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#68 O Testemunho do Espírito Santo

October 28, 2014
Q

Pergunta #1:

Prezado Dr. Craig,

Sou membro de um fórum de discussão sobre apologética e um tópico foi postado a respeito de sua opinião sobre fatos e evidências.

Foi uma referência a uma entrevista da qual você participou:

http://video.google.com/videoplay?docid=-4538185102301600532... (ou veja "Dealing with Doubt" em Audio/Visuals nesse site - ed.)

O título do post dos céticos foi “WL Craig diz que evidências não são importantes se comparadas com a fé”.

Eu assisti a entrevista e, em nenhum momento, entendi que foi isso que você quis dizer. Minha compreensão é que você estava promovendo a ideia de que nem todas as perguntas a respeito da nossa fé podem ser respondidas e não deveríamos nos desanimar com cada objeção. Eu não entendi que você estava defendendo que nós devemos negar fortes evidências de que nossa fé era falsa em favor do testemunho do Espírito Santo.

Os céticos não tem aceitado minha interpretação da sua entrevista. Assim, eu disse que te perguntaria para deixar claro qual dos lados estava certo.

Dr. Craig, você acha que fortes evidências deveriam ser ignoradas se elas mostram que nossa fé é provavelmente falsa? (Eu acho que sei a resposta, mas deixarei que você esclareça essa questão).

Adam

Pergunta #2:

Esta é uma pergunta sobre epistemologia reformada. Estou quase terminando o livro de Plantinga “Warranted Christian Belief”, e acho que o modelo de Plantinga, ou algo semelhante a ele, é a epistemologia mais correta e fiel à bíblia.

Porém, uma pergunta ainda permanece: Para Plantinga, realmente não existe nenhuma circunstância, hipotética ou real, em que um crente seria irracional em manter a crença cristã? As evidências não poderiam se amontoar de tal forma que se tornaria irracional manter a crença em Deus, da mesma forma, por exemplo, que eu teria que deixar de acreditar em uma memória que tenho se evidências suficientes mostrassem que ela provavelmente é falsa?

Não é verdade que uma crença básica inicial em Deus ou no evangelho Cristão deve pelo menos ser sustentada por evidência ou argumentos já que, diante de um defeater [Derrotador] em potencial, o foco de alguém deixa de ser a crença básica e passa a ser o defeater em potencial – defeater esse que poderia, então, se tornar real?

Ou Plantinga argumentaria que o testemunho do Espírito é um defeater intrínseco contra basicamente qualquer objeção? E se ele argumentaria isso, então não seria o caso que um defeater bem sucedido é, em princípio, impossível?

Obrigado,

Kyle

United States

Dr. Craig responde


A

Eu fico perplexo pela falta de compreensão que existe com respeito à chamada Epistemologia Reformada. Eu já expliquei minhas próprias posições sobre esse assunto nos livros Reasonable Faith (2008) e Five Views on Apologetics (2000). Suspeito que muitos não-crentes que não são simpáticos à crença religiosa simplesmente não tiram tempo, como você fez, Kyle, para ler as obras de epistemólogos reformados e realmente entender as questões envolvidas. Em vez disso, eles se contentam em selecionar algumas partes isoladas e depois dizem que tais partes são obviamente absurdas.

Antes de começar vamos primeiro entender o contexto dessa discussão. Plantinga publicou uma crítica mordaz do que ele chama de fundacionalismo clássico, a doutrina que alguém está racionalmente justificado em acreditar que uma proposição é verdade apenas se aquela proposição faz parte dos fundamentos auto-evidentes e incorrigíveis do conhecimento ou é estabelecido por evidência que é, em última instância, baseada em tais fundamentos. De acordo com a chamada objeção evidencialista para a crença religiosa, já que uma proposição como “Deus existe” não é auto-evidente ou incorrigível, seria irracional acreditar nessa proposição sem que fossem oferecidas evidências para sua veracidade.

O que Plantinga mostra, primeiro, é que adotando este tipo de epistemologia reduziria todos nós a irracionalidade, já que a maioria das nossas crenças não pode ser justificada por meio de evidências. Pegue, por exemplo, a crença de que o mundo não foi criado cinco minutos atrás com traços de memória já implantados em nós, comida em nossos estômagos, oriundas de refeições que, na verdade, não tivemos e outras aparências que indicariam uma idade mais avançada do que os cinco minutos reais de nossa existência. Ou a crença de que o mundo externo ao nosso redor é real em vez de uma realidade virtual gerada por um computador. Qualquer um que já assistiu a um filme como Matrix entende que a pessoa vivendo em tal realidade virtual não tem evidências de que ela não está em um mundo ilusório. Mas certamente somos racionais em acreditar que o mundo ao nosso redor é real e existe a mais do que cinco minutos, mesmo que não tenhamos evidências para isso.

Segundo, Plantinga mostra que fundacionalismo clássico é auto-refutável. Os evidencialistas afirmam que apenas proposições que são auto-evidentes ou incorrigíveis são propriamente básicas, isto é, parte dos fundamentos do conhecimento. Mas Plantinga pergunta, a proposição “Apenas proposições que são auto-evidentes ou incorrigíveis são propriamente básicas” em si é propriamente básica? Aparentemente não, pois certamente não é auto-evidente ou incorrigível. Portanto, para acreditarmos racionalmente nesta proposição, devemos ter evidências de que ela é verdadeira. Mas não existem tais evidências. A proposição parece ser simplesmente uma definição arbitrária - e não muito plausível!

Portanto, o fundacionalismo clássico é fatalmente falho. Muitas das crenças que aceitamos racionalmente e, até mesmo, sabemos ser verdade não são baseadas em evidência, mas são propriamente básicas para nós, mesmo que não sejam nem auto-evidentes nem incorrigíveis. De fato, o filósofo George Mavrodes certa vez me disse que, normalmente, nós pensamos em nosso sistema de crenças como um arranha-céu, com um enorme número de crenças erigido sobre os fundamentos, mas que na visão de Plantinga nosso sistema de crenças é mais como um lote vazio enorme com fundações desconexas percorrendo todo ele com alguns tijolos construídos aqui e ali sobre os fundamentos. A ilustração é adequada. Pois, como Plantinga mostra, não somente nossas crenças perceptuais, mas também nossas crenças baseadas na memória e em testemunho, dentre outras, são todas propriamente básicas.

Plantinga enfatiza que a epistemologia dele não é fideística. As crenças propriamente básicas são parte dos frutos do funcionamento correto da razão, não fé. Além disso, o modelo dele não implica que qualquer crença pode ser propriamente básica. A fim de ser propriamente básica, uma crença precisa estar fundamentada em certas circunstâncias. Por exemplo, nas circunstâncias de ter experiências visuais e auditivas de outras pessoas a meu respeito, eu formo a crença de que existem outras pessoas além de mim. Sem tais circunstâncias fundamentais esta crença seria arbitrária e irracional pra mim. Minha crença sobre outras pessoas não pode ser inferida pela evidência, mas pode ser propriamente básica para mim em tais circunstâncias.

Plantinga faz, então, a seguinte pergunta: por que crenças religiosas não podem ser propriamente básicas? Boa pergunta! Plantinga desenvolveu um modelo segundo o qual crenças cristãs são propriamente básicas, com respeito à racionalidade e garantia epistêmica (warrant). Plantinga argumenta que o modelo provê uma descrição viável de como as crenças cristãs podem ser racionais e ter garantia de forma básica. Ou seja, não existe uma boa objeção à sua descrição exceto por um ataque contra a veracidade do Cristianismo em si. De fato, ele acredita que se o Cristianismo é verdadeiro, é muito provável que algo similar ao seu modelo esteja correto. A conclusão é que se o não-cristão quer refutar a racionalidade da crença cristã ele deve questionar e oferecer alguma objeção para a veracidade do Cristianismo em si.

O modelo de Plantinga envolve crucialmente o que é normalmente chamado de o testemunho interno do Espírito Santo. No modelo dele o Espírito Santo funciona de forma análoga a uma faculdade cognitiva, produzindo crenças em nós. Eu, pessoalmente, prefiro pensar no testemunho do Espírito Santo como um testemunho literal ou como parte de circunstâncias experimentais que servem para fundamentar a crença em Deus e nas grandes verdades do Evangelho. Em qualquer um dos casos as crenças que o testemunho do Espírito produz são propriamente básicas.

Eu já caracterizei o testemunho do Espírito Santo de Deus como auto-autenticável. Como explico no livro Reasonable Faith,

Com isso eu quero dizer que a experiência do Espírito Santo é verídica e inconfundível (apesar de não necessariamente ser irresistível ou indubitável) para quem a tem e quem a observa; que tal pessoa não precisa de argumentos ou evidências suplementares para saber e saber com confiança que ele está, de fato, experimentando o Espírito de Deus; que tal experiência não funciona, nesse caso, como premissa de qualquer argumento que parte da experiência religiosa para concluir que Deus existe, mas é a experiência imediata do próprio Deus; que em certos contextos a experiência com o Espírito Santo implica a compreensão de certas verdades da religião cristã, tais como "Deus existe", "Eu estou reconciliado com Deus", "Cristo vive em mim", e assim por diante; que tal experiência provê não só segurança subjetiva da veracidade do Cristianismo, mas sim conhecimento objetivo dessa verdade; e que argumentos e evidências incompatíveis com essa verdade são subjugados pela experiência com o Espírito Santo por quem o recebe.

Eu vejo como quase óbvio que se Deus existe, então, é claro, Ele é capaz de produzir tal testemunho nos seres humanos. Devemos pensar que um ser onipotente que fez o homem e todas suas faculdades, que projetou o homem para conhecê-Lo, é incapaz de falar aos seres humanos de forma tão clara e inconfundível? Portanto, eu acho que Plantinga está inteiramente correto ao afirmar que não existe uma objeção sólida para tal epistemologia exceto por uma crítica da verdade do teísmo cristão em si. Se o não crente pensa de outra forma, convido-o a compartilhar seu argumento. Não é suficiente simular indignação e fazer discurso retórico contra essa ideia.

Uma pessoa que sabe que o Cristianismo é verdade com base do testemunho do Espírito pode também ter uma apologética sólida que reforça ou confirma para ele o testemunho do Espírito, mas não serve como a forma fundamental pela qual ele sabe que o Cristianismo é verdade. Se os argumentos da teologia natural e as evidências em favor do cristianismo são bem sucedidos, como eu afirmo, então a crença cristã também tem garantia por causa de tais argumentos e evidências para a pessoa que os entende, mesmo que essa pessoa ainda estivesse garantida, epistemicamente falando (warranted), na ausência deles. Tal pessoa está duplamente garantida em sua crença cristã, no sentido em que ela desfruta de duas fontes de garantia epistêmica. Assim, argumentos evidenciais em favor do Cristianismo são, em minha visão, suficientes para o conhecimento da verdade do Cristianismo, mas não são necessários para o conhecimento da verdade do Cristianismo.

A pergunta que vocês dois fizeram diz respeito ao papel dos defeaters da crença cristã. Crenças propriamente básicas podem perder/ter reduzido seu status epistêmico positivo; ou seja, elas podem ser derrotadas por outras crenças incompatíveis que alguém pode vir a aceitar (defeaters). Em tais casos, o indivíduo em questão deve elaborar um defeater para o defeater inicial ou desistir de algumas de suas crenças para permanecer racional. Portanto, um cristão que, por exemplo, depara-se com o problema do sofrimento, é colocado diante de um defeater em potencial para sua crença em Deus. A apologética cristã pode ajudar a formular respostas, como a Defesa do Livre Arbítrio em resposta ao problema do sofrimento, para derrotar os defeaters em potencial.

Mas Plantinga também argumenta que, em alguns casos, o grau de garantia epistêmica da própria crença original pode exceder tanto o grau de garantia epistêmica dos potenciais defeaters que, nesses casos, a crença original se torna um defeater intrínseco contra os defeaters originaisque são trazidos contra ela. Ele dá o exemplo de alguém acusado de um crime e contra quem todas as evidências apontam apesar da pessoa saber que é inocente. Nesse caso, essa pessoa não é racionalmente obrigada a abandonar a crença em sua inocência e aceitar, em vez disso, a evidência de que ele é culpado. A crença de que ele não cometeu o crime derrota intrinsecamente os defeaters trazidos contra ela pelas evidências. Plantinga faz a aplicação teológica dessa idéia, sugerindo que a crença em Deus pode, de forma similar, ser um testemunho de veracidade intrínseco que vence todos os defeaters que podem ser trazidos contra ele.

Até onde eu saiba, Plantinga não se compromete com a visão de que o testemunho do Espírito Santo é um defeater intrínseco contra todo defeater. Tal tese é independente do modelo que ele tem apresentado. Mas eu tenho defendido que o testemunho do Espírito Santo é, de fato, um defeater intrínseco contra qualquer defeater trazido contra ele. Pois me parece inconcebível que Deus permitiria que qualquer crente se encontrasse em uma posição na qual ele seria racionalmente obrigado a cometer apostasia e renunciar a Cristo. Parece-me, na verdade, que em tal situação um Deus amoroso intensificaria o testemunho do Espírito de tal forma que ele se tornaria um defeater intrínseco contra os defeaters aos quais essa pessoa estivesse exposta.

Pode ser dito que Deus não iria, de fato, permitir que alguém entrasse em circunstâncias onde a coisa racional a se fazer fosse apostatar e dar as costas para Deus, mas o que Deus faria seria prover evidências suficientes para tal indivíduo para que ele fosse capaz de derrotar, por meio de argumentos e evidências, o suposto defeater. Admito que tal ideia seja possível (como alguém que acredita em conhecimento médio pensaria diferente?). Mas quando olho para o mundo em que realmente vivemos tal ideia me parece ingênua.

A grande maioria das pessoas no mundo não tem tempo, treinamento ou recursos para desenvolver uma apologética Cristã forte como a base de sua fé ou para derrotar os defeaters que elas encontram. Tenho sido profundamente tocado pelo empenho de cristãos ao viajar pelo mundo e ver as circunstâncias desesperadoras em que eles, às vezes, se encontram. Na Europa, por exemplo, a cultura das universidades é esmagadoramente secular e até mesmo ateísta. Conheci muitos alunos de teologia quando morei na Alemanha cujos professores os expuseram a nada além de criticismo bíblico radical e academicismo anticristão. Esses alunos seguraram firme na sua fé cristã a despeito das evidências. Era muito, muito pior na Europa Oriental e Rússia. Eu gostaria de poder lhe transportar para a escuridão espiritual e opressão que existia atrás da cortina de ferro durante os dias da União Soviética. Lembro-me de perguntar a um crente russo, “Você não tem recursos para lhe ajudar na vida cristã?” Ele respondeu, “Bem, tem uma enciclopédia de ateísmo publicada pelo estado e, ao ler o que está sendo atacado ali, você pode aprender algumas coisas. Mas é só isso.” Estes irmãos e irmãs suportaram horrorosa opressão e doutrinação pelo regime Marxista e, mesmo assim, não abandonaram a Cristo. Como enfatizei na minha resposta à Pergunta #13, evidências variam de geração pra geração e de lugar pra lugar e são acessíveis apenas a poucos privilegiados que tem a educação, tempo livre e recursos para explorá-las. Deus providenciou uma base mais segura para nossa fé do que as areias movediças das evidências e argumentos: a habitação do Espírito Santo.

Além disso, esta conclusão está de acordo com o ensino do Novo Testamento a respeito do testemunho do Espírito Santo. Enquanto não-crentes rejeitam o ensino do Novo Testamento, cristãos devem levá-lo a sério. Pondere, portanto, nas palavras de João:

E o Espírito é quem dá testemunho, porque o Espírito é a verdade. Nós aceitamos o testemunho dos homens, mas o testemunho de Deus tem maior valor, pois é o testemunho de Deus, que ele dá acerca de seu Filho. Quem crê no Filho de Deus tem em si mesmo esse testemunho. Quem não crê em Deus o faz mentiroso, porque não crê no testemunho que Deus dá acerca de seu Filho.(1 João 5:6-10).

Como crentes cristãos nós temos o testemunho do Deus vivo em nós, o Espírito Santo. O Seu testemunho excede em força todo o testemunho humano.

Então, em resposta à sua pergunta, Kyle, eu acho que, de fato, Deus não irá permitir que alguém se encontre em uma posição em que a coisa racional a fazer seja rejeitar a Deus e a Cristo e separar-se de Deus. Dado que Deus é essencialmente totalmente amoroso, sou inclinado a dizer que tal coisa não somente nunca irá acontecer, mas que é, de fato, impossível. Segue-se que Cristãos que apostataram fizeram isso em desafio ao trabalho do Espírito Santo ao ignorar e entristecer o Espírito, de forma que, que eles fizeram foi, no fim, irracional.

Isso implica, Adam, como o cético que você cita diz, que eu acho “evidências irrelevantes quando comparadas com a fé”? Não, porque ele está fazendo um contraste falso, comparando maçãs com laranjas. Fé não é a questão aqui, mas o fundamento para a fé. O fundamento para a fé deve ser evidência? Esta é a questão. Já vimos que o evidencialismo não funciona. Muitas das coisas que sabemos não são baseadas em evidência. Então por que a crença em Deus deve ser? A crença em Deus e nas grandes verdades do evangelho não é um exercício de fé cego, um salto no escuro. Antes, como Plantinga enfatiza, a crença cristã é parte dos frutos do funcionamento correto da razão, fundada no testemunho do Espírito Santo, que é uma realidade objetiva por meio da qual Deus atua em mim.

A verdade é que evidência, como definida nessas discussões, tem um papel secundário comparado ao papel do próprio Deus em garantir, epistemicamente, a crença cristã. Deveríamos, então, ignorar a forte evidência se ela demonstra que nossa fé é provavelmente falsa? Claro que não! Meu trabalho como filósofo exemplifica o esforço em confrontar diretamente objeções à crença religiosa e respondê-las. Mas a maioria dos Cristãos no mundo não tem esse luxo. Pode ser que tenham que manter suas crenças cristãs mesmo que não tenham uma resposta para o suposto defeater. O que eu insisto é que, dado o testemunho do Espírito Santo neles, eles são inteiramente racionais em fazê-lo.

- William Lane Craig