#790 O multiverso e os meus homólogos
August 05, 2022O conceito do multiverso é algo ao que a cultura atual está familiarizada. Este ano testemunhou dois filmes muito populares (“Doutor Estranho no Multiverso da Loucura”; “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo”), grandes sucessos nos cinemas que receberam avaliações favoráveis. Os dois têm no seu enredo uma pessoa com muitas diferentes versões de si mesma, com mudanças superficiais através do multiverso. Exemplo: sou eu, mas com um emprego diferente ou aparência diferente. Embora esta seja compreensão popular de um conceito científico, ainda penso que aponta para algo ausente em meu (nosso) entendimento do multiverso. Se algum cerne de mim mesmo é o mesmo, mas sofre diferentes mudanças, o que significa o ego? Acho interessante que um filme sobre viagem do tempo seja lançado, e as pessoas tenham longas discussões sobre a lógica interna dele, mas tomem à letra a ideia do ego. Existem trabalhos modernos sobre o ego? Será que os materialistas podem sequer falar sobre o ego?
Seth
United States
Dr. Craig responde
A
O seu sentimento de desconfiança está correto, Seth! A hipótese do multiverso é muito semelhante à teoria modal do saudoso filósofo David Lewis, descrita como “realismo modal extremo”. Em oposição à maioria dos filósofos, Lewis pensou que os mundos possíveis não são entidades abstratas ou conceituais, mas universos espaço-temporais como o nosso. Dizer que, possivelmente, tenho emprego diferente ou aparência diferente é dizer que, em algum outro universo, existe um homólogo meu que se encaixa nessa descrição.
Não vou entrar nos motivos pelos quais a versão de Lewis da modalidade é amplamente rejeitada, pois o ponto relevante aqui é que Não sou idêntico a nenhum desses homólogos. A indiscernibilidade dos idênticos demanda que, se x e y são idênticos, x tem todas as mesmas propriedades que y e vice-versa. Assim, essas outras pessoas não são idênticas a mim; antes, são meros homólogos meus.
Por isso, você está bastante correto ao dizer que aqueles que pensam que eu mesmo exista nesses outros universos estão confusos quanto ao ego. O seu ego é singular e não existe em nenhum outro lugar, além daqui. Assim, não é verdade que “algum cerne de mim mesmo é o mesmo, mas sofre diferentes mudanças”. Esses homólogos são pessoas distintas de si mesmo; não há nenhuma outra pessoa que seja você. Portanto, não é preciso preocupar-se com o que lhes acontece; literalmente, isso não o afeta.
Você também mostrou bastante discernimento ao ver que a viagem no tempo também suscita questões interessantes sobre o ego. Isto porque, se a viagem no tempo no passado da pessoa for possível, seria possível visitar a si mesmo em tempo anterior, e neste caso haveria dois egos não-idênticos, dois “você”. Você seria distinto de si mesmo! A fim de evitar este problema, a grande maioria dos teóricos da viagem no tempo adotam a visão de pessoas como entidades quadridimensionais estendidas, cujos pedaços não-idênticos ou partes existem em diferentes tempos. Isto implica que você não é o mesmo indivíduo que existia um minuto atrás! Penso que isto dê boa razão para pensar que a viagem no tempo seja impossível, metafisicamente falando.
A bibliografia sobre o ego é gigantesca, nas discussões do problema da mente e corpo. Como introdução, veja o que meu colega J. P. Moreland escreveu em Filosofia e cosmovisão cristã, 2.ed.rev. (São Paulo: Vida Nova, 2021). Ali, você encontrará discussão sobre o desafio que o ego apresenta aos filósofos materialistas.
- William Lane Craig