#76 Pastores Também Necessitam de Apologética
January 14, 2015Prezado Dr. Craig,
Perguntei ao meu pastor se alguém poderia apresentar seu argumento da existência de valores morais objetivos para um ateu como evidência da existência de Deus. O argumento era:
1. Se Deus não existe, valores morais objetivos não existem.
2. Valores morais objetivos existem.
3. Portanto, Deus existe.
Meu pastor negou prontamente que a conclusão do argumento segue logicamente das premissas. Negou também a possibilidade de usarmos este argumento em qualquer situação. Ele não concordou com a premissa 2, que diz que valores morais objetivos existem. Ele disse que, apesar de nós acreditarmos que eles existem, nós não podemos dizer que eles existem até sabermos que Deus existe. Ele também disse que apesar de sermos tentados (provavelmente pelos nossos valores sociais) a dizer que valores morais objetivos existem, não podemos saber que sim, até ter um Deus transcendente para fundamentá-los. Suspeito que o argumento dele seria algo assim:
1′ Se Deus não existe, valores morais objetivos não existem.
2′ Deus existe.
3′ Portanto, valores morais objetivos existem.
Porém, isso imediatamente levanta a mesma pergunta, isto é: como sabemos que a segunda premissa (de cada argumento) é verdadeira?
Como eu poderia mostrar para ele que valores morais objetivos existem? Existe alguma outra forma além de afirmá-los porque percebemos uma esfera de moralidade objetiva? As premissas 2 e 3 não são simplesmente circulares?
Continue o bom trabalho que está fazendo!
Em Cristo,
Rohit
United States
Dr. Craig responde
A
Fiquei desencorajado ao ler seu e-mail, Rohit, porque ele ilustra tão bem o pensamento desleixado que freqüentemente caracteriza os pronunciamentos de ministros evangélicos. (Estou assumindo, é claro, que você representou de forma precisa a visão do seu pastor e que não é você que está confuso!) A resposta confusa dele ao seu argumento enfatiza quão importante é para nossos futuros ministros ter algum treinamento filosófico no seminário.
A confusão fundamental dele diz respeito a diferença entre a verdade de uma premissa e a garantia epistêmica que temos para ela. Eu tomo como óbvio que uma afirmação pode ser verdade mesmo que não tenhamos nenhuma evidência para sua veracidade; da mesma forma, podemos ter evidências muito fortes para uma afirmação que é, de fato, falsa. Deixarei que você pense em alguns exemplos.
Eu não acredito que seu pastor realmente negue a verdade da premissa (2) (se ele nega, você deveria procurar outra igreja!). Ao invés disso, o que ele pensa é que nós não temos garantia epistêmica suficiente para acreditar em (2) independente de nossa crença em Deus. Pois ele acredita que uma vez que sabemos que um Deus transcendente existe, então sabemos que existe fundamento para valores morais objetivos. Dessa forma, ele realmente acredita que valores morais objetivos existem, e, portanto, ele deveria concordar que (2) é verdadeira.
Além do mais, (3) segue logicamente de (1) e (2) pela regra da inferência chamada modus tollens. Assim, seu pastor não deveria reclamar da lógica do argumento. (Sua tentativa de reconstruir o pensamento dele não representa de forma precisa o raciocínio dele porque o argumento que você atribuiu a ele é logicamente inválido: nenhuma regra da lógica permitirá que você infira (3') de (1') e (2')).
Na verdade, a reclamação do seu pastor é melhor entendida como a alegação de que nós não podemos usar o argumento moral -- não porque ele é formalmente inválido ou tem uma premissa falsa -- mas porque incorre em petição de princípio, ou seja, a única razão que temos para acreditar em (2) é que já acreditamos em (3). Portanto, qualquer um que usa esse argumento está raciocinando de forma circular.
Se foi isso que ele quis dizer, acho que ele está claramente enganado. As pessoas não acreditam em (2) porque elas acreditam em Deus. Elas acreditam em (2) por causa de sua experiência moral, na qual elas apreendem certos valores que se impõem sobre nós e certos deveres que reivindicam nossa aceitação. Isso vale tanto para ateus e agnósticos quanto para teístas. Não-teístas que aceitam (2) obviamente não fazem isso incorrendo em petição de princípio. Os teístas também não incorrem em petição de princípio.
É claro que seu pastor pode ser cético sobre nossa experiência moral, pensando que é igualmente plausível atribuí-la ao condicionamento social ou a experiências genuínas de valores morais. Mas porque concordar com ele nesse ponto? Eu estou muito mais confiante de que eu percebo valores e deveres morais objetivos do que estou nas premissas de qualquer argumento para o ceticismo moral. A maioria dos não-teístas, que são as pessoas que nós tentamos persuadir, pensa da mesma forma.
Seu pastor parece estar confundindo a ordem do conhecimento (ordo cognoscendi) com a ordem do ser (ordo essendi). Na ordem do conhecimento, primeiro nós apreendemos uma esfera de valores morais objetivos e depois inferimos Deus como seu fundamento. Mas na ordem do ser, Deus é primário como o fundamento dos valores morais objetivos e tais valores dependem dele para sua realidade objetiva. Só porque Deus vem primeiro na ordem do ser não implica que Ele vem primeiro na ordem do conhecimento.
Assim, para responder sua pergunta, a melhor forma de convencer alguém da realidade objetiva de valores morais é apelar para sua experiência moral. Dê algumas ilustrações de abusos morais e pergunte às pessoas se eles acham que estas coisas são realmente más ou erradas. Eu acho que você encontrará 98% das pessoas concordando, com base nas experiências delas, que nós apreendemos pelo menos alguns valores e deveres objetivos. Com tais pessoas seu argumento não incorre em petição de princípio.
- William Lane Craig