventadas e floresceram em apenas uma geração. Exemplo: as teorias de conspiração popularmente defendidas sobre o assassinato de John F. Kennedy surgiram em apenas uma geração, a despeito de centenas de testemunhas oculares do evento, até mesmo um vídeo do assassinato e a existência de autoridades (a comissão de Warren, a mídia especializada em notícias, a polícia) tentando ao máximo preservar o relato oficial e crível que Lee Harvey Oswald atuou sozinho. Outras lendas recentes, estranhas, mas teimosamente persistentes incluem: a crença disseminada em muitos países muçulmanos de que Israel estava por trás dos ataques de 11 de Setembro e que nenhum judeu estava presente no World Trade Center no dia do ataque; a crença de que (mais recentemente mencionado nas notícias pelo Rev. Jeremiah Wright, o ex-pastor de Barak Obama) o governo pode ter criado o vírus da AIDS para atacar os negros; histórias populares de visões e encontros com objetos voadores não identificados em Roswell, Novo México, e outros; a apócrifa pilha de armas de destruição em massa no Iraque governado por Saddam Hussein - uma “lenda” que custou uma guerra. Por último, as crenças sobrenaturais da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e outras religiões que surgiram e se espalharam rapidamente demonstram que lendas podem prevalecer entre comunidades grandes de crentes em uma única geração.

Dificuldade #3: Você diz na página 119: “A aparição na Galiléia mencionada em Marcos é histórica. Já que essa aparição provavelmente fez parte do material fonte de Marcos, é muito antiga e, portanto, não há dúvida de que é uma amostra de informação confiável”. Como qualquer jornalista atestaria, a qualidade da informação depende da qualidade da fonte, e fontes primárias – oriundas de fontes diretamente relacionadas ao evento - são geralmente consideradas mais críveis do que fontes secundárias ou terciárias. Já que não sabemos a identidade da pessoa que proveu a Marcos essa “antiga” fonte, não temos como julgar sua confiabilidade. O fato de ser uma fonte secundária em vez de primária a torna menos confiável, não mais. Da mesma forma, se Mateus, Lucas e João foram escritos por testemunhas oculares que eram os próprios discípulos de Jesus, porque eles teriam confiado tão fortemente em outra fonte secundária para obter informações - isto é, Q e Marcos. Como o mais antigo dos evangelhos, Marcos está mais perto em tempo dos próprios eventos do que os outros evangelhos. Porém, nas cópias mais antigas e mais confiáveis disponíveis, o livro de Marcos termina antes de qualquer encontro com o Jesus ressurreto ser descrito. O que também é preocupante é que a história da ressurreição torna-se mais e mais elaborada nos evangelhos posteriores. Em Lucas, o Jesus ressurreto está comendo peixe. Em João, ele está dizendo aos seus discípulos onde pescar e servindo a eles café-da-manhã. Isso me parece enfeite lendário.

Dificuldade #4: Marcos 16:18 provê um meio para futuros crentes confirmarem a credibilidade da ressurreição de Jesus e a credibilidade daqueles que crêem nela: eles poderão lidar com cobras de forma segura, beber veneno, e curar os doentes. Quando levado de forma literal, lidar com cobras e beber veneno são tão inconfiáveis como sinais preditivos da credibilidade do evangelho que ninguém os pratica mais além de algumas igrejas fanáticas no Appalachia. Além do mais, o maior estudo até agora que examinou a eficácia da oração em curar os doentes falhou em demonstrar qualquer benefício claro. O cirurgião missionário Paul Brand escreveu na revista Cristianity Today que nas muitas décadas de prática médica entre leprosos ele nunca testemunhou uma cura que poderia qualificar-se como um milagre em si. Se os sinais de confirmação devem ser vistos apenas de forma metafórica, isso traz à tona uma pergunta óbvia, o que mais na história da ressurreição deve ser tomado metaforicamente - a própria ressurreição talvez?

Dificuldade #5: Os quatro evangelhos entram em conflito sobre as testemunhas presentes na tumba vazia. Isso é um grande desafio para a credibilidade dos evangelhos, porque a descoberta da tumba vazia teria sido tão chocante que deveria ter se fixado nas memórias daqueles presentes, de tal forma que ninguém poderia ter esquecido quem estava presente e quem não estava. Se a história é lendária, porém, é compreensível que diferentes narrativas listariam diferentes testemunhas.

Dificuldade #6: Nos evangelhos, as testemunhas oculares discordam quanto ao número de anjos presentes na tumba vazia - um detalhe inesquecível que não deveria ter produzido narrativas conflitantes entre as testemunhas oculares se fosse fato em vez de lenda.

Dificuldade #7: Mateus 27:62 deixa claro que a tumba de Jesus estava sem guardas durante a primeira noite do enterro de Jesus - levantando a possibilidade de que ladrões de tumbas desconhecidos poderiam ter roubado o corpo.

Escrúpulo #8: Os evangelhos diferem quanto à localidade da aparição de Jesus aos discípulos, assim como o número de discípulos presentes. Mateus 28:16 diz que Jesus apareceu aos 11 discípulos numa montanha a caminho da Galiléia. Lucas 24:33-6 diz que Jesus apareceu aos 11 discípulos em Jerusalém. E João 20:24 afirma que Jesus não apareceu inicialmente aos 11 discípulos, porque Tomé não estava presente. Essas discrepâncias levantam severos problemas de credibilidade.

Dificuldade #9: Você afirma da página 132 que “...alucinações, como projeções da mente, não podem conter qualquer coisa nova.” Com base no que você faz esta afirmação? Consigo pensar em muitos exemplos contrários no mundo real, notavelmente: muitas pessoas têm, rotineiramente, sonhos surreais que divergem dramaticamente de seus pensamentos normais e vidas normais. E novamente cito visões e outras experiências sobrenaturais dos fundadores da Igreja dos Santos dos Últimos Dias e outras religiões como evidência que indivíduos podem experimentar visões/alucinações que não se assemelham em nada com a compreensão normal de mundo deles.

Tendo cuidadosamente lido o seu livro e comparado com o conteúdo dos evangelhos, preciso concluir que a evidência histórica para a ressurreição de Jesus está um pouco longe de ser convincente. Na verdade, acho a totalidade do registro histórico escasso e contraditório demais para chegar a qualquer conclusão a favor ou contra a ressurreição. O argumento mais forte que pode ser apresentado em favor da ressurreição de Jesus é o comportamento de seus discípulos após a crucifixão, que suportaram grandes dificuldades para espalhar o evangelho. Mas o mesmo ardor pode ser encontrado na primeira geração dos seguidores do fundador dos Mórmons, Joseph Smith, e tenho certeza que nenhum de nós contaria o encontro de Smith com Moroni ou os tabletes de ouro do anjo (cuja existência foi atestada pelos seguidores imediatos de Smith, que assinaram depoimentos jurando que eles haviam visto os tabletes em primeira mão) como qualquer coisa que não fosse ficção ou lenda.

Novamente, obrigado pelo seu tempo e paciência em ler esta carta. Eu apreciaria muito se você puder me ajudar com essas perguntas.

Sinceramente,

D.

United States

Dr. Craig responde


A

Bem, D., tem muito que precisa ser dito aqui! Acho que o ponto mais importante que precisa ser reforçado, porém, é que você e eu estamos indo até a evidência com projetos inteiramente diferentes em mente. Como muitos criados em igrejas cristãs conservadoras, sua preocupação é com a confiabilidade do texto bíblico. Por isso, sua colocação, “há muito tempo deixei a igreja por causa de dúvidas a respeito da confiabilidade histórica da Bíblia”.

Quando li isso, eu pensei: “Que coisa mais estranha a se fazer!” Por que não simplesmente ajustar a sua teologia para que a Bíblia passasse a ser vista como testemunhos humanos falíveis da auto-revelação de Deus na história ou, menos radicalmente, para que a inspiração divina das Escrituras não implicasse na inerrância bíblica? Por que essa atitude “tudo ou nada”? Por que essas dificuldades relativamente pequenas como as que você cita sobre a confiabilidade dos evangelhos colocam em questionamento a deidade e ressurreição de Jesus ou a existência de Deus?

Não posso deixar de suspeitar que a razão é que você tinha um sistema deficiente de crenças teológicas. Podemos pensar em nossa teologia como uma teia, com certas crenças no centro da teia e outras mais longe, perto da periferia. Muitos Cristãos conservadores tem a doutrina da inerrância bíblica no centro ou perto do centro da teia de crenças, de forma que se essa crença é comprometida toda a estrutura da teia desmorona e eles perdem sua fé cristã.

Isso está errado. No centro de nossa teia de crenças deveriam estar certas doutrinas essenciais como a existência de Deus e a deidade de Cristo e, depois, um pouco além, a doutrina da, digamos, expiação, e ainda mais um pouco além, doutrinas como os sacramentos e a inspiração bíblica e seu possível corolário: a inerrância bíblica. Se uma das doutrinas centrais é abandonada, então, toda a teia, de fato, desmorona. Mas se uma crença perto da circunferência é descartada, embora isso cause reajustes em outras partes da teia, não comprometerá a estrutura do todo. Se suas dificuldades permanecerem sem respostas, então você estaria justificado, no máximo, em desistir da doutrina de inerrância bíblica, mas você não deveria abandonar a Cristo.

De fato, D., você não precisa abandonar nem mesmo uma apologia robusta em favor da historicidade da ressurreição! Meu Doktorvater em Munique, Wolfhart Pannenberg, tem defendido que as narrativas dos evangelhos a respeito da ressurreição de Jesus são tão lendárias que elas mal têm um núcleo histórico nelas; porém ele chocou a teologia alemã ao argumentar em defesa da historicidade das aparições pós-morte de Jesus e de sua tumba vazia e, portanto, em defesa de sua ressurreição, utilizando apenas bases históricas.

Na verdade, minha própria defesa da ressurreição de Jesus não seria nem um pouco afetada pela maioria das dificuldades que você expressou. Eu apresento um argumento de dois passos para a ressurreição de Jesus: primeiro, que existem três fatos que qualquer historiador responsável que quer oferecer uma descrição sobre Jesus deve explicar, e segundo, que a hipótese da ressurreição é a melhor explicação para estes fatos. Os três fatos são colocados de forma bem modesta:

1. Na manhã de Domingo, após sua crucifixão, a tumba de Jesus foi encontrada vazia por um grupo de mulheres que eram suas seguidoras.

2. Vários indivíduos e grupos de pessoas experimentaram aparições de Jesus vivo após sua morte.

3. Os discípulos originais repentinamente e sinceramente vieram a acreditar que Deus havia levantado Jesus dos mortos apesar de terem quase todas as predisposições contrárias.

A força do meu caso – da qual eu somente me dei conta depois - é que esses três fatos representam a posição mais conceituada entre os estudiosos do Novo Testamento hoje. Esses fatos não são reconhecidos exclusivamente por acadêmicos evangélicos, mas representam a visão tida como verdadeira pela grande maioria de críticos do Novo Testamento que escrevem sobre o assunto.

Agora isso deve ser tremendamente encorajador para você! Dúvidas a respeito da historicidade de Mat. 27.51-53 ou o número de anjos na tumba ou os nomes das mulheres na tumba se tornam, se não irrelevantes, pelo menos não importantes com respeito à defesa da ressurreição de Jesus. Você pode e deveria ser um Cristão vibrante a despeito das suas dificuldades.

Assim, o ponto é que eu não estou engajado no mesmo projeto que interessa a você: eu não estou tentando demonstrar a confiabilidade dos relatos dos evangelhos. Em vez disso, estou pesando a evidência histórica relacionada à ressurreição de Jesus. Eu não afirmo poder estabelecer a confiabilidade geral das narrativas dos evangelhos, mas afirmo estabelecer os três fatos específicos listados acima e mostrar que a melhor explicação para aqueles fatos é a hipótese “Deus ressuscitou Jesus dos mortos”. O sucesso desse objetivo limitado não justificaria a crença na confiabilidade geral dos evangelhos e nem requer isso.

Agora, vamos abordar algumas de suas dificuldades específicas. Elas formam um mix interessante: as dificuldades # 1, 3, 5, 6, e 8 tem a ver com os fatos (o primeiro passo da minha defesa), enquanto as dificuldades #2, 4, 7, e 9 tem a ver com qual é a melhor explicação para os fatos (o segundo passo da minha defesa). Então, vamos olhá-los na ordem dos meus dois passos.

Primeiro, os fatos.

A dificuldade #1 não desafia, nem mesmo prima facie, qualquer um dos meus três fatos. Não desafia nem mesmo a confiabilidade dos outros evangelhos. Pense sobre isso, D. Vamos dizer que Mateus acrescentou à narrativa da crucifixão de Marcos uma história não histórica da ressurreição dos santos do Antigo Testamento. Como isso mostra que a narrativa de Marcos não é confiável? Mais ainda, como isso mostra que as narrativas de Lucas ou João não são confiáveis? O máximo que se poderia fazer com isso é questionar a confiabilidade de Mateus.

Mas será que mesmo isso poderia ser feito? Talvez Mateus não quisesse que isso fosse entendido literalmente? Talvez seja apenas parte da típica iconografia apocalíptica dos escritos apocalípticos judaicos, uma forma de mostrar quão grande foi o impacto da morte de Jesus? Então nosso problema é que estamos pegando imagens literárias de forma inapropriada e literal e, dessa forma, o problema não é com Mateus, mas conosco.

Essa conclusão não questiona a confiabilidade de todo o restante da narrativa de ressurreição de Mateus? De forma alguma! Pois Mateus adiciona essa história, não à narrativa da ressurreição de Jesus, mas à narrativa de sua crucifixão, que é um dos pontos mais firmemente estabelecidos sobre o Jesus histórico.

Mas suponha que Mateus queria mesmo que esse incidente fosse entendido literalmente. Como sabemos que não aconteceu? Como sabemos que certas pessoas em Jerusalém não defenderam ter visto santos do Antigo Testamento perto da época da morte de Jesus? Você diz que isso teria sido “inquestionavelmente documentado por numerosas fontes”. Verdade? Quais fontes? Fora Josephus, que fontes temos desta época? E por que pensar que Josephus se incomodaria em mencionar este evento? Ele nem mesmo menciona as aparições da ressurreição de Jesus, que, nós sabemos com certeza, pessoas em Jerusalém afirmavam ter experimentado. Sabemos pelos próprios evangelhos quão seletivos eles eram para escolher as histórias que iriam narrar. Então, qualquer argumento baseado no silencio, como esse que você apresenta, é muito questionável.

A dificuldade #3 tenta, perversamente, tornar uma característica positiva a respeito da narrativa de Marcos em uma característica negativa. Quando historiadores do Novo Testamento conseguem determinar que algum escritor dos evangelhos está trabalhando com uma tradição mais antiga, isso melhora em vez de piorar sua credibilidade histórica porque a janela de tempo para elaborações lendárias é fechada de forma ainda mais forte. Assim, se a história da tumba vazia é parte da história da paixão pré-Marquiana, isso é um enorme bônus para sua credibilidade histórica, como todos os estudiosos de história reconhecem.

Já com relação aos outros evangelistas, Lucas não era uma testemunha ocular e até mesmo conversou com outros que tinham previamente escrito narrativas sobre a vida de Jesus. O evangelho de João não é dependente nem de Marcos nem de Q. Já o evangelho de Mateus, talvez ele não fosse um dos doze; ou talvez ele incorporou suas notas do ensino de Jesus (Q) na estrutura narrativa convenientemente fornecida por Marcos.

Sim, o evangelho de Marcos ou terminou em 16.8 ou o final original se perdeu. Se perdido, o final original pode muito bem ter relatado a história da aparição ressurreta na Galiléia como o de Mateus. Se v. 8 é o final original, Marcos prefigurou a aparição na Galiléia por meio da profecia do anjo. Novamente, nada na minha defesa depende dos detalhes das narrativas de aparição. Ironicamente, a natureza física das aparições da ressurreição é, como você mesmo nota, independentemente atestada por Lucas e João e, portanto, não podem ser descartadas como enfeites editoriais. Como eu defendo no livro O Filho Levanta-se, os evangelhos e Paulo concordam plenamente que o corpo ressurreto de Cristo é um corpo físico.

A dificuldade #5 negligencia o fato de que o nome de Maria Madalena está conectado com a descoberta do túmulo vazio em todos os quatro evangelhos e, portanto, essa conexão é múltipla e independentemente atestada. A evidência é consistente com ela estar acompanhada por um grupo de mulheres, sendo que diferentes mulheres são mencionadas em diferentes evangelhos. No mínimo, então, nós podemos dizer que Maria e outras estavam lá. Os evangelistas dando seletivamente alguns nomes ou até mesmo dando os nomes errados não implica que ninguém estava lá (veja minha ilustração no próximo ponto). Lembre-se também, que a descoberta da tumba por mulheres é um dos elementos mais persuasivos da narrativa, já que um relato lendário teria feito discípulos homens descobrirem a tumba. (O fato de que você ignora este ponto, defendido em O Filho Levanta-se, para dar evasivas a respeito dos nomes das mulheres me preocupa.)

A dificuldade #6 é, novamente, mera trivialidade que somente alguém preocupado com a inerrância bíblica se preocuparia. Tais discrepâncias são lugar comum em narrativas históricas. Por exemplo, meu amigo Mike Licona gosta de mencionar que entre os sobreviventes do Titanic, era disputado pelas testemunhas oculares se o navio quebrou em dois antes de afundar. Você imaginaria que isso seria algo tão dramático que nenhuma testemunha ocular erraria! Somente após o navio ser descoberto que a verdade apareceu (de fato, ele se quebrou em dois). Você pode imaginar duvidar do naufrágio do Titanic porque testemunhas oculares não concordaram nesse aspecto da história?

A dificuldade #8 não tem fundamento, como você deveria saber pelo que leu em O Filho Levanta-se. As aparições da ressurreição podem ser colocadas em seqüência sem problemas, de acordo com as peregrinações de festivais para a Páscoa e Pão sem fermento (Jerusalém), de volta para a Galiléia, e para o Pentecostes (Jerusalém).

Em suma, D., estudiosos do Jesus histórico estão a par de todos esses pontos e não tem sido convencidos por eles de que os três fatos sobre os quais eu baseio minha defesa não são históricos. Se eles não pensam dessa forma, por que você deveria pensar?

Segundo, a melhor explicação para os fatos.

A dificuldade #2 é baseada em uma confusão sobre o que são lendas e o que são mentiras. Lendas são desenvolvimentos de um período de transmissão oral de uma tradição até que os fatos originais tenham se perdido. Como Richard Bauckham aponta em seu recente livro Jesus e as Testemunhas Oculares, no caso dos evangelhos nós nem mesmo devemos falar de tradição oral, mas sim de história oral, porque as testemunhas oculares originais e fontes da tradição ainda estavam disponíveis para corrigir qualquer desvio da tradição! Mas mentiras, como todos os casos que você mencionou, podem aparecer imediatamente, sendo fabricações deliberadas. Só preciso acrescentar que nenhum acadêmico toma a crença dos discípulos na ressurreição de Jesus como fabricação deliberada. (Ver o livro Reasonable Faith para argumentos detalhados)

A dificuldade #4 é inconsistente com a dificuldade #3, que corretamente aponta que Marcos 16.18 é uma adição espúria tardia ao evangelho. (D., o mais que eu escrevo, mais duvidoso me torno de sua sinceridade, ou, pelo menos, objetividade. Como #4 realmente poderia ser uma dificuldade para você quando você mesmo reconhece que a passagem não é autêntica?)

A dificuldade #7 é irrelevante, já que eu nem mesmo assumo que havia um guarda na tumba. Meu caso procede como se a tumba estivesse sem guardas e argumenta contra a hipótese de roubo sobre outras bases (The Son Rises [O Filho Levanta-se], pp. 86-87).

A dificuldade #9 é facilmente respondida uma vez que entendemos que uma alucinação é uma projeção da própria mente de quem a experimenta. Portanto, não pode conter nada que já não esteja na mente. É claro que esses elementos podem ser misturados de forma bizarra. Mas o ponto importante aqui - e bastante poderoso - é que se os discípulos fossem alucinar visões de Jesus, eles teriam projetado visões de Jesus exaltado no céu, para onde os mortos justos iam. Depois disso, eles teriam proclamado triunfantemente a ascensão ou translação de Jesus para o céu, não sua ressurreição, que era diretamente contrária às crenças judaicas. Isso sem mencionar todas as outras objeções que levanto contra a hipótese da alucinação, que deveriam acabar com sua dificuldade sobre esse ponto em específico.

Seu ponto final também é falho: não é o ardor dos discípulos que mostra a veracidade do que eles acreditavam – afinal, muçulmanos são ardorosos também - mas é o fato de que eles vieram a acreditar em algo radicalmente contrário às suas crenças judaicas, a saber: que o Messias havia sido executado por seus inimigos e levantado dos mortos por Deus como um ato na história. Este fato incrível clama por uma explicação, juntamente com a tumba vazia e a multiplicidade de aparições de Jesus após sua morte. Que outra explicação melhor existe além daquela dada pelos discípulos?

- William Lane Craig