#103 Fontes Independentes para o Sepultamento de Jesus e o Túmulo Vazio
January 14, 2015Dr. Craig,
Estou tendo dificuldade entendendo algo que você já disse com respeito a historicidade da ressurreição de Jesus. Você diz que os 4 evangelhos são atestações “independentes” de eventos e portanto coisas como o sepultamento de Jesus em uma tumba de pedra e a descoberta daquela tumba de pedra vazia são virtualmente certamente históricas. Mas os evangelhos não poderiam todos ser dependentes em uma tradição oral comum ou naqueles evangelhos escritos primeiro (Mateus e Lucas não tinham pelo menos Marcos disponíveis a eles?). Basicamente, minha pergunta é: Como você chega a sua conclusão de que os 4 evangelhos são independentes em vez de atestações dependentes de eventos?
Dave
United States
Dr. Craig responde
A
Fico feliz em clarificar esta questão, Dave, porque algumas pessoas parecem ter me compreendido mal quando eu digo que o sepultamento de Jesus e a tumba vazia são múltipla e independentemente atestadas. A afirmação aqui não é uma asserção ingênua que porque esses eventos são mencionados em mais de um evangelho eles são portanto atestações múltiplas e independentes. Na verdade, como eu expus em meu recente debate com Richard Carrier,
O relato do sepultamento [de Jesus] é parte do material da fonte de Marcos para a história da Paixão de Jesus. Esta é uma fonte muito antiga que é provavelmente baseada em [relatos de] testemunho ocular e pode ser datada para alguns anos depois da crucifixão de Jesus. Além do mais, Paulo em sua primeira carta a igreja de Corinto também cita uma fonte extremamente antiga para o sepultamento de Jesus que muitos acadêmicos datam para poucos anos ou até mesmo meses após a crucifixão. Testemunho independente para o sepultamento de Jesus por José de Arimateia também é encontrado em fontes especiais usados por Mateus e Lucas e no evangelho de João. Historiadores consideram-se extremamente sortudos quando encontram dois relatos do mesmo evento. Mas nós temos um número incrível de pelo menos cinco fontes independentes para o sepultamento de Jesus, alguns que são extraordinariamente antigos.
A fonte da paixão de Marcos não terminou com o sepultamento de Jesus, mas com a história da tumba vazia, que é relacionada com o relato do sepultamento, de maneira verbal e gramaticalmente. Além do mais, Mateus e João dependem de fontes independentes sobre a tumba vazia. A tumba vazia de Jesus também é mencionada nos sermões antigos independentemente preservados nos Atos dos Apóstolos (2:29; 13:36), e está implícito na tradição antigo dada a Paulo em sua primeira carta aos coríntios (I Cor 15:4). Portanto, temos atestações múltiplas e antigas para o fato da tumba vazia e pelo menos quatro fontes independentes.
Note o foco das fontes antigas e independentes usadas pelos autores do Novo Testamento.
Primeiramente está a fonte da Paixão que Marcos usou ao escrever seu evangelho. Enquanto a maior parte do evangelho de Marcos consiste em curtas histórias anedotas unidas como pérolas em um cordão, quando chegamos a semana final da vida de Jesus nós encontramos uma narrativa contínua de eventos do esquema dos judeus durante a festa dos pães asmos até o sepultamento de Jesus e a tumba vazia. Os eventos da última ceia, prisão, execução, sepultamento e tumba vazia eram centrais a identidade das comunidades do cristão primitivo. De acordo com James D. G. Dunn, “A explicação mais óbvia para essa questão é que o pano de fundo foi fixado já muito cedo dentro do processo da tradição e permaneceu assim durante todo o processo de transição para os evangelhos escritos. Isto sugere em troca uma tradição enraizada na memória dos participantes e colocado dentro do pano de fundo por eles” (J. D. G. Dunn, Jesus Remembered, 2003, pp. 765-6.) A visão dominante dentre os acadêmicos de NT é portanto que as narrativas da paixão são antigos e baseados em testemunho ocular (Mark Allen Powell, JAAR 68 [2000]: 171). De fato, de acordo com Richard Bauckham, muitos acadêmicos datam a narrativa da paixão de Marcos não posterior aos anos 40 (lembre-se que Jesus morreu em 30 A.D) (Richard Bauckham, Jesus and the Eyewitnesses, 2006, p. 243). Então nós estamos lidando aqui com uma fonte extraordinariamente antiga.
Agora Mateus e Lucas provavelmente conheciam o evangelho de Marcos, como você notou, e usaram-no como uma de suas fontes. Mas as diferenças entre Marcos e os outros sinóticos apontam para outras fontes independentes por trás de Mateus e Lucas. Estas diferenças não são explicadas de forma plausível como devida a mudanças editoriais introduzidas por Mateus e Lucas por causa de (i) sua natureza esporádica e desigual (por exemplo, Marcos: “tumba que havia sido lavrada em uma pedra”; Mateus: “tumba que ele lavrou de uma pedra”); (ii) a omissão inexplicável de eventos como Pilatos interrogando o centurião; e (iii) a concordância no uso das palavras de Mateus e Lucas em contraste com Marcos (por exemplo, Mat. 27:58 = Luc. 23:52 “Dirigindo-se a Pilatos, pediu o corpo de Jesus.” Também a frase traduzida como “embrulhado em linho” é idêntica em Mateus e Lucas. Como Mateus e Lucas poderiam ter escolhido independentemente exatamente as mesmas palavras em contraste com Marcos? Os dois provavelmente tinham outra fonte. De fato, como veremos quando chegarmos ao relato da tumba vazia, diferenças entre Mateus e Lucas emergem que sugerem fontes múltiplas.
Além do mais, geralmente acredita-se que João seja independente dos evangelhos sinóticos. Como Paul Barnett coloca, “Uma comparação cuidadosa dos texto de Marcos e João indica que nenhum desses evangelhos é dependente um do outro. Porém eles tem alguns incidentes em comum: Por exemplo, .... o sepultamento de Jesus na tumba de José de Arimateia” (Jesus and the Logic of History, 1997, pp. 104-5).
Finalmente, uma tradição antiga entregue por Paulo para a igreja de Corinto, que está entre as tradições mais antigas identificáveis no NT, refere-se ao sepultamento de Jesus na segunda linha da tradição. Que este é o mesmo evento que o sepultamento descrito pelos evangelhos torna-se evidente ao comparar a tradição de Paulo com as narrativas da paixão por um lado e os sermões dos Atos dos Apóstolos de outro. A tradição de quatro linhas entregue por Paulo é um sumário dos eventos centrais da crucifixão de Jesus, sepultamento por José de Arimateia, a descoberta de sua tumba vazia, e sua aparição aos discípulos.
E o relato da tumba vazia? Primeiro, também faz parte da narrativa da paixão pré-Marquiana. A história da tumba vazia está sintaticamente conectada a história do sepultamento; na verdade, elas são uma história só. Por exemplo, o antecedente de “ele” (Jesus) em Mc. 16:1 está na narrativa do sepultamento (15:43); a discussão das mulheres da pedra pressupões que a pedra havia sido arrastada para frente da entrada da tumba; a visita delas a tumba pressupõe que elas haviam notado a localização dela em 15:47; as palavras do anjo “veja onde o deitaram” refere-se para quando José estava deitando o corpo na tumba.
Quanto aos outros evangelhos, que Mateus tem uma tradição independente da tumba vazia é evidente não somente do vocabulário que não é de Mateus (por exemplo, as palavras traduzidas “no dia seguinte,” “o dia da preparação,” “enganador,” “guarda [de soldados],” “para fazer seguro,” “para selar,”; a expressão “no terceiro dia” também não é de Mateus, pois em todos os outros lugares ele usa “depois de três dias;” a expressão “sacerdotes e fariseus chefe” nunca aparece em Marcos ou Lucas e também é incomum para Mateus), mas também de Mat. 28:15: “E foi divulgado este dito entre os judeus, até ao dia de hoje,” que é indicativo de uma história de tradição de disputas com não-cristãos judeus. Lucas e João tem a história não-Marqueana de Pedro e outro discípulo inspecionando a tumba, que, dada a independência de João para com Lucas, indica uma tradição separada por trás da história. Além do mais, nós já vimos que a independência de João quanto a Marcos mostra que ele tem uma fonte separada para a tumba vazia.
Os sermões antigos em Atos provavelmente não são criados por Lucas do nada mas representam a pregação antiga apostólica. Encontramos a tumba vazia implícita no contraste entre a tumba de Davi e de Jesus: “Davi morreu e foi sepultado e entre nós está até hoje a sua sepultura.” Mas “esse Jesus ressuscitou” (2:29-32; cf. 13.36-7). Finalmente, a terceira linha da tradição entregue por Paulo resume, como eu disse, a história da tumba vazia. O crítico de NT alemão Klaus Berger conclui: “Sem dúvida o túmulo de Jesus foi achado vazio, e, além do mais, os textos a respeito não são em geral dependentes de Marcos” (ZKT, 1993, p. 436).
Portanto, o sepultamento e tumba vazia de Jesus usufruem de uma atestação múltipla, antiga e independente. Enquanto algumas dessas tradições poderiam ter sido variações de uma tradição comum (tal como a tradição de Lucas e João da inspeção da tumba vazia por parte dos discípulos em resposta ao relato das mulheres), eles não podem todos ser vistos assim porque eles narram eventos diferentes. Mesmo no caso de variações em uma tradição comum, nós somos puxados para tão perto dos eventos, como Dunn enfatizou, que nós agora precisamos nos perguntar quais eventos ocorreram para deixar uma impressão tão antiga em uma tradição, e a explicação óbvia é o sepultamento de Jesus na tumba e a descoberta da tumba vazia. Enquanto que atestações múltiplas e independentes apenas não dariam ao sepultamento e tumba vazia uma “certeza virtual,” mantenha em mente que esta é apenas uma linha da evidência entre muitas, então o caso cumulativo para esses fatos é de fato muito poderoso.
- William Lane Craig