#713 Fundamentos para a crença na inspiração bíblica
February 03, 2021Olá, Dr. Craig.
Primeiramente, no seu estudo de inspiração bíblica, o senhor observa que o Novo Testamento afirma ser inspirado pelo próprio Deus, mas esta parece ser uma declaração circular, pragmaticamente falando. Isto porque o Novo Testamento estaria certo sobre a sua própria inspiração apenas se fosse inspirado, não é? Mas é exatamente isso que queremos saber. Poderia me ajudar?
Em Cristo,
Israel
Venezuela
Dr. Craig responde
A
Sempre gosto de receber perguntas sobre minha área atual de estudo, que até recentemente foi a doutrina das Escrituras, como parte do meu projeto de teologia filosófica sistemática.
A sua pergunta, Israel, envolve uma confusão que chega a surpreender de tão comum, mesmo entre estudiosos cristãos que escreveram sobre essa doutrina. A confusão envolve a confluência de duas questões diferentes, que foram muito bem distintas por Charles Hodge, teólogo de Princeton:
1. O que a Bíblia ensina em relação à natureza e efeitos da influência sob a qual foi escrita?
2. A Bíblia é o que afirma ser?[1]
A primeira é questão doutrinária; a segunda é questão apologética.
Não é, de modo algum, um círculo vicioso investigar a doutrina das Escrituras segundo as Escrituras e concluir que as Escrituras ensinam que são inspiradas por Deus (a primeira questão). Diferentemente do pressuposicionalista, no caso, não estamos preocupados com o modo como chegamos a ser justificados em crer nas afirmações de verdade cristãs (a segunda questão). Antes, queremos simplesmente perguntar quais são essas afirmações de verdade. É indisputável que a teologia cristã historicamente voltou-se à Escritura como a fonte básica do seu conteúdo doutrinário. Uma vez que a Escritura é a norma normans (norma normativa) da doutrina cristã, queremos saber o que ela ensina em relação a si mesma e, portanto, o que a religião cristã tem a dizer sobre as suas fontes normativas. Em seguida, podemos indagar a questão apologética: se e/ou como a crença nessa doutrina pode ser justificada.
Infelizmente, um crítico antipático como James Barr está totalmente alheio a esta distinção. Ele diz que o argumento que é “mais usado, sem cessar” por “fundamentalistas” é o seguinte: “A Bíblia é autorizada, inspirada e inerrante porque ela mesma assim o diz”.[2] Ele atribui este raciocínio confuso e circular não apenas a divulgadores populares, mas aos teólogos de Princeton, Charles Hodge, A. A. Hodge e B. B. Warfield. Barr descreve a doutrina dos princetonianos como se ela estivesse asseverando: “A Bíblia era inerrante porque foi inspirada... Mas por que foi inspirada? Porque fez afirmações inspiradas (e, portanto, inerrantes) de que foi inspirada. Fica claro que o argumento era circular”.[3] Esta caracterização do argumento dos princetonianos é confusa. Barr trata a afirmação de Charles Hodge sobre o fundamento da autoridade escriturística: “A infalibilidade e autoridade divina das Escrituras se devem ao fato de que são a palavra de Deus; e são a palavra de Deus porque foram dadas pela inspiração do Espírito Santo”, como se Hodge estivesse respondendo à pergunta acerca das razões para a crença na autoridade escriturística.[4] Hodge estava respondendo à primeira questão, mas Barr entendeu que ele estivesse respondendo à segunda!
É notável que Barr reconhece que Hodge distinguiu a segunda questão da primeira. Barr escreve:
Surge, porém, esta pergunta: como é que sabemos que o que a Bíblia ensina sobre inspiração é verdade? Em outras palavras, será que algum tipo de razão pode ser oferecido do porquê esta doutrina bíblica de inspiração deva ser aceita? A resposta de Hodge é que está além da esfera da teologia cristã discutir essa questão. “Depois de mostrar o que as Escrituras ensinam sobre o assunto, seria necessário mostrar que o que elas ensinam é verdade. Esta, no entanto, não é a posição do teólogo cristão” (p. 166). Ou seja, é pressuposição de qualquer atividade que se intitule teologia cristã que ela aceite, mesmo sem pedir uma razão, o ensino da Bíblia sobre uma questão assim.[5]
Barr transformaria Hodge e Warfield em pressuposicionalistas, muito embora, ao abordarem a segunda questão, eles tenham oferecido uma defesa robusta compatível com métodos críticos, em apoio à inspiração bíblica, com base no testemunho do Jesus histórico. Na citação acima, Hodge está simplesmente dizendo que tal tarefa não recai nos ombros do teólogo sistemático, que está obrigado apenas a responder à questão (1).
Por isso, conforme indica o teólogo filosófico Max Baker-Hytch, um teólogo pode apelar para as Escrituras de dois modos diferentes: (i) citando afirmações feitas pelas Escrituras a fim de demonstrar o que o teísmo cristão acarreta e (ii) usando uma afirmação feita pelas Escrituras como premissa em argumento.[6] O que eu estava fazendo tanto no meu capítulo quanto na Pergunta # 709 era (i), e não (ii), uma vez que estou escrevendo teologia sistemática, e não apologética.
Mais adiante no meu capítulo, porém, na seção final, “Justificação da crença na inspiração escriturística”, volto-me à questão (2). Richard Swinburne identifica três fatores que aumentam a probabilidade de uma afirmação revelatória cristã: (i) provas da existência de Deus; (ii) razões a priori advindas da natureza de Deus de que certas doutrinas se aplicam a Ele; e (iii) provas históricas relativas às afirmações históricas do cristianismo e, em particular, à ressurreição de Jesus.[7] Defendi todos estes pontos em minhas publicações. Tomar por certas estas considerações tornará mais fácil justificar o entendimento de que as Escrituras são revelação ou comunicação objetiva da parte de Deus.
Em relação aos fundamentos para aceitar as Escrituras como a Palavra de Deus, a Confissão de Westminster 1.5 afirma:
Pelo Testemunho da Igreja podemos ser movidos e incitados a um alto e reverente apreço pelas Escrituras Sagradas; a suprema excelência do seu conteúdo, a eficácia da sua doutrina, a majestade do seu estilo, a harmonia de todas as suas partes, o escopo do seu todo (que é dar a Deus toda a glória), a plena revelação que faz do único meio de salvar-se o homem, as suas muitas outras excelências incomparáveis e completa perfeição são argumentos pelos quais abundantemente se evidencia ser ela a Palavra de Deus; contudo, a nossa plena persuasão e certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provêm da operação interna do Espírito Santo que pela Palavra e com a Palavra testifica em nossos corações.
A genialidade desta declaração está na sua abordagem combinatória à justificação da crença na inspiração das Escrituras, o que, ao acrescentar razões múltiplas e independentes, aumenta a probabilidade da sua conclusão.
O destaque vai para o testemunho do Espírito Santo de que as Escrituras são a Palavra autorizada e infalível de Deus. Os cristãos ao redor do mundo e através dos milênios têm a experiência de que Deus lhes fala através das Escrituras. Eles experimentam as Escrituras como a Palavra de Deus para si. Este fenômeno de “experimentar como”, assim como o fenômeno bem correlato de “ver que”, é bastante conhecido em outros contextos.[8] Por exemplo, alguém que não esteja familiarizado com as regras do futebol pode, como nós, ver uma bola passar pelas traves, sem ver, porém, que marcaram um gol de placa. Alguém pode ter a experiência de que a ação de uma pessoa de confiança seja traição, ao passo que um terceiro desconhecido não experimentaria aquela mesma ação desse modo. Igualmente, os cristãos podem experimentar as Escrituras como Palavra de Deus. A sua verdade e autoridade são, por sua vez, implicação de que se trata da Palavra de Deus.
Segundo esta perspectiva, a crença nas Escrituras como Palavra de Deus é o que epistemólogos denominam de crença apropriadamente básica, fundamentada na experiência de ouvir as Escrituras como o falar de Deus. Trata-se de crença básica, pois não é inferida de outras crenças proposicionais mais fundamentais. É apropriadamente básica porque é apropriadamente fundamentada, e não simplesmente arbitrária. Entre epistemólogos contemporâneos, a racionalidade de tais crenças apropriadamente básicas é amplamente reconhecida.[9] Na ausência de algum derrotador, então, a crença de que as Escrituras são Palavra de Deus pode ser justificada epistemicamente.
Aceitar que a crença na inspiração escriturística é crença apropriadamente básica, fundamentada na nossa experiência das Escrituras como Palavra de Deus, não exclui que também façamos a defesa histórica da inspiração das Escrituras, conforme contemplada por Hodge e Warfield. Ao tomar como ponto de partida um tipo de teísmo cristão puro e simples, apela-se, primeira e principalmente, para os ensinos autorizados do Jesus histórico para avalizar a crença de que as Escrituras são Palavra de Deus. Tal defesa pode ser vista como confirmatória do testemunho do Espírito, segundo implicaram os teólogos de Westminster. Aqui vai uma simples formulação das premissas de tal argumento indutivo para a inspiração escriturística:
1. Deus existe.
2. Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos.
3. Se Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos, Deus ratificou os ensinos de Jesus.
4. Os ensinos de Jesus eram tais que poderiam ser interpretados plausivelmente como se implicassem a inspiração das Escrituras do Antigo e Novo Testamento.
Observe que (4) é elaborada com muita modéstia, deixando mais fácil justificá-la, pois permite que os ensinamentos de Jesus também tenham sido tais que poderiam ser plausivelmente interpretados como se não implicassem a inspiração das Escrituras do Antigo e Novo Testamento. Observe também que (4) é formulada de modo a permitir fronteiras turvas para o cânon, especialmente o cânon do Novo Testamento, ao falar das Escrituras neotestamentárias, isto é, livros incluídos no, mas não necessariamente coextensivos com, o Novo Testamento canônico. A outorga que Jesus fez de sua autoridade sobre os Doze apóstolos dá motivos para considerar que os escritos apostólicos têm a mesma autoridade no seu ensinamento, deixando-nos a investigação de quais livros são apostólicos. Muito cedo, os evangelhos e uma coleção de cartas de Paulo eram considerados Escrituras, no mesmo nível do Antigo Testamento. A título argumentativo, permanece questão em aberto se livros como Judas ou Hebreus deveriam ser incluídos entre os escritos apostólicos. Felizmente, não há muito que dependa doutrinariamente da resposta dada a esta questão, uma vez que os evangelhos e Paulo são adequados para uma formulação completa da doutrina cristã.
Além disso, conforme enxergaram os teólogos de Westminster, um crente em específico pode muito bem ter diversos motivos para a crença na inspiração escriturística, e neste caso um argumento probatório que estabeleça a sua conclusão em uma probabilidade menor do que 0,5 pode ter papel valioso numa defesa cumulativa da crença na inspiração escriturística. Ao fundamentar a crença na inspiração escriturística tanto na operação interna do Espírito Santo quanto no testemunho da história, temos bases mais firmes e, creio eu, suficientes para afirmar a inspiração escriturística que não são nem um pouco circulares.
[1] Charles Hodge, Systematic Theology, 3 vols. (reimpr.: Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans, 1940), I.153-154.
[2] James Barr, Fundamentalism, 2. ed. (Londres: SCM, 1981), p. 72.
[3] Barr, Fundamentalism, p. 263.
[4] Barr, Fundamentalism, p. 262.
[5] Barr, Fundamentalism, p. 262.
[6] Max Baker-Hytch, “Analytic Theology and Analytic Philosophy of Religion: What’s the Difference?” Journal of Analytic Theology 4 (May 2016), p. 351, 10.12978/jat.2016-4.120023010007a.
[7] Richard Swinburne, Revelation: From Metaphor to Analogy, 2. ed. (Oxford: Oxford University Press, 2007), pp. v-vi.
[8] Para a aplicação religiosa de “experimentar como”, ver John H. Hick, Philosophy of Religion, 2. ed., Foundations of Philosophy Series (Englewood Cliffs, N.J.: Prentice-Hall, 1973), pp. 61-63.
[9] Ver Tyler Dalton McNabb, Religious Epistemology, Cambridge Elements (Cambridge: Cambridge University Press, 2019).
- William Lane Craig