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#125 Eternidade Divina e as Relações Intratrinitarianas

September 25, 2014
Q

Dr. Craig - depois de ler seu livro de nível popular ‘Time & Eternity’ [Tempo e Eternidade], fiquei tão intrigado com o assunto que comprei a apresentação em vídeo. Logo depois encomendei ‘God, Time and Eternity’ [Deus, Tempo e Eternidade], ‘The Metaphysics of Relativity’ [A Metafísica da Relatividade] e os dois livros ‘Tenseless Theory of Time’ [Teoria Aflexiva do Tempo] e ‘Tensed Theory of Time’ [Teoria Flexiva do Tempo].

A cruzada não terminou aí, pois depois eu comprei ‘Einstein, Relativity, and Absolute Simultaneity’ [Einstein, Relatividade e Simultaneidade Absoluta], ‘Time, Tense and Reference’ [Tempo, Temporalidade e Referência], ‘Time, Reality and Transcendence in Rational Perspective’ [Tempo, Realidade e Transcendência na Perspectiva Racional] e muitos outros materiais complementares a fim de obter um entendimento mais do que superficial sobre a teoria da relatividade, a Teoria-A e Teoria-B do tempo, a realidade e o conhecimento de fatos temporais, mecânica quântica, etc.

Estou completamente intrigado com sua resolução concluindo que Deus é atemporal anteriormente à criação e temporal sem a criação. Além do mais, a solução neo-Lorentziana para refutar ou enfraquecer os argumentos em defesa da atemporalidade baseada em STR fez com que eu iniciasse uma cruzada completamente nova (a mesma coisa aconteceu com relação ao presentismo, etc.). O material escrito por teístas conservadores que realmente interagem com estas questões de uma forma coerente e moderna é escasso (exceto Deweese). Na verdade, o oposto é que é verdade.

Seja por causa de Deus e o tempo, o ACK, molinismo ou 'Reasonable Faith, tenho uma grande dívida com seu ministério por ser essencial para o meu próprio chamado, e também por preparar alunos de ensino médio e iniciantes na faculdade para a batalha intelectual, moral e emocional que os aguarda. É lamentável que a igreja ignore largamente essas questões, ou o que é pior, que ela promova materiais medíocres que apenas endossam a ilusão de que a fé e a razão são divorciadas uma da outra e que a única conseqüência de ler materiais como aqueles disponíveis no Reasonable Faith é arrogância intelectual. O chamado para o ministério apologético/evangelista pode ser mais do que solitário -- é até mesmo alvo de hostilidade. Seu ministério ajuda com a solidão ou hostilidade que alguém recebe de um pastor que simplesmente não consegue ver a relevância desse assunto.

Deixando a introdução de lado, eu tenho uma pergunta para você que surge do contexto de argumentos contra uma deidade atemporal. Especificamente, ela vem de um argumento que lida com a coerência lógica de um Deus atemporal “pessoal” (imutável, perfeito). Historicamente falando, argumentos que definem a pessoalidade (que são tipicamente funcionais) são notoriamente fáceis de refutar ao aplicar o critério proposto a alguém que está em coma, dormindo ou até mesmo sonhando acordado. Além do mais, é frequentemente presumido que ou “atemporalidade” ou “temporalidade” são propriedades essenciais quando na realidade elas são propriedades acidentais ou contingentes.

Existe uma resposta a um argumento, porém, que eu tenho tido dificuldade de compreender. O argumento é que Deus não pode ser pessoal (perfeito, imutável) e dentro do tempo porque um Deus atemporal não pode se engajar em relacionamentos interpessoais. A resposta provida por você e outros é que a trindade obviamente atende a este critério por causa do relacionamento entre os membros da divindade -- quer Deus seja atemporal ou temporal, o que parece ser a resposta apropriada e lógica.

Porém, se Deus é atemporal, na definição tradicional (isto é, no sentido Boetiano, Tomista, de Leftow, Stump e Kretzmann), então como é possível que as pessoas específicas na divindade tenham relações interpessoais? Isto é, se eles são atemporais e cada pessoa da trindade conhece e deseja tudo de uma só vez -- dada a definição tradicional -- então como eles se relacionam? Para usar uma intuição terrivelmente antropomórfica, se eu sei o que você quer, faço tudo exatamente da mesma forma que você e desejo tudo que você deseja, então o que temos para conversar? Como fazemos o outro rir? Claro, podemos nos relacionar, mas talvez nós nos relacionaremos demais até o ponto de ficamos entediados.

Isto é um pouco similar ao conhecimento que Deus tem do futuro, incluindo contingentes e contrafatuais do futuro. Parece que esta mesma questão aparece -- se eu sei de tudo o que você está pensando (assumindo que exista um fluxo de pensamentos [que pode ser sequencial, mas não necessariamente no tempo] se o tempo é relacional), então como é possível que possa existir um relacionamento. É como se houvesse relacionamento em excesso. Ou seja, você pode rotular isso como o problema da onisciência e o relacionamento intrapessoal trinitariano.

Keith

United States

Dr. Craig responde


A

Obrigado, Keith, pelas palavras de encorajamento! Eu vejo que você foi picado pelo “bicho do tempo” também! Muitos dos meus alunos e colegas na Talbot também foram picados, e eu fico maravilhado com como perguntas sobre o tempo também surgem constantemente entre os leigos em minhas aulas do Defenders. Depois do conceito de Deus, eu penso que o conceito de tempo é o assunto mais fascinante -- e que mais expande a mente -- que você pode contemplar!

Pode ter sido somente um descuido da sua parte, mas você representou errado a minha visão sobre a eternidade divina, que é que Deus é atemporal sem a criação e temporal com (ou desde o momento da) criação. Novamente, eu não defendo que Deus sem a criação é imutável, mas sim que Ele é sem mudança. Ser sem mudança é uma propriedade de facto, não modal; ou seja, algo pode ser de fato sem mudança mesmo que tenha a capacidade ou poder de mudar. Já que eu penso que Deus muda ao criar o universo, eu considero sua não-mudança sem a criação como sendo meramente uma propriedade contingente da qual Ele se livra no momento da criação.

Então sua pergunta é como as três pessoas da trindade podem ser pessoais e atemporais. A resposta fácil à sua pergunta seria dizer, “Simplesmente sendo sem mudança!”. Em uma visão relacional do tempo, não existe antes e depois em tal estado sem mudança e, portanto, não há tempo. Mas o que você realmente está perguntando é se relações pessoais podem ser sem mudança. Bem, por que não? De acordo com a doutrina clássica de perichoresis, as três pessoas da trindade compartilham amor, conhecimento e vontade de forma mútua. Considere o amor. Por que duas pessoas não podem se amar sem mudar? Eu não vejo isso como sendo algo conceitualmente difícil. Eu simplesmente não vejo qualquer dificuldade em existir conexão positiva incondicional e até mesmo apego emocional entre duas pessoas que não mudam. Novamente, não leva tempo algum para se saber algo. Assim, duas pessoas poderiam se conhecer intimamente e completamente sem mudar. Considere agora a vontade: duas pessoas que não mudam podem querer a mesma coisa de forma sem mudança. Mudar simplesmente não parece ser necessário para que duas pessoas se relacionem da forma como a perichoresis requer.

Parece-me que seu verdadeiro obstáculo surge, como você mesmo parece reconhecer, por causa de uma concepção excessivamente antropomórfica de Deus, ou seja, você pensa nEle em termos humanos finitos (ou, como um jornalista britânico recentemente colocou, como um tipo de cara). Certamente ter um relacionamento como o que eu descrevi com qualquer coisa finita seria insatisfatório e talvez até mesmo uma tortura. Mas Deus é bondade e amor infinito. É por isso que Ele, e apenas Ele, pode satisfazer nossos anseios mais profundos para sempre e nunca se tornar entediante. Ele é inesgotável em Sua grandeza e, portanto, o objeto apropriado de Seus próprios desejos. Portanto, é impensável que o Pai pudesse jamais ficar entediado com o Filho! Eles não precisam conversar e contar piadas para entreter um ao outro.

Assim, me parece que o que você realmente encontrou foi um argumento para a infinitude de Deus baseado em Sua atemporalidade e não-mudança.

- William Lane Craig