#79 Molinismo e Eleição Divina
January 14, 2015Prezado Dr. Craig,
Eu sou um ateu que, atualmente, estou lendo seu livro Reasonable Faith, e devo começar dizendo quão interessante e desafiador seu livro tem sido até agora! Estou ansioso para ler mais a respeito de suas ideias em seus outros livros também e, como um membro da “oposição leal”, eu o aplaudo por um trabalho bem feito em sua busca pela verdade.
Eu tenho duas perguntas bem diferentes. Obrigado desde já pelo seu tempo e consideração ao abordá-las. Aguardo sua resposta.
Primeiro, em um dos capítulos iniciais do seu livro Reasonable Faith, você afirma construir o fundamento para a ressurreição de Cristo por Deus por meio da elaboração de uma defesa cumulativa para a existência de um Criador divino, pessoal, moral e poderoso que é temporal com nosso universo e, então, fundamentado por essa sua defesa, você alega que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos.
Eu fiquei pensando, então, se seria válido para um ateu em um debate com você apresentar, da mesma forma, uma defesa cumulativa para a inexistência de Deus como você O define e, de forma similar ao seu método, concluir que, no máximo, Jesus foi ressuscitado dentre os mortos por meio de algo diferente do Deus que você define em seu caso cumulativo – concluindo, portanto, que o cristianismo é falso mesmo se uma ressurreição histórica é certa.
É claro que eu sei que você provavelmente defende que contra-argumentos ao seu caso são inválidos, mas quero saber se você acha que tal método da parte de um ateu seria, por si só, logicamente conclusivo contra o cristianismo se você assumisse, apenas para fins de argumentação, que todas as premissas do ateu são verdadeiras.
2. Em Romanos 9, Paulo descreve Jacó e Esaú como sendo amado e odiado (ou “menos amado”) antes deles terem feito qualquer coisa boa ou ruim. Paulo prossegue, então, nos igualando ao barro moldado pelo oleiro, e afirma que não é a vontade daquele que corre, mas a daquele que mostra misericórdia que nos salva. Paulo cita Deus dizendo ao Faraó: “Para isto mesmo que eu te levantei...” e então discute a ideia que os vasos que Deus fez para “uso comum” estão ali apenas para o propósito de mostrar Sua paciência para com seus vasos mais especiais.
Muitos reformados acham que esta passagem mostra dupla predestinação e eleição incondicional, e sou forçado a concordar com eles - como também concordou o próprio Cristo em João 6:65! O Deus reformado é algo que eu vejo como tirânico e indigno de adoração e, de fato, é difícil para alguém fora da fé responder à interpretação calvinista de Romanos 9 com qualquer coisa que não seja ódio: como o proeminente acadêmico reformado James White descreve esse capítulo de Romano, “Eu entendo que a única forma pela qual alguém pode acreditar nisso é por um ato de graça”.
Na minha visão, isso derruba sua posição de molinismo, já que alguém não pode livremente escolher Deus por si só em qualquer condição em potencial sem a ajuda prévia de Deus. Além disso, o contexto da história relacionada em João 6 tem discípulos abandonando Cristo, levando-o a dizer o que diz em 6:65 e provando que Cristo não é oferecido como um presente gratuito para todos! O que sobra para a liberdade do homem de escolher Cristo diante dessas passagens?
Agradeço graciosamente por seu tempo,
Darrin
United States
Dr. Craig responde
A
Molinismo e Romanos 9
Deixe-me dizer já de início, Darrin, o quanto eu aprecio o tom de sua carta. Apesar de você discordar comigo em suas ideias, sua carta é um modelo de civilidade, que todos nós faríamos bem em imitar. É um prazer responder suas perguntas.
Primeiro, quanto a viabilidade de esboçar uma perspectiva ateísta sobre a historicidade da ressurreição de Jesus em paralelo à defesa que construo a favor dela, me parece que isso, de fato, é a melhor esperança de sucesso para um ateu. Primeiro apresente argumentos contra o teísmo, como o problema do sofrimento ou a impossibilidade de pessoas não incorporadas, para que quando você se voltar para a evidência em favor da ressurreição não exista tal pessoa sobrenatural para apelar a fim de explicá-la.
Note, porém, uma diferença potencialmente significativa entre os dois casos: no caso de teísmo, a evidência para a ressurreição de Jesus é, em si mesma, confirmatória para o teísmo (veja o ótimo artigo por Timothy e Lydia McGrew no livro Blackwell Companion to Natural Theology [Guia Blackwell para a Teologia Natural], ed. Wm. L. Craig e J. P. Moreland, que em breve serápublicado), de forma que a adição da evidência em favor da ressurreição de Jesus serve para aumentar ainda mais a probabilidade do teísmo. Em contraste, para o ateu, a evidência para a ressurreição tende a ser não confirmatória para o ateísmo, de forma que a evidência enfraquece o caso original anti-teísta e diminui a probabilidade do ateísmo. Se alguém estima que a evidência em favor da ressurreição de Jesus é forte, pode ser que essa evidência se sobreponha à probabilidade dos argumentos que você deu para o ateísmo, fazendo com que, no final, o teísmo pareça uma alternativa muito boa. De qualquer forma, o caso para o ateísmo parecerá mais fraco depois de levar em conta a evidência para a ressurreição de Jesus do que antes.
Molinismo e Romanos 9 - Eleição era compreendida como parte da identidade Judaica
Em segundo lugar, vamos falar sobre a doutrina de eleição de Paulo em Romanos 9. Quero compartilhar com você uma perspectiva sobre o ensinamento de Paulo que acredito que você achará bastante esclarecedora e encorajadora. Tipicamente, como um resultado da Teologia Reformada, temos a tendência de ler Paulo e entender que ele está diminuindo o escopo da eleição de Deus para alguns poucos selecionados, e aqueles que não são escolhidos não podem reclamar se Deus, em Sua soberania, os preteriu. Acredito que esta é uma interpretação fundamentalmente errada do capítulo e que faz pouco sentido no contexto da carta de Paulo.
Anteriormente em sua carta Paulo responde à pergunta de qual a vantagem da identidade Judaica se alguém falha em viver de acordo com as exigências da lei (2. 17-3.21). Ele diz que apesar de ser Judeu ter ótimas vantagens em ser o recipiente dos oráculos da revelação de Deus, ainda assim isso não significa que os Judeus têm qualquer possessão automática da salvação de Deus. Em vez disso, Paulo faz a afirmação radical e chocante que "porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. Mas é judeu aquele que o é interiormente, e circuncisão é a do coração, no espírito, e não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus." (2. 28-29).
Paulo mantinha que “pelas obras da lei nenhum homem será justificado diante dele;” (3.20); ao invés disso "concluímos pois que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei.” (3. 28). Isso inclui tanto gentios quanto Judeus. "É porventura Deus somente dos judeus? Não é também dos gentios? Também dos gentios, certamente, se é que Deus é um só”(3. 29-30).
Você entende o que isso significava para os contemporâneos Judeus de Paulo? Os “cachorros” gentios que tem fé em Cristo podem, na verdade, ser mais Judeus do que os Judeus étnicos e entrarem no Reino enquanto o povo escolhido de Deus é deixado de fora! Impensável! Um escândalo!
Paulo continua dando suporte à sua ideia ao apelar para o exemplo de ninguém menos do que Abraão, o pai da nação judaica. Abraão, Paulo explica, foi pronunciado justificado perante Deus antes de receber a circuncisão. “O propósito”, diz Paulo, foi “para que fosse pai de todos os que crêem, estando eles na não circuncisão [os gentios], a fim de que a justiça lhes seja imputada, bem como fosse pai dos circuncisos, dos que não somente são da circuncisão [note a qualificação!], mas também andam nas pisadas daquela fé que teve nosso pai Abraão, antes de ser circuncidado.” (4.11-12).
Molinismo e Romanos 9 - A eleição de Deus é ampliada para incluir Gentios
Isso é um ensino explosivo. Paulo começa o capítulo 9 expressando sua profunda tristeza pelo fato de que Judeus étnicos perderam a salvação de Deus ao rejeitar seu Messias [=Cristo]. Mas ele diz que não é que a palavra de Deus falhou. Em vez disso, como nós já vimos, “Porque nem todos os que são de Israel são israelitas; nem por serem descendência de Abraão são todos filhos;” (9.6-7). Ser Judeu etnicamente não é suficiente; mas deve ser filho da promessa - e isso, como nós vimos, pode incluir gentios e excluir judeus.
Assim, a problemática com a qual Paulo está lutando é como o povo escolhido de Deus poderia falhar em obter a promessa da salvação enquanto os gentios, que eram vistos pelos Judeus como impuros e execráveis, poderiam encontrar salvação. A resposta de Paulo é que Deus é soberano: ele pode salvar quem Ele quiser, e ninguém pode ir contra Deus. Ele tem a liberdade de ter misericórdia para com quem Ele quiser, mesmo sobre gentios execráveis, e ninguém pode reclamar de injustiça da parte de Deus.
Assim - e esse é o ponto crucial - quem Deus escolheu para salvar? A resposta é: aqueles que têm fé em Jesus Cristo. Como Paulo escreve em Gálatas (que é mais ou menos um tipo de Romanos abreviado), “Sabei, pois, que os que são da fé, esses são filhos de Abraão”. (Gal. 3. 7). Judeu ou gentio, não importa: Deus soberanamente escolheu salvar todos aqueles que confiam em Cristo Jesus para salvação.
É por isso que Paulo pode continuar em Romanos 10 dizendo, "Porquanto não há distinção entre judeu e grego; porque o mesmo Senhor o é de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque ‘Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo’”. (10. 12-13). A Teologia Reformada não pode dar sentido a esse chamado maravilhoso e universal para a salvação. Quem quiser pode vir.
Dessa forma, o objetivo de Paulo em Romanos 9 não é o de restringir o alcance da eleição de Deus, mas de expandi-lo. Ele quer incluir todos os que têm fé em Cristo Jesus, independentemente de sua etnia. Eleição, então, é primeiramente uma noção corporativa: Deus escolheu para si um povo, uma entidade corporativa, e está no nosso controle pela nossa resposta de fé se nós escolhemos ser ou não membros daquele grupo corporativo destinado à salvação.
Molinismo e Romanos 9 - Aqueles que rejeitam a Cristo livremente escolhem fazê-lo
Claro que, dada a total providência de Deus sobre os assuntos dos homens, esta não é a história completa. Mas o molinismo explica bem o restante. João 6:65 significa que, à parte da graça de Deus, ninguém pode vir a Deus sozinho. Mas não existe sugestão ali de que aqueles que se recusam a acreditar em Cristo não o fazem por livre escolha. Deus sabe exatamente em quais circunstâncias as pessoas irão livremente responder à Sua graça e coloca pessoas em circunstâncias nas quais cada uma delas recebe graça suficiente para a salvação se tão somente essa pessoa aproveitar a oportunidade. Mas Deus sabe quem irá responder e quem não irá. Portanto, novamente, não é culpa de Deus que algumas pessoas livremente resistem à graça de Deus e a cada esforço para salvá-las; eles, assim como Israel, falham em alcançar a salvação porque eles se recusam a ter fé.
- William Lane Craig