#30 Falsas alegações do testemunho do Espírito
July 12, 2012Pergunta 1:
Dr. Craig,
Quero começar agradecendo-lhe por seu ministério. Ele tem sido um auxílio inestimável para mim em minha caminhada com Cristo. Bem, sempre fiquei aborrecido quanto ao relacionamento entre fé e razão. Esta semana, eu estava lendo na seção de perguntas e respostas o seu artigo cujo título é “Lidando com a dúvida” no qual o senhor declara:
Lembro-me bem de um de meus professores de Teologia comentando que, se fosse convencido de que o cristianismo era irracional, ele, então, renunciaria. Ora, essas coisas me aterrorizavam e perturbavam. Para mim, Cristo era tão real que havia dotado minha vida com tamanho significado que eu não poderia fazer a confissão do meu professor. Se, de alguma maneira, durante meus estudos minha razão se voltasse contra a minha fé, então, tanto pior para minha razão! Isso significa apenas que havia cometido algum erro em meu raciocínio. [...] Se minha razão se voltasse contra Cristo, eu ainda assim creria. Minha fé é real demais!”.
À vista disso, o que, então, seria necessário para o senhor deixar de acreditar no cristianismo? Na sua opinião, ele é infalsificável? Há alguma coisa capaz de lhe convencer do contrário? Será que isso não nos lança no subjetivismo? Esse tipo de epistemologia religiosa não seria a mesma da maioria dos mórmons, que alega estar convencida da própria religião por causa de um “testemunho interior” — e que esse testemunho íntimo tem prioridade sobre outro tipo de conhecimento (razão, evidência, história, etc.)? É como se o parágrafo acima pudesse ser atirado de volta em nós por um mórmon que não tem respostas para um livro como, digamos, “The New Mormon Challenge” [O novo desafio mórmon].
Somos, assim, deixados com duas pessoas com pontos de vista contrários que alegam, as duas, que a visão delas é verdadeira e que estão certas disso pelo testemunho do Espírito Santo. Então, quando é que entram no jogo o argumento, a evidência, a razão e coisas assim, se o aspecto subjetivo tem a carta de trunfo? Na seção 3.5.2.3 do Seminário de Filosofia da Religião, destaca-se que o senhor diz que “Plantiga quer mostrar que a única maneira de uma crença cristã poder ser injustificada, irracional ou não garantida é mostrar que o cristianismo é falso. As objeções na teoria dependem das objeções na prática.” Plantiga admite a possibilidade de as objeções na prática mostrarem que o cristianismo é falso? Essas objeções na prática não incluiriam coisas como razão, evidência, argumento, etc.? O senhor concorda com Plantiga que as objeções na prática poderiam mostrar que o cristianismo é falso? Perdoe-me por tantas perguntas. Apreciaria, contudo, qualquer esclarecimento que o senhor possa verter sobre a questão.
Muito obrigado.
Seth
Pergunta 2:
Dr. Craig,
O senhor disse que o Espírito Santo confirma em nós que o cristianismo é verdadeiro. Que responderia o senhor a um mórmon que afirma que se recolheu ao quarto, perguntou a Deus se o mormonismo é verdadeiro e que sentiu o espírito lhe confirmar que o mormonismo é verdadeiro? Ele sentiu o ardor no peito. O argumento “o Espírito Santo nos confirma que o cristianismo é verdadeiro” não é subjetivo? A própria Bíblia fala a respeito de “outro espírito”. Como sabemos que esse espírito de confirmação é o Espírito Santo e não outro espírito? E como poderemos dizer aos mórmons: vocês estão ouvindo o espírito errado?
Grato por qualquer ajuda.
David
Afghanistan
Dr. Craig responde
A
Ao responder às duas perguntas, quero que retrocedamos à distinção fundamental que tracei entre saber que nossa fé é verdadeira e mostrar que nossa fé é verdadeira. Como explico no capítulo de abertura do livro Reasonable Faith [A veracidade da fé cristã, Vida Nova, SP, 2004], de modo fundamental, a forma de sabermos que o cristianismo é verdadeiro é o testemunho autoautenticador do Espírito Santo de Deus. Com isso quero dizer que: (i) o testemunho interior do Espírito Santo é verídico e inequívoco (embora não necessariamente irresistível nem indubitável) para quem o recebe; (ii) não são necessários argumentos nem evidências complementares para saber, e saber com convicção, que se tem de fato uma experiência com o Espírito de Deus; (iii) tal experiência, nesse caso, não funciona como uma premissa em qualquer argumento de experiência religiosa relacionada a Deus, mas, ao contrário, é a experimentação imediata do próprio Deus; (iv) em certos contextos a experiência com o Espírito Santo significará a apreensão de certas verdades da fé cristã, como “Deus existe”, “estou condenado por Deus”, “estou reconciliado com Deus”, “Cristo vive em mim” e assim por diante; (v) tal experiência dá à pessoa não apenas a certeza subjetiva da verdade do cristianismo, mas o conhecimento objetivo dessa verdade; e (vi) argumentos e evidência incompatíveis com essa verdade são superados pela experiência do Espírito Santo, para a pessoa que a atende plenamente. Parece-me que tudo isso está implícito no ensinamento do Novo Testamento.
À luz disso, portanto, vê-se que sua primeira pergunta, Seth, está deslocada. O que me faria descrer no cristianismo? Não sei — talvez a perseguição, ou a depressão profunda, ou ver meus filhos sofrerem sem razão, ou muitas outras coisas. Ultimamente, estou lendo as Divine Institutes, de Lactantius, e quando vejo a coragem e a bravura dos mártires cristãos da igreja primitiva sob a coação das mais terríveis torturas, não posso deixar de pensar: “Será que eu teria esse tipo de coragem? Sou tão fraco e molenga. Entregaria os pontos na primeira vez que me infligissem dor?”. (Felizmente, Jesus nos diz para não nos preocuparmos com essas coisas, precisamente porque o Espírito Santo nos fortalecerá durante essas provações.) Mas acho que você percebe que a questão não é o que me faria abandonar a minha fé, mas se há circunstâncias sob as quais eu seria obrigado racionalmente a abandonar a minha fé? A resposta a essa última pergunta parece-me ser: NÃO. O testemunho do Espírito Santo é o que Alvin Plantiga denomina de o vencedor intrínseco dos opositores que se apresentam contra a fé cristã. A garantia que ele traz à fé cristã sempre suplantará aquela trazida contra ela por várias objeções. Portanto, a fé cristã é infalsificável, porque quem está atento ao testemunho do Espírito Santo, não no sentido de que não há condições que possamos imaginar sob as quais a fé cristã seria falsa, mas no sentido de que o crente sempre terá garantia suficiente na fé cristã, mesmo diante de objeções que não consiga responder.
Em resposta à sua pergunta, David, sobre provar os espíritos, poderíamos indicar 1João 4.1-3 para mostrar que o testemunho do Espírito Santo não é autoautenticado, mas precisa ser testado:
Amados, não acrediteis em qualquer espírito, mas avaliai se os espíritos vêm de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo. Assim conheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em corpo é de Deus; e todo espírito que não confessa Jesus não é de Deus, mas é o espírito do anticristo [...]
Tal entendimento, porém, seria uma interpretação equivocada da passagem. João não está falando sobre testar o testemunho do Espírito em nosso coração, mas sobre testar aqueles que vêm até você alegando que falam pelo Espírito Santo. Ele se referiu às mesmas pessoas anteriormente: “Filhinhos, esta é a última hora; o anticristo está vindo, já muitos anticristos se têm levantado, conforme ouvistes; por isso, sabemos que é a última hora. Eles saíram dentre nós, mas não eram dos nossos [...]” (1Jo 2.18-19). João não insta jamais o crente a duvidar do testemunho do Espírito em seu coração. Ao contrário, ele afirma que, se alguém mais surge alegando falar pelo Espírito Santo, então, uma vez que essa é uma situação exterior à própria pessoa e envolve reivindicações adicionais de verdades, devemos pôr essa pessoa à prova a fim de determinar se sua alegação é verdadeira. Mas, na nossa própria vida, o testemunho interior do Espírito Deus é suficiente para nos assegurar das verdades que ele testifica (1Jo 5.6-10).
Será que isso não nos faz aterrissar no subjetivismo? Como diria Plantinga, é difícil ver como. Quão relevante para meu conhecimento da verdade do cristianismo através do testemunho do Espírito é o fato de outros indivíduos, como muçulmanos ou mórmons, alegarem falsamente sentir o testemunho autoautenticador do Espírito de Deus? A existência de um único e autêntico testemunho do Espírito não exclui a existência de falsas reivindicações para tal testemunho. Nesse caso, como a existência de falsas alegações do testemunho do Espírito a favor da verdade de uma religião não cristã pode minar logicamente o fato de o crente cristão ter realmente o testemunho genuíno do Espírito? Por que deveria eu ser roubado de minha alegria e certeza de salvação só porque alguém mais alega falsamente, de modo sincero ou insincero, o testemunho do Espírito? Se algum mórmon ou muçulmano alega sentir o testemunho do Espírito de Deus no coração, isso nada faz para solapar a veracidade da minha experiência.
Você poderia insistir, “Mas como você sabe que sua experiência também não é espúria?”. Já respondi a essa pergunta: a experiência do testemunho do Espírito é autoautenticadora para aquele que realmente o tem. O cristão cheio do Espírito é capaz de saber imediatamente que sua reivindicação do testemunho do Espírito é verdadeira a despeito das falsas alegações de adeptos de outras religiões. É por isso que Plantinga afirma que a única maneira de a fé cristã se mostrar injustificada, irracional ou não garantida é mostrar que o cristianismo é falso. Afinal, se for verdadeiro, então, é provável que seja garantido.
Plantinga admite a possibilidade de que objeções de facto poderiam mostrar que o cristianismo é falso? Para os leitores não acostumados com o jargão, objeção de facto é a objeção à verdade factual de alguma alegação. A objeção de jure é a objeção à racionalidade de acreditar nessa alegação, mesmo que a alegação seja verdadeira. Objeções de facto certamente incluiriam argumento e evidência, por exemplo, o problema do sofrimento ou a crítica bíblica cética. Tenho certeza que Plantinga diria que, para pessoas em certas circunstâncias históricas, a evidência era contra o cristianismo (pense nos estudantes russos educados nas universidades da era soviética); a ausência do testemunho do Espírito é de tal ordem que eles julgariam racionalmente que o cristianismo é falso. Mas quem está em tais circunstâncias, que tem e está atento ao testemunho do Espírito, possui um vencedor intrínseco das objeções com que se defronta. Portanto, nesse sentido, não seria possível lhe mostrar que o cristianismo seja falso.
Não é essa a mesma epistemologia religiosa dos mórmons e muçulmanos? Sim! Conforme enfatiza Plantinga, qualquer religião em que a figura de Deus está presente pode também afirmar justificadamente que não há nenhuma objeção de jure, seja qual for sua fé, independente de objeções de facto. O que me parece bastante certo. Eu jamais faria objeção ao islã, nem mesmo ao mormonismo, com bases de jure, mas com bases de facto. Talvez você pense que essa admissão trivializa a realização de Plantinga. Não é assim! Pois, nesse aspecto, o cristianismo difere de seu maior concorrente no mundo ocidental, a saber, o naturalismo. Uma vez que no naturalismo não está presente a figura divina, não é provável que seja garantido, mesmo se for verdadeiro. De fato, Plantinga tem defendido vigorosamente que o naturalismo, se for verdadeiro, não pode ser crido racionalmente e é, nesse sentido, autodestrutivo! Veja seu livro Warranted Christian Belief [Fé cristã justificada] (Oxford: 2003).
Portanto, isso nos situa no cenário que vocês dois imaginaram: você está sendo confrontado com um amigo mórmon que alega saber que o mormonismo é verdadeiro porque sente um “ardor no peito” ao ler o Livro de Mórmon. Agora, não estamos falando mais sobre a possibilidade de saber se o cristianismo é verdadeiro; estamos falando da possibilidade de mostrar que o cristianismo é verdadeiro. A diferença é crucial. William Alston assinala que essa situação, se levada em consideração isoladamente, resulta num impasse, pois ninguém sabe como convencer o outro que só ele é quem detém uma experiência verídica, e não ilusória. Esse impasse não solapa a racionalidade da fé do cristão, pois, mesmo que o processo de formação da sua fé seja tão confiável quanto possível, não existe nenhum modo pelo qual ele possa apresentar uma prova não circular desse fato. Assim, a sua incapacidade de apresentar tal prova não anula a racionalidade da sua fé. Mas, embora esteja sendo racional ao se firmar na sua fé cristã, nessas circunstâncias, o cristão não sabe absolutamente como mostrar ao seu amigo mórmon que ele está certo e seu amigo errado em suas respectivas crenças.
Como podemos romper esse impasse? Alston responde que o cristão deve fazer todo o possível para achar um ponto comum sobre o qual julgar as diferenças cruciais entre as visões concorrentes, procurando mostrar de maneira não circular qual delas está certa. Se, argumentando com base nas considerações que são comuns a ambas as partes, tais como percepção sensorial, autoevidência racional e modos comuns de raciocínio, o cristão consegue mostrar que as suas crenças são verdadeiras e as do amigo mórmon, falsas, então será bem-sucedido em mostrar que ele, o cristão, está numa melhor posição para discernir a verdade a respeito dessas matérias. Uma vez que se permita à apologética entrar em cena, a diferença objetiva entre as situações deles torna-se crucial, pois, já que o mórmon apenas acha que tem uma experiência autoautenticadora de Deus, quando de fato não tem, a força da evidência e o argumento podem, pela graça de Deus, quebrar a sua falsa segurança na verdade da sua fé e persuadi-lo a pôr a sua fé em Cristo.
Esse modo de ver a questão permite que nos firmemos numa fé racional sustentada por argumento e evidência sem que façamos desse argumento e dessa evidência o fundamento da nossa fé. Podermos mostrar ao incrédulo que a nossa fé é verdadeira sem que precisemos depender dos caprichos de argumento e evidência para ter a certeza de que nossa crença é verdadeira; ao mesmo tempo, sabemos confiantes e sem desembaraço que a nossa fé é verdadeira sem que caiamos no subjetivismo relativista.
- William Lane Craig