English Site
back
5 / 06

#385 Ética Teísta e Dependência da Mente

May 16, 2015
Q

Caro Dr. Craig,

Eu sou um ateu que mora na Suécia (há muitos de nós aqui, como você sabe!) com interesse em filosofia e ética, e enquanto eu provavelmente discordo de você em um monte de coisas, eu gosto muito de suas obras escritas e debates. Todas as pessoas sabem mundo sabe que elas vão encarar um intenso debate quando você assumir o posto! (Pode haver um argumento teísta aqui: se Deus não existe, é um *milagre* que você ganhe tantos debates e, portanto, é evidência de Deus! Estou brincando, estou brincando)

Eu tenho uma pergunta sobre a moralidade que eu espero que você possa responder e esclarecer a sua posição a respeito. Meu conhecimento de metaética é bastante modesto, mas eu estou realmente inclinando-me, embora timidamente, em direção a que a moralidade seja objetiva (veja, há pelo menos uma coisa em que estamos de acordo!). Eu argumentaria que a obrigação moral pode ser objetiva sem Deus (porém, não vou fazê-lo aqui), mas eu iria ainda mais longe e dizer que, SE a moralidade é fundamentada em Deus, ela NÃO é objetiva. Se "objetiva" significa "independente da mente", que poderia ser uma definição aproximada de objetivo, mas vamos aceitá-la por agora, isso não faz a moralidade fundamentada em Deus "divinamente subjetiva" em vez de objetiva? Agora, talvez você gostaria de se opor aqui e dizer que isto é um homem de palha e que sua visão é que a moralidade é fundamentada na *natureza* de Deus. Mas se a natureza de Deus É "o bem", eu não entendo de onde vem a normatividade. Você irá reconhecer isto como o problema é/deveria: se a natureza de Deus É de uma maneira e não de outra, como é que isso nos compromete à visão de que DEVEMOS refletir a natureza de Deus em nossas ações? Certamente parece que poderíamos ter razões prudenciais para fazê-lo (se fosse verdade), mas eu não vejo como nós teríamos quaisquer razões *morais* (pelo menos não no sentido mais forte do que poderíamos obter por utilitarismo básico, que eu sei que você rejeita).

A segunda pergunta é mais diretamente sobre o seu argumento moral: se nosso dever moral é "refletir a natureza de Deus" e Deus simplesmente É "o bem" (ou como você deseja colocar, eu estou fazendo a minha melhor tentativa para não erigir um homem de palha!) isso não faz que o seu argumento moral seja circular? Parece-me que só faz sentido porque você nunca define o que você realmente quer dizer com "valores e obrigações morais " (bem, eu nunca vi você defini-lo de qualquer forma!), se mudarmos "valores morais objetivos" para "a natureza de Deus" e "deveres" para a reflexão dessa própria natureza, temos:

P1. Se Deus não existe, a natureza e ações de Deus que refletem sua natureza não existem. (Eu concordo!)

P2. A natureza e ações de Deus que refletem sua natureza existem. (Eu discordo, é sobre isso que nós estamos discutindo!)

Portanto, Deus existe.

Isso parece fazê-lo circular, porque você está simplesmente supondo que a natureza de Deus existe na premissa dois. Talvez você possa esclarecer isso!

Assim, para resumir (eu sei que você gosta de resumos): Qual é o argumento que faz uma ponte entre o problema é/deveria acima e o seu argumento moral, em última análise, não sendo circular? (Talvez você possa fazer uma versão esclarecida do seu argumento moral onde você defina valores e deveres morais explicitamente)

Permaneça cético, continue educando e aprendendo!

Com amor,

Rasmus

Suécia

Sweden

Dr. Craig responde


A

É um prazer receber uma pergunta da Suécia, Rasmus, já que eu sempre gostei tanto das visitas e interações lá.

A sua primeira pergunta lida com a objetividade da ética teísta. Eu considero sim a palavra "objetivo" como significando independente da mente. Lawrence Krauss uma vez observou muito bem: a realidade objetiva é o que ainda está lá quando você para de pensar sobre ela!

Agora vem a parte difícil: se valores morais são baseados em Deus, o opositor diz, então como Deus é uma mente, os valores morais não são independentes da mente. Certamente, eles são independentes da mentes humanas, mas eles não são independentes da mente de Deus. Então a ética teísta é dependente da mente e, portanto, não é objetiva.

O problema com esta objeção é o exagero. Pois nesta visão a distinção entre realidades dependentes e independentes da mente entram em colapso. Tudo se torna dependente da mente. Mesmo coisas como pessoas, planetas e estrelas, que são paradigmas de realidades objetivas, tornam-se dependentes da mente, já que eles, também, dependem de Deus para a sua existência. Mas, então, a distinção intuitiva e útil entre realidades dependentes e independentes da mente se perde.

Não devemos desistir desta distinção. Há, evidentemente, uma diferença entre as coisas de alucinações, sonhos, ficções e coisas que existiam antes de chegarmos em cena. Além disso, podemos distinguir entre as concepções idealistas, como as de George Berkeley, que diz que o mundo perceptível só existe na mente de Deus como um sonho, e não como uma realidade espaço-temporal criada e sustentada em existência por Deus. Na visão de Berkeley o mundo realmente é dependente da mente, de uma forma que não é de acordo com o teísmo clássico. O sentido em que o mundo é dependente da mente de acordo com o teísmo clássico não é claramente o mesmo sentido em que ele é de acordo com o idealismo de Berkeley.

Da mesma forma, há claramente uma diferença entre os sistemas éticos teístas que são voluntaristas, como o de Guilherme (William) Ockham, e os que não são, como o de Tomás de Aquino. Na visão de Ockham os valores morais parecem ser dependentes da mente de uma forma que eles não são para Tomás de Aquino, ou seja, para Ockham, Deus inventou os valores que Ele quer, enquanto que na visão de Aquino os valores morais são baseados, não na vontade de Deus, mas em Sua natureza. Seria extremamente enganador caracterizar os sistemas éticos de Aquino e de Ockham como dependentes da mente só porque Deus é o fundamento dos valores morais para ambos. Precisamos preservar uma distinção significativa entre as realidades dependentes da mente e independentes da mente se quisermos compreender corretamente esses pontos de vista (visões).

Eu não tenho certeza de como isto deve ser feito, em geral. Mas, para fazer uma tentativa, quando dizemos que algo é dependente da mente no sentido de ser subjetivo, queremos dizer que isso é, de alguma forma, gerado pela atividade de uma mente, ou seja, é um fenômeno mental (como uma dor ou um sonho) ou que é constituído por uma mente (como uma ficção ou objeto imaginário). Algo que é dependente da mente meramente no sentido de que a sua existência implica a existência de uma mente não se qualifica como subjetivo. Algo que é dependente da mente apenas no sentido de que a sua existência implica que uma mente existe, ainda pode ser uma realidade objetiva, já que não é um fenômeno mental ou fabricado.

Agora claramente, os valores morais não são, de acordo com a ética teísta não-voluntarista, dependentes da mente no sentido subjetivo. Sim, eles implicam que uma mente, isto é, Deus, exista, mas não são por isso, dependentes da mente no sentido subjetivo.

Você conhece esta posição, mas expressa reservas:. "se a natureza de Deus É "o bem", eu não entendo de onde vem a normatividade. Você irá reconhecer isto como o problema é/deveria: se a natureza de Deus É de uma maneira e não de outra, como é que isso nos compromete à visão de que DEVEMOS refletir a natureza de Deus em nossas ações?"

Ah, é aí que entra a Ética do Comando Divino (ou dos Mandamentos Divinos)! As obrigações e proibições morais surgem como resultado de imperativos morais de uma autoridade qualificada. Como o bem maior - na verdade, o paradigma da bondade - Deus é uma entidade qualificada para emitir comandos morais. São os comandos de Deus que, assim, fornecem normatividade. Estes comandos não são arbitrários, mas reflem Sua natureza perfeitamente boa. Então a natureza de Deus fundamenta os valores morais, e seus comandos constituem os deveres morais.

Alguém pode persistir, "Mas porque é que Deus é o padrão (ou standard) de valor moral?" A pergunta é um pouco equivocada. Qualquer pessoa tem o direito de apresentar sua teoria moral e explicar os seus parâmetros. Toda as teorias morais vão postular alguma moralidade final que serve como um ponto de parada explicativa. A pergunta proposta será se a teoria moral é plausível, em especial, se a sua moralidade final é um ponto de parada não-arbitrário e adequado. Em contraste com o ateísmo, o teísmo tem um ponto de parada não-arbitrário e adequado. Pois Deus é, por definição, o maior ser concebível, um ser que é digno de adoração. Nada mais elevado poderia ser imaginado. Assim, identificar o bem com o próprio Deus fornece um fundamento para uma teoria moral plausível.

A sua segunda pergunta sobre a suposta circularidade do argumento moral é mais facilmente resolvida. Como eu já expliquei em outro lugar, quando o teísta diz que Deus é o Bem, ele está fazendo uma afirmação ontológica, não uma afirmação semântica. Ele enfaticamente não está oferecendo uma definição das palavras "bom" ou "obrigatório" em termos de Deus e seus mandamentos/comandos. Ele toma estas palavras como tendo seus significados usuais de dicionário. É precisamente por isso que eu não ofereço definições de tais termos. O argumento moral não é sobre a semântica moral. É uma tese metafísica sobre o fundamento de valores e deveres morais. Semanticamente o teísta está sobre terreno comum com eticistas seculares no uso de termos éticos com os seus significados usuais. Portanto, o argumento moral não pode ser justificadamente acusado de circularidade ou trivialidade.

Rasmus, há alguns anos eu debati o proeminente eticista sueco Torbjörn Tänssjö sobre Deus e moralidade. Aqui está um link:

https://www.youtube.com/watch?v=2AdsupGA2tk&list=PL6C81C0224108CEEA

Você poderá achar este debate estimulante.

- William Lane Craig