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#693 O Adão histórico: o que está em jogo?

March 23, 2021
Q

Olá, Dr. Craig.

Tenho algumas perguntas relacionadas à entrevista que deu ao Dr. Joshua Swamidass no canal Peaceful Science com o título: “William Lane Craig Ends His Search For Adam and Eve” [William Lane Craig encerra sua busca por Adão e Eva]. Entre 0:54-1:01 na entrevista, o senhor disse algumas coisas que acho um pouco intrigantes. Gostaria que o senhor explicasse melhor o que pensa a respeito do seguinte:

1. O Dr. Swamidass perguntou o que pensava estar em jogo no começo da sua investigação, e o senhor disse: “por mais maluco que pareça... a divindade de Cristo”. Se o entendi corretamente, o senhor pensava que era importante mostrar que Adão e Eva eram figuras históricas porque Jesus (e os demais escritos do Novo Testamento) parecem afirmar esta posição, e Jesus teria mantido essa crença falsa em relação a Adão e Eva, caso se descobrisse que não eram históricos. Minha pergunta é esta: se a sua investigação o tivesse levado a concluir que Adão e Eva não eram figuras históricas, o senhor teria sido persuadido a questionar a divindade de Cristo somente com base nesta questão? Ou o senhor quis dizer que ainda acreditaria na sua divindade (conhecer subjetivamente), mas teria dificuldade em defender tal posição (mostrar objetivamente)?

2. O senhor concordou com o Dr. Swamidass que o fundamento da nossa fé é a ressurreição de Cristo. Porém, “o cristianismo puro e simples” não contribui para a doutrina da inerrância bíblica, que, segundo o senhor pensava, estava em jogo no começo da sua investigação. Disse que detestaria ter de abrir mão dessa doutrina. Minha pergunta é a seguinte: de acordo com a sua resposta à pergunta da semana 626, o senhor disse “Quando vemos como Jesus estimava o Antigo Testamento, percebemos que ele o ensinava como a Palavra de Deus inspirada e plenamente confiável. Como o fizeram seus discípulos, devemos fazer o mesmo. Cremos na Bíblia porque cremos nele“. O senhor ainda sustenta a posição de que a divindade de Cristo possa ser afirmada com base apenas nas provas históricas da ressurreição? Se sim, podemos ainda crer de todo coração na inerrância do Antigo Testamento, e, assim, esta doutrina não estaria em jogo?

Agradeço a Deus pelo seu ministério. Tem sido uma bênção para mim de diversas maneiras. Recomendo o seu ministério aos outros sempre que tenho a oportunidade. É um pouco triste que, ao crescer num ambiente evangélico, nunca tenha sido incentivado a amar a Deus com minha mente até encontrar o seu ministério. Que Deus continue a usar o seu ministério para abençoar as pessoas.

Sam

Canadá

Dr. Craig responde


A

Agradeço a sua pergunta, Sam, pois minhas observações sobre este assunto foram mal interpretadas por um podcaster ateu, que deu a entender que eu não veria nenhuma alternativa, senão abandonar a divindade de Cristo, caso não houvesse nenhum Adão histórico. Esta não é, de forma alguma, a minha posição.

Na verdade, quem conhece meu trabalho pode lhe dizer que, quando confrontado com uma objeção à fé cristã, tipicamente gosto de começar supondo a pior das hipóteses: “Supondo que a objeção seja verdade, o que fazer?”. Costuma acontecer que mesmo a pior das hipóteses não fica sem salvação. Costuma haver passos que o cristão pode dar para lidar com a situação, mesmo que a objeção seja verdadeira.

(1) Portanto, em relação à sua primeira pergunta, estou dizendo: “Suponha que o objetor esteja certo. Suponha que as provas científicas mostrem não haver nenhum Adão histórico. Qual é a consequência para a fé cristã?”. Muitos apontaram que, se não houve nenhum Adão histórico, a doutrina clássica do pecado original, segundo a qual o pecado de Adão é imputado a todos os seus descendentes, vai por água abaixo. Concordo; contudo, uma vez que, como explico nas minhas aulas do curso Defenders 3 sobre o pecado original, não penso que esta doutrina seja essencial para a fé cristã, não há nada demais nisso tudo, na minha opinião. Se esta é a única consequência da não-existência de Deus, a pior das hipóteses não é tão ruim assim, afinal.

Antes, defendo que a consequência mais séria para a não-existência de Adão seria o seu impacto nas doutrinas da inspiração das Escrituras e da encarnação de Cristo. Isto porque, se as Escrituras ensinam claramente que houve um Adão histórico, a falsidade da doutrina teria efeito reverberante na doutrina das Escrituras, no que concerne à veracidade e confiabilidade das Escrituras. As Escrituras, portanto, pareceriam estar condenadas por ensinar falsidades. Pior ainda, se, como parece plausível, o próprio Jesus cria na historicidade de Adão e Eva (Mateus 19.4-6), ele teria mantido crenças falsas acerca de Adão e Eva, o que é incompatível com a sua onisciência. Uma vez que a onisciência é propriedade essencial de Deus, a negação do Adão histórico ameaça desfazer a divindade de Cristo e, portanto, destruir a fé cristã ortodoxa.

Aqui vão as nossas opções, conforme me parece:

 

 

Se a existência do Adão histórico é, de fato, compatível com as provas científicas, interpretadas corretamente, conforme indicado no lado direito do diagrama, não há aí nenhum problema. É esta a posição que sustento.

Suponha, no entanto, que a pior das hipóteses, retratada no lado esquerdo, é verdadeira. Se o Adão histórico não existiu, uma opção é afirmar que as Escrituras ensinam, por mais erroneamente que seja, a existência de um Adão histórico, mas — assumindo-se que a inspiração garanta a verdade — restringir a inspiração e, portanto, a garantia da veracidade ao conteúdo espiritual ou teológico das Escrituras. Segundo esta visão, Deus acomodou a si mesmo, ao falar por meio das formas de pensamento costumeiramente errôneas de uma cultura, inserindo verdades teológicas por dentro das cascas de erros científicos e históricos ensinados pelas Escrituras. Muitos teólogos contemporâneos adotaram esta opção.

A alternativa seria manter que, embora os autores das Escrituras possam muito bem ter crido numa criação de seis dias, num Adão histórico, num dilúvio global, e assim por diante, eles não ensinaram tais fatos. Já que a garantia de veracidade da inspiração se atrela somente ao que as Escrituras ensinam, não estamos comprometidos com a veracidade das crenças pessoais dos autores. Muitos estudiosos contemporâneos adotaram esta opção para lidar com elementos na narrativa de Gênesis como o cosmo em três níveis, o firmamento e as águas sobre ele e o universo geocêntrico, sendo que alguns estenderam esta abordagem para incluir a crença num Adão histórico. Entende-se que tais crenças sejam adventícias aos ensinos das Escrituras, que são verdadeiros e autorizados. Esta opção difere da primeira por negar que as Escrituras ensinem doutrinas objetáveis. O desafio desta opção é tornar plausível a distinção entre o que o autor cria e o que ele ensinou.

Há, porém, um problema ainda maior. Se não houve nenhum Adão histórico, além da doutrina da inspiração, precisaríamos ajustar a doutrina da encarnação, para que ela permitisse que Jesus tenha mantido crenças falsas. Distinguir entre o que ele cria e o que ele ensinou não resolverá o problema, pois o problema apresentado pela divindade dele é exatamente a incapacidade que ele tinha de crer em falsidades.

Como, então, o teólogo cristão pode lidar com este problema? Talvez a melhor forma seja fazer a distinção entre aceitar uma proposição p e crer numa proposição p. Esta distinção desempenha um papel importante na filosofia da matemática no que diz respeito aos compromissos ontológicos da linguagem matemática. Alguns pensadores sustentam que a crença na verdade até de enunciados aritméticos simples como 2+2=4 compromete a pessoa com a realidade de entidades platonianas independentes da mente, como o número 4. A crença nos axiomas da teoria de conjuntos de Zermelo-Fraenkl supostamente nos compromete com a realidade de um conjunto infinito, um compromisso metafísico excessivo. A maioria dos matemáticos e cientistas em exercício provavelmente não considerariam ter eles próprios feito tais compromissos metafísicos por meio de pressuposições e asserções. Por isso, é comum distinguir entre aceitar uma afirmação matemática e crer numa afirmação matemática. Tal distinção não implica nenhuma desonestidade por parte do matemático ou cientista; deveras, ele talvez jamais tenha pensado a respeito dos seus compromissos ontológicos. É plausível desafiar o platonista a provar que a maioria dos matemáticos e cientistas, ao dar assentimento verbal e depender de afirmação da existência matemática, realmente creia haver objetos matemáticos como o platonista assevera existir.

Igualmente, talvez possamos distinguir entre Jesus aceitar p e crer em p. Em sua consciência humana finita, talvez Jesus aceitasse p, ou seja, verbalmente assentisse a p sem reservas conscientes e silenciosas, dependendo de p em contextos práticos sem crer em p. Isto porque aquilo em que cria a pessoa de Cristo é o que o Logos divino, a segunda pessoa da trindade, cria, uma vez que o Logos, e não a mente humana de Cristo, é a pessoa que Cristo é, e o Logos não crê em falsidades. Tal visão talvez até produza um entendimento mais plausível da encarnação, sem exigir reservas silenciosas da parte de Jesus quando ele disse da semente de mostarda que “é a menor das sementes” (Mateus 13.32), ou da lua que “a lua não dará a sua luz” (Mateus 24.29) (subentendendo, assim, que a lua é luminosa), ou do olho que é “a candeia do corpo” (Mateus 6.22). Tal visão talvez produza uma explicação mais realista da experiência humana de Jesus. A título ilustrativo, será que Jesus, enquanto garoto, jamais ouviu um barulho na sala ao lado e pensou: “Tiago deixou cair o martelo”, quando, na verdade, havia sido José a fazer o barulho? Ou será que nunca viu alguém à distância e pensou “Miriam está vindo”, quando, na verdade, era Isabel? Será que Jesus não teria naturalmente pensado que, digamos, o sol se move pelo céu e que a lua é luminosa? Poderíamos, igualmente, sustentar que Jesus, embora não acreditasse que Adão fosse pessoa histórica, como condição da sua encarnação aceitou esta e muitas outras crenças falsas dos seus compatriotas.

A questão é que, mesmo na pior das hipóteses de que Adão não tenha existido, a situação não está perdida. Há respostas. No entanto, tais opções nos envolveriam em revisões teológicas bastante extensas das doutrinas das Escrituras e da encarnação. Felizmente, isto é pura especulação acadêmica, pois, no meu livro, mostro que não existe nenhuma incompatibilidade entre a existência do Adão histórico e dos indícios científicos acerca das origens humanas. Portanto, não somos obrigados a adotar a pior das hipóteses.

2. Quanto à sua segunda pergunta, sim, as provas históricas para a ressurreição de Jesus vindicam as suas afirmações divinas, implicando, pois, a sua divindade. A questão, então, é a seguinte: como seria a sua divindade compatível com as suas crenças falsas sobre Adão, supondo-se que Adão não tenha existido? Foi a minha resposta à sua primeira pergunta! Em relação à atitude dele diante do Antigo Testamento, se Adão não existiu, poderíamos adotar uma das piores hipóteses acima: ou o Antigo Testamento é inspirado apenas nos seus ensinos teológicos, ou então o Antigo Testamento é plenamente autorizado em tudo o que ensina, ainda que os autores do Antigo Testamento tenham mantido diversas crenças pessoais falsas. A totalidade das Escrituras é, então, inspirada e, portanto, a Palavra de Deus para nós, mas o ensino da Palavra de Deus não inclui ciência antiquada.

- William Lane Craig