#110 Prova da Ressurreição
January 14, 2015Se é impossível oferecer provas da ressurreição de Jesus, devemos assumir que ela nunca ocorreu? Abaixo, Dr. Craig oferece três razões pelas quais argumentar que devemos negar a ressurreição por causa da falta de evidência física é um erro. Ele demonstra como o cético entendeu de forma errada o escopo das afirmações da ressurreição, como o argumento para a ressurreição não é um argumento dedutivo mas uma inferência para a melhor explicação e como a ressurreição funciona como vindicação das alegações radicais de Jesus. O apologista não afirma ter prova irrefutável da ressurreição de Jesus, mas alega ter boas razões para acreditar que ela aconteceu.
Pergunta:
Tenho visto um argumento contra a ressurreição de Jesus que tem rodado na internet. O argumento, basicamente, diz o seguinte:
1. Se não pode ser estabelecido que Jesus transformou-se em um corpo sobrenatural após ter ressuscitado dos mortos, então a ressurreição não pode ser estabelecida.
2. Não pode ser estabelecido que Jesus se transformou em um corpo sobrenatural após ter ressuscitado dos mortos.
3. Portanto, a ressurreição não pode ser estabelecida.
O argumento parece dizer que mesmo que Jesus tenha, de alguma forma, sobrevivido à morte, não há evidência alguma de que ele ressuscitou em um corpo imortal/indestrutível. Portanto, o argumento concede um certo tipo de ressurreição, mas não o tipo de ressurreição sobrenatural que o Novo Testamento descreve. Assim, as alegações divinas de Cristo não podem ser estabelecidas pelas evidências da ressurreição.
Uma ilustração que frequentemente aparece junto com esse argumento é a de um homem que afirma ser a prova de balas e derreter objetos com laser vindo de seus olhos. Mesmo que ele demonstre isso, alguém deveria acreditar em sua declaração de que ele poderia resistir a uma explosão de uma bomba nuclear? O cético diz que não, porque uma explosão nuclear é muito maior do que um mero tiro de arma e lasers.
Da mesma forma, mesmo se Jesus voltou a vida, isto é infinitamente inferior a sua afirmação de que ele era Deus! Você pode ajudar?
Sinceramente,
Don
United States
Dr. Craig responde
A
Prova da Ressurreição de Jesus
O argumento parece assumir que alguém deve estabelecer prova da ressurreição de Jesus provando, primeiro, que Ele tinha um corpo sobrenatural depois que foi ressuscitado. Isso não é um argumento contra a ressurreição de Jesus, Don. Na verdade, é uma tentativa de provar que você não pode inferir justificadamente a ressurreição de Jesus com base nas evidências empíricas. Não é uma tentativa de refutar a ressurreição de Jesus, mas de tirar a legitimidade do argumento histórico para a ressurreição de Jesus. Como tal, ele é do interesse do apologista cristão, mas a maioria dos cristãos não precisa se preocupar com ele, uma vez que eles não baseiam sua crença na ressurreição de Jesus em evidências históricas.
Esta objeção contra um caso histórico para a ressurreição de Jesus deve sua origem a Greg Cavin, que publicou um artigo sobre isso no periódico Faith and Philosophy há alguns anos. O ponto principal do argumento é que, mesmo que tudo o que os evangelhos registram a respeito de Jesus fosse estabelecido como verdade, a inferência para a ressurreição de Jesus é injustificável porque “ressurreição” em um sentido judaico completo do termo significava passar para uma condição corporal imortal e indestrutível. Mas como você poderia provar que o Jesus pós-páscoa poderia ter sobrevivido à explosão de uma bomba nuclear? Se você não pode provar isto, então você não provou a ressurreição de Jesus em um sentido teológico e completo do termo.
Preciso dizer com toda a sinceridade que esta objeção sempre me pareceu um mero sofisma. Ela poderia ter sido feita, perversamente, até mesmo por uma das próprias testemunhas oculares da ressurreição de Jesus, como o Tomé duvidoso, o que certamente sugere que algo está errado com essa objeção.
Na verdade, o argumento tem diversos problemas. Primeiro, o apologista cristão não alega ter prova da ressurreição de Jesus. Na realidade, não é necessário entender o que o apologista faz como uma defesa da ressurreição de Jesus no sentido teológico completo da palavra. Você perceberá que, no meu próprio caso, o que eu identifico como a Hipótese da Ressurreição é a afirmação “Deus ressuscitou Jesus dos mortos”. Isso é tudo o que eu quero dizer por “ressurreição”. Tal afirmação é uma asserção de um milagre, um evento causado por Deus e que é naturalmente impossível. Como o próprio Cavin argumentou em outro contexto, é incompreensivelmente improvável que todas as células do corpo de Jesus voltassem a vida naturalmente, de forma que, até mesmo sua absurdamente improvável Teoria dos Gêmeos (isto é, a Teoria “Dave”, por causa do filme de Kevin Kline) seria preferível a tal hipótese naturalista. Assim, se a Hipótese da Ressurreição é, como eu digo, a melhor explicação da evidência, então estamos justificados em inferir um ato sobrenatural de Deus em favor de Jesus. Se esse evento também envolveu o corpo de Jesus sendo ressuscitado com propriedades de invulnerabilidade, indestrutibilidade, etc., pode ser deixado como perguntas em aberto para reflexão teológica.
Prova da ressurreição de Jesus - Argumentando em favor de uma inferência para a melhor explicação
Segundo, a objeção parece compreender de forma errada o caso em defesa da ressurreição de Jesus, até mesmo no sentido completo da palavra, ao entender essa defesa como um argumento dedutivo e não como uma inferência para a melhor explicação. O crítico parece pensar que os apologistas cristãos precisam ser capazes de deduzir logicamente da evidência que, por exemplo, Jesus poderia ter sobrevivido à cólera ou a um acidente automobilístico. Mas um argumento indutivo não funciona assim. Para qualquer conjunto de dados haverá um número infinito de hipóteses que são consistentes com os dados. Para usar um exemplo bem conhecido, pense em um conjunto de pontos plotados em relação a dois eixos. Existe um número infinito de linhas que podem ser traçadas por esses pontos, algumas fazendo curvas extremamente complexas antes de conectar os pontos. Mas isso significa que um cientista desenhando uma curva suave entre aqueles pontos está fazendo uma inferência não justificada a respeito das implicações dos dados? É claro que não! Ele infere que a linha relativamente reta interpreta corretamente os dados com base em sua simplicidade se comparada às outras curvas mais complexas.
De forma similar, ao inferir que Jesus foi ressuscitado dos mortos em um sentido judaico pleno do termo, alguém está inferindo a melhor explicação dos dados. Aqui o contexto histórico-religioso do evento é a chave para sua interpretação apropriada. Dado seu contexto judaico, se o Deus de Israel ressuscitou Jesus, vindicando, assim, suas declarações aparentemente blasfemas nas quais ele se coloca no lugar de Deus, então a inferência mais natural a ser feita é que a ressurreição de Jesus aconteceu antecipadamente, antes da ressurreição geral que era a esperança judaica. Esta conclusão é particularmente mais evidente se Jesus previu sua morte e ressurreição pelo Deus de Israel, pois ele estava falando de ressurreição em um sentido judaico pleno. Afirmar que uma explicação melhor seria que Jesus foi ressuscitado mas ainda era suscetível à malaria ou a ser eletrocutado, por exemplo, seria extremamente ad hoc e não-judaico. Tal hipótese é consistente com os dados mas falha terrivelmente como uma inferência para a melhor explicação.
Prova da ressurreição de Jesus - A ressurreição demonstra a validação de Deus para as declarações de Jesus
Terceiro, esse mesmo ponto se aplica com respeito a justificação das declarações de Jesus sobre sua divindade. O argumento não é que somente um ser divino pode ser ressuscitado dos mortos ou que a divindade de Jesus pode ser deduzida logicamente de sua ressurreição. O que é afirmado é que, dado o contexto histórico-religioso da auto-compreensão radical que Jesus tinha e suas declarações pessoais blasfemas, sem mencionar sua atividade como milagreiro, exorcista e proclamador da chegada do Reino de Deus, Deus ressuscitá-lo dos mortos é mais plausivelmente compreendido como a ratificação de Deus para essas declarações.
Lembro-me de uma ótima ilustração desse tipo de inferência narrada pelo filósofo cristão Tom Morris em seu livro Making Sense of It All [Fazendo Sentido de Tudo] (pp. 177-180). Tom escreve:
Por muitos anos eu não entendia como, exatamente, milagres deveriam funcionar como marcas de verdade divina até que eu conheci um homem extraordinário. Eu estava morando em uma casa de férias na floresta em uma terra de sete acres com dois outros estudantes de pós-graduação durante meu primeiro semestre em Yale. Um homem da propriedade do lado apresentou-se um dia e me contou que, na noite anterior à nossa mudança, ele encontrou uma gangue de motoqueiros acampado na floresta entre nossas casas. Era três horas da manhã, ele disse, quando ele apareceu entre eles e os persuadiu a ir embora. Ele explicou que ele freqüentemente andava pela floresta no meio da noite e caçava quando ele não conseguia dormir por causa de antigos ferimentos de guerra. Após tirar o casaco ele me mostrou uma arma magno de cano longo .44 em um coldre de ombro que ele sempre carregava consigo. “Às vezes deixa o pessoal do banco um pouco nervoso”, ele acrescentou com um sorriso e um piscar de olho.
Visitas subseqüentes e questionamentos da minha parte levaram a histórias de guerra que definitivamente eram dignas de filme. Ele estava em uma unidade especial treinada em todas as artes marciais relevantes. Ele podia matar a distância com qualquer projétil - uma caneta, um lápis número dois. Ele e um índio Shoshone foram os únicos membros de sua unidade que voltaram da Segunda Guerra Mundial. E isso depois dele ter levado um tiro de um tanque. Fui convidado a colocar a mão em um dos buracos do ombro desse homem-urso, enquanto as histórias aumentavam em dramaticidade. Pulando de aviões atrás das linhas do inimigo, cortando o pescoço de cachorros de ataque dos alemães no meio do pulo, capturando e eliminando nazistas com fio de piano. As estratégias, as quase mortes, os escapes emocionantes. Melhor do que nos filmes. Um dia eu vi um medalhão no pára-choque da frente da sua caminhonete inscrito com o nome de uma cidade em Connecticut e “Chefe de Polícia Honorário”. Perguntei sobre isso.
“Ah, não foi nada”, Tom. “Eu só estava dirigindo por uma rua um dia a alguns anos quando vi, atrás de um prédio, quatro homens batendo em um policial que eles tinham jogado no chão. Bem, eu não podia deixar aquilo acontecer, então eu saí da caminhonete e fiz com que parassem. O prefeito achou muito legal da minha parte ter ajudado, então ele me fez um chefe de polícia honorário”.
Eu perguntei, “O que aconteceu com os quatro homens?”. Ele respondeu, “Vamos só dizer que eles tiveram uma longa estadia no hospital”.
As histórias ficaram mais elaboradas e eu comecei a me perguntar se todas elas poderiam realmente ser verdadeiras. As histórias já tinham ido muito além de qualquer das histórias de guerra e espionagem que eu á tinha ouvido ou visto na tela do cinema. Em um certo ponto, qualquer um passaria a ter dúvidas de que tudo aquilo poderia ser verdade.
Então, um dia, quando estava sentado na sacada tocando meu violão, fui picado pela maior e mais ameaçadora vespa que eu já tinha visto. A picada foi extremamente dolorosa e a marca na minha panturrilha esquerda imediatamente começou a ficar vermelha e a inchar. Fiquei tonto. Dentro de um ou dois minutos eu não podia mais caminhar. A dor era terrível, o inchaço era enorme, e um colega teve que praticamente me carregar até o vizinho para uma carona até o hospital. Ao abrir sua porta de trás, ele olhou pra minha cara e disse “Meu Deus, o que aconteceu com você Tom?”. Explicamos rapidamente o que tinha acontecido enquanto ele nos levava para dentro de casa.
“Sente-se”, ele disse, apontando para a poltrona ao nosso lado em sua sala. Sentei, sentindo muita dor. Eu esperava que ele pegasse suas chaves, mas em vez disso ele olhou em meus olhos e disse: “Não se preocupe. Eu vou precisar fazer algo para te ajudar, mas você pode não querer assistir”. Eu queria assistir. Sou filósofo. Sou incuravelmente curioso. “Precisamos esticar a sua perna”, ele disse ao puxá-la pelo pé, levantando-a e colocando-a sobre seu próprio joelho ao mesmo tempo em que se agachava na minha frente. Ele então juntou suas duas mãos fortes, dedões virados para cima, e com um movimento repentino e violento, enfiou-os na parte de trás do meu joelho esquerdo, atingindo com tanta força que eu pensei que veria minha rótula do joelho chegar ao teto (e apenas nesse ano, dezesseis anos depois, eu tive um problema no meu joelho). Ele então deslizou seus dedões por toda a extensão da minha panturrilha fortemente, duas ou três vezes. Então ele olhou para cima e disse, “Fique em pé. Você deve ficar bem dentro de alguns minutos”.
Me levantei, sem assistência, com quase nenhuma dor. Coloquei peso na perna, testando-a. Sem dor, olhei para baixo e fiquei chocado em ver que o inchaço tinha quase sumido. Sobrara apenas uma pequena elevação onde antes havia algo do tamanho de um ovo. “Tudo certo com você?”, ele perguntou. Estava tudo certo comigo, assim como estava tudo certo com todas as histórias dele.
“Como você fez isso?”, eu perguntei. Ele disse, “Ah, é apenas um pequeno truque que nós precisávamos fazer quando os rapazes ficavam mal depois dos saltos noturnos. Nós tínhamos que ser capazes de concertar qualquer coisa”. Daquele momento em diante eu parei de duvidar de qualquer uma das suas histórias, por mais dramáticas que fossem.
E não muito tempo depois, me dei conta de que havia uma conexão entre como os eventos daquela tarde haviam aumentado a credibilidade de todas as histórias extraordinárias dele e como milagres deveriam fazer o mesmo para o ensino de Jesus e para as declarações extraordinárias feitas sobre ele pelos cristãos primitivos. Se, a fim de explicar algum ato impressionante, você precisa postular que uma pessoa está em contato com alguma fonte de conhecimento e poder além do normal, e é somente tal status raro que seria necessário para considerar as declarações sobre aquela pessoa críveis, então, testemunhar este ato ou ouvir a respeito dele de alguma fonte confiável pode servir para aumentar a credibilidade das histórias, chegando, até mesmo, ao ponto em que toda a dúvida prática deixa de existir. Isto foi o que aconteceu comigo e meu vizinho, e é exatamente o que...poderia acontecer com nosso julgamento sobre Jesus.
O ato miraculoso de Deus ressuscitando Jesus dos mortos é plausivelmente considerado como a vindicação de Deus das declarações pessoais radicais de Jesus, declarações pelas quais ele foi crucificado como um blasfemador. Diante do fato de que Deus ressuscitou Jesus dos mortos, as declarações pessoais de Jesus sobre sua divindade têm muito mais credibilidade. A ressurreição é o selo de aprovação de Deus sobre aquelas declarações extraordinárias.
- William Lane Craig