#694 “O que devo fazer com meu namorado transsexual?”
March 23, 2021Sou uma garota de 18 anos e estou numa fase da vida em que não sei o que fazer e o que é certo para mim segundo os meus pais. Venho de uma família de seis pessoas: meus pais, irmã e duas irmãs menores. Somos muçulmanos. Sei que Deus e Alá são praticamente a mesma coisa, ou pelo menos foi o que me ensinaram. Gostaria de uma resposta de um acadêmico. Estou num relacionamento há 4 anos e meio, mas ele é transsexual. Eu já sabia disso no começo do relacionamento. Não liguei, porque o aceito.
Agora, 4 anos e meio depois, minha irmã contou aos meus pais, e agora eles pensam que estou doente. Doente porque estou num relacionamento com um garoto. Eles ainda o veem como uma menina e não querem aceitar que é um menino. Fui ensinada a aceitar a todos, e agora eles mesmos não fazem isso. Eles não têm nenhum respeito. O único argumento que usam é “Deus fez menino e menina”, e pensam que transsexuais são doentes. Mas, se essas pessoas se sentem como menino ou menina, então qual é o problema? Li artigos que dizem estar isso algo ligado à estrutura do cérebro e que já nasceram, por exemplo, com um cérebro masculino e, por isso, sentem-se aprisionados. Não foi Deus que os fez assim? Deus não vai puni-los, não é mesmo? Será que Deus não ama seu povo? Ele os fez assim. Também li que isso era permitido no passado e que o profeta Maomé acolheu essas pessoas na sua casa e nada fez contra eles, porque eles também creem em Deus.
O problema agora é o que devo fazer. Não sei mais, porque meus pais querem que eu o deixe, já que não aceitam isso. Eles querem que eu o deixe, e agora ficam me impedindo de estudar. Dizem que, se eu não o deixar, não posso estudar. É uma droga. É a minha vida e não podem decidir nada por mim. Tenho meus argumentos, e eles não aceitam. Enxergam de um jeito diferente do meu. Espero que possa me ajudar. Estou esperando uma resposta sua. Sei que muitas pessoas têm opiniões diferentes, e não sei o que pensa a respeito do assunto, mas o senhor não pode mesmo dizer que meus argumentos estão errados. Acho que Deus quer que eu mantenha este relacionamento e que todos entendam que não há nada errado nisso e que ele ama também estas pessoas e que NÃO são doentes. Ele também as criou.
Atenciosamente,
EC
Desconhecido
Dr. Craig responde
A
Fica bem evidente que a sua cabeça já está feita, EC, e que você só quer que eu valide o seu ponto de vista contra aquele dos seus pais. Não tenho nenhum interesse em me envolver numa discussão familiar, mas me interesso nos argumentos para as respectivas posições que você e os seus pais dão.
Consideremos, primeiramente, os seus argumentos. Parece-me que você propõe quatro argumento em favor do estilo de vida transsexual da sua amiga.
1. “Mas, se essas pessoas se sentem como menino ou menina, então qual é o problema?” Este é um jeito bastante incorreto e até perigoso de determinar os deveres éticos pessoais. Você realmente quer fundamentar as normas éticas em sentimentos, EC? Pedófilos sentem vontade de ter relações sexuais com crianças, mas com certeza você não diria: “mas qual o problema?”. Não há razão para pensar que os sentimentos pessoais guiem corretamente nossos deveres morais, e pensar que o fazem dará sanção a todos os tipos de monstruosidades morais.
2. “Isso [está...] ligado à estrutura do cérebro e ... já nasceram, por exemplo, com um cérebro masculino e, por isso, sentem-se aprisionados”. Esqueça a afirmação absurda de que alguém possa ter um cérebro de homem num corpo de mulher. Apenas tomemos isso como metáfora para dizer que o comportamento de um transsexual tem fundamento biológico. O problema com este argumento é não somente que não há indícios científicos de que o transexualismo tenha fundamento biológico, mas, o que é mais fundamental ainda, trata-se mais uma vez de um jeito desgraçadamente incorreto e perigoso de determinar os deveres morais pessoais. Não há razão alguma para pensar que, porque a pessoa está fisicamente determinada a algum comportamento, tal comportamento seja aceitável do ponto de vista ético. Muitos argumentam que o condicionamento evolutivo dispôs os homens da nossa espécie à violência e à violação. Esqueça se essas afirmações são verdadeiras; a questão importante é que, mesmo que o fossem, não chegariam nem perto de provar que violação e violência contra mulheres sejam eticamente permissíveis aos que se sentem assim predispostos.
3. “Não foi Deus que os fez assim?” Esta é uma questão que você repete. Mas acho que mostra uma visão muito ingênua da providência divina no mundo. Não devemos pensar em Deus como se ele estivesse mexendo no ventre para produzir cada defeito, deficiência ou doença congênitos. Antes, Deus estabeleceu um universo que opera de acordo com leis naturais, e, quando algo dá errado e alguém nasce com um defeito de nascença, não devemos pensar que Deus os fez assim. Obviamente, isto suscita a velha questão filosófica do problema do sofrimento e do mal; porém, por Deus permitir males terríveis em nosso mundo, não significa que ele seja responsável por eles, apenas que ele tem razões moralmente suficientes para permitir que a natureza siga seu curso e que tais coisas aconteçam. Assim, quando se mostra que algum comportamento tem fundamento biológico, não se implica daí que não devamos tentar mudá-lo. Considere a esquizofrenia, por exemplo. Esta doença mental tem um aspecto biológico, uma vez que pode ser tratada e controlada com medicamentos. Ninguém diria ao esquizofrênico: “Deus o fez assim: Apenas aceite-se do jeito que você é!”.
4. “Será que Deus não ama seu povo?” Com certeza! E devemos tratar os outros com respeito, como criados à imagem de Deus e amados por Deus. Se for verdade que Maomé demonstrou hospitalidade a transsexuais, isso seria bom exemplo de tratar o próximo com respeito, mesmo se discordo do comportamento dessa pessoa. Jan e eu também contratamos uma lésbica para reformar o nosso banheiro e a recebemos na nossa casa, embora discordemos da moralidade da relações sexuais dela. Você diz a respeito da sua relação com a sua amiga transsexual: “Não liguei, porque o aceito”, ao passo que seus pais querem que você rompa essa relação, “já que não aceitam isso”. Percebeu a diferença? Você está confundindo aceitar alguém com aceitar o comportamento ou estilo de vida dessa pessoa. Você disse que os seus pais lhe ensinaram “a aceitar a todos, e agora eles mesmos não fazem isso”. Isto não parece tão claro assim, EC. Seus pais talvez aceitem sua amiga enquanto pessoa, embora discordem do estilo de vida dela. Voltando mais uma vez para Deus: sim, Deus ama o pecador, mas odeia o pecado.
Por isso, penso que os seus argumentos a favor do estilo de vida transsexual da sua amiga são fracos e até perigosos. O que dizer, então, dos argumentos dos seus pais? Eles parecem ter dois argumentos:
1. “O único argumento que usam é ‘Deus fez menino e menina’”. Entendo que eles queiram dizer que é Deus quem determina o que é certo e errado em relação à atividade sexual humana, e não os sentimentos humanos ou a moda cultural. Isto me parece ser o único fundamento seguro da ética. Assim, como defendi no meu artigo: “Uma perspectiva cristã sobre a homossexualidade”, no debate sobre a permissibilidade moral da atividade homossexual, não podemos ignorar o que Deus diz a esse respeito. Como muçulmanos, vocês acreditam no ensinamento ético da Bíblia e, conforme mostrei no meu artigo, a Bíblia claramente proíbe a atividade homossexual. Uma vez que vocês são do mesmo sexo, mesmo que a sua amiga seja transsexual, qualquer atividade sexual entre as duas seria atividade homossexual, o que a Bíblia proíbe. Os seus pais corretamente querem que você evite este pecado, sem contar a dor de cabeça que ele lhe trará.
2. “Pensam que transsexuais são doentes”. Bem, essas pessoas parecem mesmo ter um problema de saúde mental muito severo. Uma pessoa que pensa ser um homem aprisionado num corpo de mulher ou que se sente uma mulher num corpo de homem não é um indivíduo muito bem integrado/ajustado. Ele ou ela deve viver em angústia constante. Isto nada tem a ver com a moralidade de ser transsexual. A Bíblia condena a atividade homossexual, e não a orientação da pessoa.
Por isso, EC, penso que os argumentos dos seus pais são muito mais fortes do que os seus fraquíssimos argumentos.
Assim, o que você deve fazer? Do ponto de vista bíblico, enquanto você estiver sob a autoridade dos seus pais como menor de idade, vivendo debaixo do teto deles e sendo sustentada por eles, você deve ser submissa aos seus pais e fazer o que eles pedirem. Você deve romper o seu relacionamento, pelo menos até se tornar independente. Uma vez que a sua própria orientação parece ser heterossexual (você tem atração por garotos), você deve se retirar de uma relação proibida por Deus, na esperança de que o Senhor a conduza um dia a uma relação matrimonial santa.
- William Lane Craig