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#689 Novo livro sobre a expiação

March 23, 2021
Q

Olá, Dr. Craig.

Mal posso esperar para ver o seu novo livro sobre a expiação que vai sair pela editora da Universidade Baylor. Lembro vagamente do senhor dizendo que teve a chance de melhorar os seus argumentos para esse volume. Estava me perguntando que tipo de conteúdo novo podemos esperar. O senhor vai interagir substancialmente com as críticas de Stump à substituição penal e com a abordagem realista de Oliver Crisp à doutrina? Fico intrigado de ouvir o que pensa a respeito da afirmação de Crisp de que “culpa não é transferível de uma pessoa para a outra” e da estratégia dele de contornar isso tudo. Para contornar o problema aparente que ele traz à tona, Crisp desenvolve uma resposta metafísica que envolve postular uma unidade ontológica entre seres humanos.

Tim

Reino Unido

Dr. Craig responde


A

Meu novo livro pela editora de Baylor, Atonement and the Death of Christ, é uma expansão considerável de meu pequeno livro The Atonement (Cambridge University Press, 2018), que é uma espécie de versão acessível e “mastigada” daquele. Assim, em cada uma das três áreas coberta pelo livro — dados bíblicos, história dogmática e reflexão filosófica —, a discussão entra em muito mais detalhes, de modo que o novo livro é três vezes maior do que o anterior.

Interajo, sim, em profundidade com a vigorosa crítica que Eleonore Stump faz de teorias substitutivas penais. Na minha introdução, respondo à acusação por ela lançada de que teorias substitutivas penais não conseguem proporcionar explicações completas da expiação e critico o enfoque dela na expiação, no sentido etimológico da palavra, em detrimento do sentido hebraico. Então, no capítulo 9, respondo ao que ela denomina “o problema central e irremediável” das teorias de expiação substitutiva penal, a alegação de que tal teoria seja incompatível com o amor de Deus. No capítulo 10, respondo à objeção dela à justiça da substituição penal. No capítulo 11, respondo às objeções dela de que teorias substitutivas penais sejam incompatíveis com a misericórdia de Deus, de que a morte de Cristo, na verdade, não tenha satisfeito à justiça divina e de que teorias substitutivas penais impliquem universalismo.

Também interajo rapidamente com a obra de Oliver Crisp. Defendo a caracterização que ele faz do perdão divino como perdão legal, contra as críticas de Stump. Rejeito, porém, a sua caracterização da substituição penal como “ficção forense” e busco explicar como o dispositivo de ficções legais devem ser empregados corretamente em teorias substitutivas penais que envolvam a imputação de pecados. Rejeito firmemente a chamada abordagem realista que ele tem em relação à expiação por ser implausível e fútil, uma abordagem que, creio eu, ele mesmo rejeita agora. Para esta visão, precisamos postular fusões mereológicas como “humanidade decaída” e “humanidade redimida” com base no pecado original e na redenção de Cristo. Tal proposta parece depender de um princípio de composição mereológica aparentemente irrestrita, segundo o qual quaisquer dois objetos podem ser tidos como partes de um objeto. Que outra maneira existe para justificar a ideia de que pessoas individuais sejam, na verdade, partes (e não membros!) de algum super-objeto, como a humanidade decaída? Mas, então, como pode ser verdade que, quando redimidas, elas perdem a sua parte naquele objeto e se tornem parte de outro super-objeto, a humanidade redimida? Ademais, ao ver pessoas como partes de um super-objeto transtemporal, a perspectiva parece pressupor uma visão aflexiva do tempo, segundo a qual objetos são, de fato, entidades quadridimensionais estendidas no tempo tanto quanto no espaço, uma visão incompatível com a pena e a retribuição divinas de pessoas-partes tridimensionais.

A crença de Crisp de que “culpa não é transferível de uma pessoa para outra” está ligada à compreensão que ele tem de culpa como o fato ou propriedade de ter cometido um crime. Uma vez que o passado não pode ser mudado, a partir deste entendimento, alguém que cometeu um crime sempre será culpado após o ato. A sua culpa não pode ser transferida ou expurgada, nem mesmo por Deus. Uma das percepções filosóficas mais importantes do meu livro é que essa concepção popular de culpa está errada. É incompatível com a explicação convencional de justiça retributiva. Isso porque, segundo este entendimento, mesmo que alguém tenha cumprido plenamente a sua sentença de prisão ou tenha sido perdoado, ele permanece culpado. No entanto, uma vez que, de acordo com teorias retributivas de justiça, a culpa merece a pena, tal pessoa está, efetivamente, sentenciada para o inferno, pois a culpa dela jamais pode ser removida. Sugiro, pelo contrário, que concebamos culpa como possibilidade de pena e, portanto, uma propriedade temporária que pode ser removida pelo perdão ou a satisfação de justiça.

 

Pois então, esse novo livro tem muita coisa interessante!

- William Lane Craig