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#122 Teoria Penal da Expiação

September 25, 2014
Q

Olá Dr. Craig,

Primeiramente, gostaria de lhe agradecer pelo incrível trabalho que você tem feito em seu ministério. Este site, seus livros, palestras e debates têm mudado completamente a minha vida e me dado muita confiança quando o assunto é evangelismo. Muito obrigado a você e a todos os voluntários que ajudam.

Minha pergunta é em relação à expiação. Basicamente, eu estou tendo dificuldades em entender a justiça da Expiação Substitutiva Penal.

Se eu sou a pessoa que cometeu o pecado e Deus castiga Jesus em vez disso, a justiça realmente foi feita?

Eu posso entender a expiação melhor se eu pensar nela como uma dívida que precisava ser paga; Jesus entra em cena e me socorre.

Mas a analogia da sala de tribunal simplesmente não me convence.

Vamos dizer que um homem assassinou a minha família. Eu o levo ao tribunal, e o juiz diz: "Bem, vamos fazer o seguinte, eu vou dar ao meu filho perfeito a pena de morte, ao invés de dá-la a este assassino".

Tenho certeza de que o assassino ficaria feliz por ter se livrado da morte, mas onde está a justiça nisso? Eu ficaria ultrajado.

Eu espero que você possa lançar um pouco de luz sobre o assunto.

Quando a Bíblia diz: "Aquele que não conheceu pecado tornou-se pecado", isso é um evento literal?

Estou muito envergonhado por ainda não ter compreendido uma doutrina tão essencial.

Obrigado por qualquer ajuda que você puder dar!

Tony.

United States

Dr. Craig responde


A

A doutrina da expiação é uma daquelas áreas da teologia cristã que mais necessita de uma cuidadosa análise filosófica. Na verdade, se qualquer um de vocês leitores está pensando em fazer pós-graduação em filosofia, este é um ótimo tópico de dissertação! É quase certo que seu trabalho será publicado, dada a centralidade da doutrina da expiação substitutiva e o fato de que tal doutrina é, filosoficamente, muito pouco desenvolvida.

Para os leitores que não estão familiarizados com esta doutrina, deixe-me afirmar, de forma simplificada, que a Teoria Penal da Expiação mantém que, ao morrer na cruz, Cristo levou a penalidade do pecado que nós merecíamos, de forma que os requisitos da justiça de Deus foram cumpridos e nós podemos ser perdoados e nossa culpa removida. Como você corretamente notou, Tony, a Teoria Penal é muito diferente da Teoria da Satisfação da expiação proposta por teólogos como S. Anselmo. De acordo com essa teoria nós, por causa dos nossos pecados, temos uma dívida enorme com Deus - digamos, dar a Ele a devida honra - que nós não podemos pagar. Então Cristo paga nossa dívida (e mais!) para nós, de forma que sejamos libertos. Enquanto que a Teoria da Satisfação contém elementos de verdade, ela não pode ser a história completa, pois os elementos morais de justiça e punição estão faltando na história. Uma doutrina completa da expiação, me parece, deve incluir os aspectos penais.

Infelizmente, minhas áreas de interesse de pesquisa não tem incluído a expiação, então meus comentários aqui serão, no melhor das hipóteses, superficiais. Minha esperança é que eles provoquem outros a se engajarem no desenvolvimento filosófico dessa doutrina e pensarem mais profundamente sobre ela.

O problema central da Teoria Penal é, como você apontou, entender como punir uma pessoa que não é o autor do erro pode cumprir os requisitos da justiça. De fato, podemos até dizer que seria errado punir alguma pessoa inocente pelos crimes que eu cometi!

Parece-me, porém, que em outros aspectos da vida humana nós reconhecemos esta prática. Eu me lembro de certa vez compartilhar o evangelho com um empresário. Quando expliquei que Cristo havia morrido para pagar a penalidade pelos nossos pecados, ele respondeu, “Ah sim, isto é imputação”. Fiquei chocado, já que eu nunca esperava que este conceito teológico fosse familiar para esse empresário não cristão. Quando perguntei a ele como ele havia se familiarizado com essa ideia ele respondeu, “Ah, nós usamos imputação todo o tempo no negócio de seguros”. Ele me explicou que certos tipos de apólices de seguro são escritos para que, por exemplo, se outra pessoa dirige o meu carro e se envolve em um acidente, a responsabilidade seja imputada a mim em vez de ser imputada ao motorista. Embora o motorista tenha se comportado imprudentemente, sou eu que sou considerado responsável; é como se eu mesmo tivesse cometido a infração.

Podemos fazer um paralelo entre essa situação e a expiação substitutiva. Normalmente eu seria responsável pelos meus feitos errados. Mas por meio da minha fé em Cristo, eu sou, digamos assim, coberto por sua apólice de seguro divina, segundo a qual ele assume a responsabilidade por minhas ações. Meu pecado é imputado a ele e ele paga a penalidade desse pecado. Os requisitos de justiça são cumpridos, assim como eles são em situações mundanas em que alguém paga a penalidade por algo imputado a ele. Isto é uma transação tão literal quanto aquelas que acontecem regularmente na indústria de seguros.

Eu acho que sua versão da analogia do tribunal está um pouco enviesada. Está faltando os elementos de contrição e arrependimento da parte do criminoso e a voluntariedade do sacrifício do filho, assim como o fato de que todos nós estamos no lugar do assassino. Você também tem que ter muito cuidado para garantir que o que você está procurando é realmente justiça ao invésde simplesmente vingança. Existe uma grande diferença! A analogia mais apropriada é que o assassino na história genuinamente se arrependeu de seu crime e que você, tendo já estado no lugar dele, quer que o juiz o perdoe. Mas o juiz é obrigado a fazer com que os requisitos da justiça sejam cumpridos. Então o próprio juiz se oferece voluntariamente para ter a responsabilidade do crime imputada sobre ele, de forma que ele irá morrer no lugar do assassino. Eu acho que você irá concordar que se tal imputação é possível, então a justiça será feita, mesmo que a vingança não seja perpetrada. A questão verdadeira é, portanto, imputação.

O que eu gostaria de ver algum filósofo cristão fazer, portanto, é realmente lidar com este conceito de imputação, explorar como ele funciona em situações legais e fazer uma aplicação moral e teológica. Alguém topa?

- William Lane Craig