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#835 Por que a minha alma age neste corpo específico?

June 11, 2023
Q

Sou grande fã do seu trabalho, Dr. Craig. A minha pergunta diz respeito ao que, especificamente, une a alma à mente física da pessoa. O senhor falou, no passado, sobre como ser humano é ser um composto de corpo e alma, com o espírito e os mecanismos físicos do universo a operarem em conjunto. O espírito ou mente toma decisões voluntárias, que agem no cérebro físico e executam ações físicas na nossa realidade.

O que, na sua opinião, une o espírito ou mente, especificamente, a um único corpo ou cérebro? Por que é que uma mente humana só pode agir no corpo físico ao qual foi “atribuída”, na falta de um termo melhor, e não a alguma outra coleção de matéria e partículas?

Obrigado, e Deus abençoe.

Jacob

Estados Unidos

Dr. Craig responde


A

O problema que você aponta, Jacob, é conhecido, na literatura filosófica, como “o problema do pareamento causal”. Conforme explicado por Jaegwon Kim, o problema é como explicar a conexão causal entre uma causa específica e um efeito específico.[i] No caso de substâncias físicas, a conexão causal entre dois eventos existe em virtude das suas relações espaciais, tal qual a sua orientação espacial e o caminho em que se encontra a cadeia causal entre elas. Porém, supondo que a alma, por ser imaterial, não esteja localizada no espaço, a conexão causal entre eventos mentais e eventos físicos é considerada inexplicável.

Para ilustrar o problema, somos convidados a imaginar duas almas, A e B, que estão no mesmo estado mental — por exemplo, desejosas de levantar o braço esquerdo do corpo de alguém. Se as almas não estão localizadas no espaço, nos seus respectivos corpos, não parece haver nenhuma explicação para por que o desejo de A faz com que o braço de A se levante, em vez do braço de B. Não se pode dizer que a explicação se encontra no fato de que o corpo em questão seja o corpo de A, pois a razão de ser o corpo de A é a conexão causal de A com ele, de modo que tal explicação entraria num círculo vicioso. O dualismo, portanto, parece incapaz de explicar o pareamento de causas mentais com os seus efeitos físicos.

O problema do pareamento causal segundo Kim envolve duas afirmações: (1) a causação exige relações de pareamento a conectarem uma causa ao seu efeito e (2) não há relações assim para mentes, porque não estão localizadas no espaço. Ambas as alegações podem ser desafiadas.

Em relação a (2), os dualistas que mantêm que as almas existem no espaço em e por todos os seus corpos não se abalarão com a objeção de Kim, uma vez que as almas satisfazem com sucesso a condição de serem conectadas causalmente aos seus efeitos. A objeção permanece, sim, relevante aos interacionistas dualistas que pensam não terem as almas localizações espaciais. Mas, então, a questão se torna por que devemos pensar que apenas relações espaciais podem parear uma causa ao seu efeito. À primeira vista, parece algo restritivo demais.[ii]

Quanto a (1), a alegação supõe que deve haver alguma relação de pareamento a conectar causas e os seus efeitos. Por que pensar assim?[iii] Kim não o diz. Bailey, Rasmussen e Van Horn especulam: “Temos uma suspeita quanto à razão subjacente para pensar que há uma relação de pareamento: exige-se o pareamento, porque a satisfação de uma condição de generalidade é necessária para a causação” — por exemplo:

(CG) Necessariamente, se A e B partilham de todas as suas propriedades qualitativas, A não é mais qualificado a ser considerado a causa de C quanto o é B.

Ora, Kim pressupõe a verdade da causação de eventos, a visão segundo a qual relações causais se sustentam apenas entre eventos. Porém, muitos interacionistas dualistas adotam a causação de agentes, a visão segundo a qual agentes produzem efeitos por meio das suas ações. Bailey et al. argumentam que a agência causal libertária constitui-se exceção a qualquer condição de generalidade como (CG) a estipular que causas qualitativamente indistinguíveis (como almas) não possam ter efeitos diferentes:

É comum que os imaterialistas em relação às pessoas humanas pensem que a pessoa pode gozar de poderes causais de agente que lhe permitam escolher uma ação entre uma gama de ações alternativas. Esta ideia é que nenhuma propriedade instanciada antes do tempo da ação do agente fixa, exatamente, qual ação a pessoa executa... Pensamos que tais imaterialistas aceitariam de bom grado, além disso, que agentes indistinguíveis teriam (ou, ou menos, poderiam ter) as mesmas capacidades causais. Ora, considere um mundo em que duas pessoas, Tim e Tom, sejam exatamente semelhantes em todos os aspectos... Suponha que Tim e Tom tenham disponíveis, individualmente, as mesmas duas opções: causar A ou abster-se de causar A. Se Tom calhar de causar A, enquanto Tim se abstiver, teremos uma situação em que CG falhará. A razão é que Tom e Tim são indistinguíveis, mas, ainda assim, Tom é considerado a causa de A, ao passo que Tim não.[iv]

Se agentes livres libertários são causas de efeitos, uma alma poderia ser a causa de um efeito físico específico, mesmo que nada a distinga, qualitativamente, de outra alma. Gregory Ganssle conclui que “o argumento de Kim só funcionará contra as versões do dualismo que não incluam a visão da causação de agentes. Qualquer posição que envolve este tipo de agência estará imune ao argumento de Kim”.[v]

O intrigante é que, uma vez que o argumento de Kim tem a intenção de sustentar-se em relação a substâncias mentais imateriais em geral, deveria haver uma versão teológica dele, denominada de problema do pareamento causal divino.[vi] O desafio, no caso, é explicar, dada a transcendência de Deus em relação ao espaço, por que os Seus eventos mentais estão causalmente conectados a certos eventos no mundo físico, e não a outros.

Felizmente, é difícil sequer afirmar o problema do pareamento para a atividade causal de Deus de maneira que não pareça um tanto tola. Por exemplo, Ganssle escreve: “Se precisamos de alguma relação a estar presente para vincular causa e efeito, precisaremos de um vínculo entre o desejo de Deus e o seu efeito. Deus deseja que o mar Vermelho se abra. O que faz com que isto resulte na abertura do mar Vermelho, em vez do mar Mediterrâneo?”.[vii] É desconcertante como uma pergunta dessas pode sequer ser feita em relação a um ser onipotente cujas volições são, inevitavelmente, satisfeitas. A vontade de tal ser é indefectível — necessariamente, está ligada ao seu efeito.[viii] É metafisicamente impossível que Deus deseje a abertura do mar Vermelho e, em vez disso, abra-se o Mediterrâneo. Assim, embora, para algumas causas físicas, como uma pedra a bater e quebrar uma janela, “a relação espaço-temporal seja suficiente para mapear a causa a um efeito específico”, diz Ganssle, “é possível que, quando Deus age, é o objeto direto da sua volição que mapeia a causa ao efeito pretendido”.[ix] De fato, necessariamente, tudo que Deus quer será feito, assim na terra como no céu.


[i] Jaegwon Kim, Physicalism, or Something Near Enough (Princeton: Princeton University Press, 2005), pp. 78–88.

[ii] Conforme apontam Andrew M. Bailey, Joshua Rasmussen e Luke Van Horn, “No pairing problem”, Philosophical Studies 154 (2011): 349-360, a alegação de Kim implica que a singularidade cosmológica inicial exibida no modelo convencional do Big Bang não poderia ter sido causada, dado que se considera que a singularidade representa o começo da existência do espaço.

[iii] Plantinga protesta:

“Será que é tão claro assim que, em qualquer caso de causação, deva haver este fator X que pareia o evento A com o evento B, fazendo com que A seja a causa de B? ... por que devemos supor que há um tal fator X? Considere a questão parecida e tão frequente sobre a identidade ao longo do tempo. O que é que faz com que o objeto A, no tempo t, seja idêntico ao objeto B em algum momento anterior t*? ... Muitas respostas foram propostas, mas nenhuma parece funcionar. E talvez a resposta correta à pergunta seja: não há nada (nada mais, por assim dizer) a fazer com que A seja idêntico a B. A identidade não tem de sobrevir a outras propriedades. Será que não poderia ser assim também no caso da causação?” (Alvin Plantinga, “Materialism and Christian Belief”, in Persons: Human and Divine, ed. Peter van Inwagen e Dean Zimmerman [Oxford: Oxford University Press, 2007], p. 132).

[iv] Bailey, Rasmussen, and Van Horn, “No pairing problem”, p. 354.

[v] Gregory E. Ganssle, “Divine Causation and the Pairing Problem”, in Divine Causation, ed. Gregory E. Ganssle (Londres: Routledge, 2022), p. 272.

[vi] Ganssle, “Divine Causation and the Pairing Problem”, p. 269. Bailey, Rasmussen e Van Horn, “No pairing problem”, p. 351, observaram anteriormente esta consequência da objeção de Kim.

[vii] Ganssle, “Divine Causation and the Pairing Problem”, p. 274.

[viii] Conforme nos lembram Mullins e Byrd, “A teologia cristã clássica está... comprometida com o infalível poder causal de Deus. O poder causal de Deus é infalível porque, se Deus deseja ou causa algum estado de coisas x, não é possível que x não venha a acontecer. Por vezes, isto é captado com a afirmação de que, se Deus age intencionalmente para produzir algum estado de coisas, tal estado de coisas é, hipoteticamente, necessário” (R. T. Mullins e Shannon Eugene Byrd, “Divine Simplicity and Modal Collapse: A Persistent Problem”, European Journal for Philosophy of Religion [no prelo]). Assim, em resposta à pergunta: “Qual é o fator X no caso da suposta causação divina?”, Plantinga resposta: “aqui parece haver uma resposta fácil. De acordo com o teísmo clássico, é verdade necessária que tudo que Deus deseja, ocorre... Assim, o que é que faz com que as intenções de Deus causem o que causam? Fazer esta pergunta é como perguntar: ‘O que é que faz de um triângulo equiangular um triângulo equilátero?’. A resposta é a necessidade lógica (em linhas amplas); é necessário que tudo que Deus deseja venha a ser, assim como é necessário que todo triângulo equiangular seja equilátero” (Plantinga, “Materialism and Christian Belief”, p. 133).

[ix] Ganssle, “Divine Causation and the Pairing Problem”, p. 276.

- William Lane Craig