#826 Grandeza máxima e o número de pessoas divinas
April 02, 2023Dr. Craig,
Em “Trinity Monotheism Once More: A Response to Daniel Howard-Snyder” [Monoteísmo trinitário mais uma vez: resposta a Daniel Howard-Snyder], o senhor escreve: “Se Deus fosse uma alma dotada de um único conjunto de faculdades racionais, ele poderia fazer todas estas coisas. Por ser uma alma dotada de mais riqueza, será que Deus é, portanto, um tanto incapacitado?”.
Ao afirmar-se que a alma de Deus é “dotada de mais riqueza”, porque três é mais do que um, será que se sugere haver um ser concebível maior do que o Deus tripessoal? Se Deus possuísse dez conjuntos de faculdades cognitivas, cada uma das quais suficiente para a pessoalidade, será que Ele seria maior? Se sim, será que o modelo continuaria intacto? Não tenho certeza, mas imagino que seria possível manter o modelo ao deixar de lado a ideia de que três seja superior, de algum modo, a um.
Obrigado por dar atenção a esta pergunta. Sou grande fã do seu trabalho.
Deus abençoe.
Jack
Estados Unidos
Dr. Craig responde
A
Penso que você está pondo muito peso no meu uso da palavra “riqueza”, Jack. A minha intenção foi apenas no sentido de “abundância”, e não no sentido de implicar grandeza. Assim, um Deus dotado de dez conjuntos de faculdades cognitivas, cada qual suficiente para a pessoalidade, seria, de fato, dotado de modo mais abundante de faculdades racionais do que um Deus tripessoal, mas Ele não seria, com tudo isto, maior. Não há razão para pensar que o simples aumento do número de pessoas divinas aumente a grandeza de Deus.
Pois bem, penso, sim, que um Deus tripessoal é maior do que um Deus unitário, que é uma única pessoa. Porém, isto não se deve apenas a um aumento na numerosidade de pessoas. Antes, conforme argumentaram diversos filósofos cristãos, a perfeição moral essencial de Deus implica uma pluralidade de pessoas divinas. Deus é, por definição, o maior ser que se pode conceber. Como o maior ser que se pode conceber, Deus deve ser moralmente perfeito. Ora, um ser perfeito deve ser amoroso. Isto porque o amor é perfeição moral; é melhor que a pessoa seja amorosa, e não desamorosa. Deus, portanto, deve ser um ser perfeitamente amoroso. Ora, é da própria natureza do amor o doar-se a si mesmo. Assim, se Deus é perfeitamente amoroso em Sua própria natureza, Ele deve dar-Se em amor mútuo. Mas a quem dar esse amor? Não pode ser nenhuma pessoa criada, uma vez que a criação decorre do livre-arbítrio de Deus, e não da Sua natureza. É da própria essência de Deus amar, mas não é da Sua essência criar. Assim, podemos imaginar um mundo possível em que Deus é perfeitamente amoroso e, ainda assim, nenhuma pessoa criada existe. Por isso, pessoas criadas não podem explicar de modo suficiente a quem Deus ama. Segue-se daí que o outro a quem o amor de Deus, necessariamente, dirige-se deve ser interno ao próprio Deus.
Pois bem, a resposta óbvia a este argumento é dizer que ser perfeitamente amoroso requer nada mais além da disposição de amar um ao outro, caso a outra pessoa esteja presente. Um marinheiro abandonado e isolado numa ilha deserta, por exemplo, pode ser considerado amoroso em virtude da sua disposição para amar e não deve ser caracterizado como menos amoroso, por calhar de estar sozinho. Porém, o caso de Deus tem diferença crucial, na minha opinião. Isto porque Deus, como ser maximamente grande, não depende de circunstâncias contingentes para expressar o Seu amor. Ele pode criar as pessoas para amar, se necessário. No Seu caso, a Sua disposição essencial de doar-se em amor a outrem não pode ficar irrealizada. Um Deus unitário que tem o poder de criar pessoas para as quais Ele pode doar-se em amor, mas que se recusa a fazê-lo e contenta-se em permanecer só, não pode ser considerado perfeitamente amoroso, mesmo na sua disposição. No entanto, se Deus inclui em Si mesmo uma pluralidade de pessoas, não há nenhuma necessidade de criar pessoas para que a Sua disposição amorosa seja expressa.
Em outras palavras, Deus não é uma única pessoa isolada, como sustentam formas unitárias de teísmo, a exemplo do islamismo; antes, Deus é pluralidade de pessoas, conforme afirma a doutrina cristã da Trindade. Segundo a visão unitária, Deus é pessoa que não se doa a Si mesmo, essencialmente, em amor mútuo; essencialmente, Ele ama apenas a Si mesmo, e é questão contingente se Ele ama a outrem. Portanto, Ele não pode ser o ser mais perfeito. Contudo, segundo a visão cristã, Deus é uma tríade de pessoas em relações de amor eternas e altruístas. Assim, uma vez que Deus é essencialmente amoroso, a doutrina da Trindade é mais plausível do que qualquer doutrina unitária de Deus.
Este argumento implica que Deus é maior, caso haja uma pluralidade de pessoas divinas, mas não implica o número específico de pessoas divinas que deva haver. Alguns filósofos cristãos, notadamente Richard Swinburne, defendem a posição de que deve haver exatamente três pessoas divinas, mas não acho que os argumentos deles sejam convincentes. Devo dizer, entretanto, que não há nenhuma razão para pensar que a simples multiplicação do número de pessoas divinas magnifique ou torne alguém grande. Contento-me, pois, em firmar-me na afirmação de que Deus existir como trino é, simplesmente, uma propriedade essencial de Deus.
- William Lane Craig