#324 Maldade Gratuita e Discernimento
May 16, 2015Caro Dr. Craig,
Devo admitir de cara que eu sou um ateu, um nietzschiano e um profundo cético moral. Acho a lacuna é-deveria ser de Hume convincente e, apesar de não negar que eu tenho sentimentos morais, eu acho que é mais sensível explicá-los como experiências psicológicas humanas, não como "percepções" de normas morais objetivas.
Minha pergunta é sobre a sua resposta para o problema do mal natural gratuito. Em seu debate com Walter Sinnott-Armstrong você respondeu a suas hipóteses sobre bebês que morrem de doenças dolorosas, dizendo que nos falta o escopo completo de entendimento para avaliar a retidão moral da não-intervenção de Deus. Seu argumento faz perfeito sentido. Falta-nos a onisciência de Deus por isso não podemos julgar se permitir que um bebê morra de uma doença horrível irá de alguma forma prevenir um terrível mal ou permitir um grande bem. Na verdade, há, provavelmente, muitas restrições em nosso julgamento moral em comparação com um ser perfeitamente bom!
Mas a sua resposta para o problema do mal natural gratuito parece criar um problema para as pessoas que querem ser morais. Eu considero a morte de um bebê por uma doença dolorosa como um mal moral e eu julgo Deus como um monstro imoral por permitir que isso aconteça. Mas a sua resposta sugere que o meu julgamento é um erro: como eu sei que Deus não tem alguma razão maior por permitir aquele sofrimento? Mas isso não significa que todos os meus julgamentos morais são possivelmente errados? Se eu não tenho o conhecimento e o alcance da cognição para julgar Deus como imoral por permitir que um bebê morra de uma doença horrível, não sou da mesma forma desqualificado para julgar um ser humano que pode curar um bebê morrendo, mas opta por não fazê-lo? Indo ainda mais longe, se eu vejo alguém prestes a morrer em um tsunami, eu deveria tentar salvá-lo? E se Deus está tentando realizar um bem maior permitindo que a pessoa morra?
Em suma, se não estamos em posição de julgar a moralidade das ações ou omissões de Deus, como é que estamos em posição de julgar as ações morais um do outro ou até mesmo para tomar decisões morais em primeiro lugar? Como o bebê atingido pela doença mostra, o meu juízo moral pode errar. Como posso saber, então, quando o meu julgamento moral é um erro? Se eu assumir que a sua resposta para o problema do mal é correta, então o meu senso moral erra com bastante frequência, geralmente em resposta a todo o mal natural horrível que nos rodeia. Será que isso não faz a tentativa de se comportar moralmente absurda?
Tudo de bom,
Nick
Estados Unidos
United States
Dr. Craig responde
A
Concordo inteiramente com você, Nick, que um ateu como você deveria ser um cético e anti-realista moral. Mas você precisa colocar-se no lugar do teísta e perguntar se ele enfrenta o mesmo problema que o nietzschiano. Afinal de contas, foi a morte de Deus que levou Nietzsche a proclamar o advento do niilismo. Mas o teísta tem os recursos para fundamentar valores e deveres morais objetivos. Simplesmente não há uma boa razão para ser cético moral, a menos que você tenha algum tipo de argumento muito poderoso para o ateísmo, um argumento cujas premissas são atestadas ainda mais poderosamente do que a existência de valores e deveres morais objetivos. Mas qual poderia ser esse argumento? Você mesmo reconhece que o argumento do mal, aparentemente gratuito no mundo, não vai funcionar por causa da inviabilidade de provar que o mal que vemos é, na verdade, gratuito. Então, que justificativa há para ser ateu e, portanto, um cético moral?
Agora você caracteriza minha resposta à afirmação de Sinnott-Armstrong, que muito do mal no mundo é gratuito, da seguinte forma: "nos falta o escopo completo de entendimento para avaliar a retidão moral da não-intervenção de Deus." Este é um mal-entendido, Nick. A reivindicação de Sinnott-Armstrong foi que grande parte do mal no mundo é gratuito, ou seja, inútil ou desnecessário. É essa declaração que eu estou atacando. Dadas as nossas limitações históricas e cognitivas, eu acho que simplesmente não estamos em uma posição de dizer, com qualquer tipo de confiança, que o mal que observamos no mundo é inútil ou desnecessário.
Não estou, contudo, defendendo consequencialismo como uma teoria de ética. De acordo com o consequencialismo, o certo e o errado moral de uma ação são determinados unicamente pelas suas consequências. Esta é uma teoria horrível de ética. No consequencialismo se o seu torturar e estuprar uma menina, de alguma forma, em última análise, redundar no benefício da humanidade, então não somente essa ação é moralmente permissível para você, mas você está moralmente obrigado a fazê-la! Em vez disso, eu defendo que temos certas obrigações a cumprir, mesmo que nenhuma consequência boa resulte, e determinadas proibições a obedecer independentemente dos benefícios que poderiam advir de desrespeitar os nossos deveres. Como um teísta, eu vejo os nossos deveres morais como fundamentados nos mandamentos de Deus, que são reflexos do seu caráter santo e amoroso, e não nas consequências.
Quanto às próprias ações de Deus, eu não acho que Deus tem quaisquer direitos morais a cumprir, uma vez que Ele provavelmente não emite comandos para Si! Por isso, não faz sentido falar de acerto ou erro moral das ações de Deus. O que podemos perguntar é se Sua atuação de certa forma seria consistente com o Seu caráter. Seria coerente com Seu caráter, por exemplo, não intervir para salvar um bebê de morrer de uma doença horrível ou alguém de perecer em um tsunami? E eu acho que a resposta é, sim, Deus pode ter boas razões para não intervir em tais situações e assim não age contrariamente ao seu caráter.
Então suponha que eu sou uma pessoa que quer fazer o seu dever moral. Eu sou um médico que pode salvar um bebê de morrer de uma doença. Eu tenho a obrigação de fazê-lo? Claro que sim, todas as coisas sendo iguais. Porque Deus nos ordenou: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo." Eu iria violar este comando se eu não tentasse salvar o bebê. É claro que todas as coisas não são sempre iguais: suponha que eu estou no meio de uma cirurgia crítica e não posso sair para salvar o bebê sem perder o paciente. Então, o amor ao meu próximo não me obriga a abandonar o paciente pelo bebê. É por isso que a tomada de decisão moral, às vezes, pode ser tão difícil.
Mais uma vez, todas as coisas sendo iguais, você deve tentar salvar a pessoa ameaçada pelo tsunami. (Mas se isso significa, por exemplo, abandonar seus próprios filhos para se afogarem a fim de fazê-lo, então você não está obrigado.) "E se Deus está tentando realizar um bem maior permitindo que aquela pessoa morra?" Não importa! Você tem um dever objetivo de cumprir o que Deus colocou sobre você. Você cumpre o seu dever e deixa para Deus o ajustar as consequências. Afinal, Ele sabia de antemão se você iria tentar salvar essa pessoa ou não, e colocou isso em Seu plano. Não é como se você fosse estragar seu plano providencial ao intervir!
Tudo o que foi dito até agora é preliminar para a sua verdadeira pergunta: "como é que estamos em posição de julgar as ações morais um do outro ou até mesmo para tomar decisões morais em primeiro lugar?" A resposta é que não discernimos os nossos deveres morais tentando olhar para o futuro e determinando se as consequências de nossas ações são, na balança, boas ou ruins. Em vez disso (1) Deus escreveu a Sua lei moral em nossos corações (Romanos 2:14-15), de modo que temos intuições morais dadas por Deus para nos dirigir; (2) Deus nos revelou a Sua lei moral nas Escrituras, por exemplo, os Dez Mandamentos e o Sermão da Montanha; e (3) Deus criou o homem à Sua imagem, de modo que cada pessoa é investida com valor moral intrínseco e, portanto, deve ser tratada como um fim e não um meio. Embora esses guias não tornem a tomada de decisão moral sempre fácil, eu acho que é frequentemente muito claro qual o meu dever moral na maioria das situações cotidianas. (É fazer isso, e não discernir, que é difícil!)
Em suma, se o consequencialismo fosse verdade, então você estaria absolutamente certo de que nunca poderíamos determinar nossos deveres morais. Esta é uma das críticas mais familiares (e devastadoras) de teorias morais consequencialistas como o utilitarianismo. Alguma ação que parece horrível a curto prazo, poderia vir a ser um grande benefício para a humanidade, e uma ação que parece ser benéfica poderia vir a ser desastrosa a longo prazo. Podemos ser gratos que Deus não nos abandonou a tal caos moral, mas nos deu recursos para ajudar a discernir Sua vontade moral para as nossas vidas.
- William Lane Craig