#692 Entrevista para “Cosmic Skeptic”
March 23, 2021Gostei demais de assistir à sua discussão com Alex de “CosmicSkeptic”. Todas as suas discordâncias foram cordiais, respeitosas e impessoais.
No entanto, tenho algumas perguntas (na verdade, muitas, mas vou fazer apenas as mais importantes).
O senhor disse: “Se você adotar essa visão do niilismo mereológico, não teríamos nenhum exemplo indutivo de coisas que começam a existir. A primeira premissa ainda seria verdadeira: tudo que começa a existir tem uma causa. Porém, não teríamos nenhum exemplo de coisas que começam a existir além dessas partículas fundamentais”. Há um ponto fundamental e crucial da desconstrução do kalam de que o senhor está tentando fugir, de duas formas.
Em primeiro lugar, o senhor evita a crítica ao forçar a reiteração descarada de que seria verdade que o universo “tem uma causa” se a existência do universo é o único exemplo de algo que começa a existir. Alex adequadamente reduziu o argumento causal a uma pressuposição, e não a uma premissa, mostrando que é um exemplo singular sem nenhuma determinação causal. “Tem uma causa” não é válido mais, neste caso.
A partir disto, vem a importância secundária de distinguir que não só o universo é o exemplo singular de algo que começa a existir, mas que todos os demais exemplos que o senhor gostaria de citar são crucialmente diferentes daquilo que se propôs a provar. Podemos conceder que coisas compositivas existem na realidade e começam a existir num tempo específico, como o senhor defende. Porém, a causa para esses objetos começarem a existir é predicada na pré-existência de partículas fundamentais. Não estamos falando de criação ex nihilo. Poderíamos coloquialmente usar a palavra “criar” de modo intercambiável, mas isso é uma função limitadora da nossa linguagem. Eu argumentaria que os dois diferentes tipos de criação não têm nenhuma relação um com o outro. Nada que vem à existência com base na reforma de peças fundamentais é suficiente para provar uma premissa que afirma a criação ex nihilo. Assim, mesmo que aceitemos a sua visão de realismo objetivo, temos um problema significativo com a premissa.
Um ponto em que Alex não tocou, e eu gostaria de ouvir a sua resposta, é a seguinte consideração. Causa e efeito são rótulos temporais. Causa e efeito se restringem a operar no universo conhecido e somente nele. Lançar uma bola contra a parede (a causa) e observá-la voltar (o efeito) funciona somente por dois motivos fundamentais: (1) o tempo deve passar para que uma causa preceda um efeito e (2) o espaço deve existir para que a bola o atravesse. Remova um dos dois elementos e causa/efeito se tornam um descritor impotente, anulado em sua utilidade. É erro categórico, portanto, dizer que nosso entendimento de causa e efeito, bem como nossa aplicação dele, possam ser aplicados corretamente ao universo. Afinal, foi o Big Bang que criou tempo e espaço. Pode-se, então, deduzir que causa e efeito são criados funcionalmente como parte do universo. Não se pode afirmar que causa e efeito rejam a criação do universo. Do contrário, aplicamos circularmente a coisa criada a certa regulação do processo pelo qual foi criada. Quando o jogo de xadrez foi inventado, as regras de xadrez não limitavam como o jogo fora projetado. A aplicação é, portanto, defender obviamente que o universo não pode ter uma causa, pois o universo criou causalidade. A menos e até que haja alguma forma de demonstrar que causalidade é construto metafísico a suplantar os limites do universo, não temos licença para aplicá-la da maneira que a premissa 1 do kalam o faz.
Outras perguntas: o que pensa da mecânica quântica, que implica não haver causa eficiente (por exemplo, partículas virtuais, decomposição atômica aleatória) para eventos, mesmo que haja matéria pré-existente? Além disso, Alex Vilenkin (um físico que o senhor respeita) diz que é matematicamente e fisicamente coerente que um universo surja sem uma causa eficiente (livre-arbítrio) ou material (o puro nada). Qual seria sua resposta? Também gostaria de questionar a segunda premissa de que o universo começou a existir. Muitos físicos dizem que o tempo não é uma linha que começa no 0. O tempo se deforma como uma bola. Assim, nosso conceito de um ponto que comece em 0 é confuso. Por esta razão, Alan Guth, Anthony Aguirre e outros físicos acreditam que o universo é eterno. Por fim, gostaria de saber por que o senhor pensa que mentes incorpóreas e atemporais podem existir. Mesmo que concedamos serem as mentes distintas da matéria, isto não implica que as mentes poderiam existir sem a matéria. Mesmo que pudessem, isso não implica que estejam fora do espaço e do tempo. Obrigada.
Fieonne
Holanda
Dr. Craig responde
A
Fico feliz de que tenha gostado da minha conversa com Alex O’Connor, Fieonne. Você não exagera nem um pouco ao dizer que tem muitas perguntas! Ao abordá-las num curto espaço, minhas respostas serão necessariamente sucintas. Tentarei organizar as suas perguntas ponto a ponto.
1. Fuga da premissa causal por meio do niilismo mereológico. O contexto dialético desta pergunta é a afirmação do cético, em resposta à segunda premissa do argumento de que o universo começou a existir, de que, na verdade, nada, incluindo o universo, jamais começa a existir. Por quê? Porque os constituintes materiais de que algo se compõe existiam antes dele. A irrelevância desta alegação fica evidente ao propor uma explicação de “começa a existir” que não depende de que algo venha à existência sem uma causa material:
Para toda entidade x e tempo t, x começa a existir em t se x existe em t e t é o primeiro tempo em que x existe.
Esta explicação deixa totalmente aberta a possibilidade de x ter ou não uma causa material. A noção de que algo composto de constituintes materiais anteriores jamais comece a existir é, francamente, maluca, uma vez que a obrigaria a afirmar que você existia antes da sua concepção — deveras, que você sempre existiu.
A próxima jogada na dialética é desesperada: para defender a afirmação de que nada, de fato, jamais começa a existir, o cético diz que nenhum objeto material composto existe e, portanto, jamais começa a existir. Se jamais existem, jamais começaram a existir. Esta é a doutrina do niilismo mereológico: não há objetos compostos. Ora, como expliquei ao Alex, já começamos a discernir o alto preço intelectual exigido pela proposta do cético. Você realmente acha, Fieonne, que não há pessoas, mesas e cadeiras, planetas etc., que você não tem pais? Mas a coisa fica pior ainda: você tem de negar que você mesma existe. É loucura; como bem enxergou Descartes, o único dado indubitável é a própria existência pessoal. Assim, objetos materiais compostos inegavelmente existem.
Ora, deve-se admitir que, se o niilismo mereológico fosse verdade, não teríamos nenhum exemplo claro de coisas que começam a existir, ao menos na experiência cotidiana (resta ainda a questão do início da existência de partículas fundamentais, que não são compostas, mas simples). Assim, meu argumento indutivo a partir da experiência de que as coisas que começam a existir têm causas não teria nenhuma força para o niilista mereológico, pois essas coisas não existem de verdade! Mas pouco importa, pois o niilismo mereológico não é opção razoável. Então, será que estou forçando a barra ao afirmar que a premissa causal ainda é verdade, mesmo que o niilista mereológico esteja correto de que não haja objetos compostos? Não, pois o argumento indutivo era só um dos meus três argumentos a favor da premissa causal, os dois primeiros sendo argumentos metafísicos que não se deixam afetar pela afirmação de que não há objetos compostos — a saber, que algo não pode vir a existir a partir do nado e que, se coisas pudessem vir a existir a partir do nada, é inexplicável por que algo e tudo não vêm a existir a partir do nada. Assim, mesmo pelo niilismo mereológico, a premissa causal não é mera pressuposição, mas está amparada por argumentos, que o cético deve abordar.
2. A premissa causal e creatio ex nihilo. Com muita sensatez, você passa a conceder, pelo menos a título de argumento, que “coisas compositivas existem na realidade e começam a existir num tempo específico”. Você objeta, porém, que “Nada que vem à existência com base na reforma de peças fundamentais é suficiente para provar uma premissa que afirma a criação ex nihilo”. O problema com esta objeção, Fieonne, é que a premissa causal não afirma nada disso. Como deixa claro a nossa explicação de “começa a existir”, tanto faz se as coisas que começam a existir têm causas materiais ou não. De fato, se a premissa causal afirmasse que tudo que começa a existir é criado ex nihilo, eu a consideraria patentemente falsa.
3. Causação e tempo. Você diz que “Não se pode afirmar que causa e efeito rejam a criação do universo”, pois “causa e efeito são rótulos temporais”. Respondo que a sua afirmação é tanto falsa quanto irrelevante. Conforme explico na questão 678, a alegação de que causas necessariamente precedem os seus efeitos no tempo não é apenas injustificada, mas plausivelmente falsa. Ademais, ainda que tanto causa quanto efeito devam estar no tempo, a criação que Deus fez do universo pode ser simultânea à vinda à existência do universo, a saber, o primeiro momento do tempo. De todo modo, o princípio causal não é princípio físico, como a Lei de Boyle, válida somente no universo. Conforme expliquei acima, é princípio metafísico que rege toda a existência. Por isso, devo dizer à sua afirmação contrária: “A menos e até que haja alguma forma de demonstrar que causalidade é construto metafísico a suplantar os limites do universo, não temos licença para aplicá-la da maneira que a premissa 1 do kalam o faz”. O seu argumento a partir da temporalidade é exatamente uma tentativa dessas, porém fracassada.
4. Causação e mecânica quântica. Será que a mecânica quântica “implica não haver causa eficiente ... para eventos, mesmo que haja matéria pré-existente”. Não, não implica. Há ao menos dez diferentes interpretações físicas, empiricamente equivalentes, para as equações da mecânica quântica, algumas das quais são totalmente determinísticas. Assim, a mecânica quântica não dá um contra-exemplo à premissa causal. Além disso, a premissa causal foi formulada cuidadosamente para permitir eventos incausados aos fãs de interpretações indeterministas da mecânica quântica (e proponentes do livre arbítrio). Isto porque ela não afirma que todo evento tem uma causa, mas que tudo que começa a existir tem uma causa. A premissa causal diz respeito não a eventos que acontecem, mas a coisas que começam a existir. É, portanto, totalmente compatível com interpretações indeterministas da mecânica quântica.
5. Questões avulsas. Quanto a Vilenkin, veja a resposta que lhe dei em “Creation Ex Nihilo: Theology and Science” [Criação ex nihilo: teologia e ciência], em The Story of the Cosmos, ed. P. Gould e D. Ray (Eugene, Ore.: Harvest House, 2019), pp. 183-200. Vilenkin erroneamente assume que qualquer coisa que não seja proibida pelas leis da natureza é metafisicamente possível, uma suposição para a qual é fácil dar contra-exemplos.
Em relação à linearidade do tempo, não é verdade que “Muitos físicos dizem que o tempo não é uma linha que começa no 0. O tempo se deforma como uma bola”. Pode-se elaborar modelos matemáticos do tempo circular, mas eles são grosseiramente antifísicos. (Ou você está pensando no modelo de Hartle-Hawking, em que espaço-tempo próximo ao começo é arredondado, como uma peteca de badminton? Tal modelo ainda tem um começo num ponto t = 0 não-singular.) Quanto a Aguirre, Guth e Carroll, conforme expliquei no artigo supracitado, eles tentam postular um universo eterno no passado ao fazer a seta do tempo em algum ponto no passado inverter-se e fluir na direção oposta! Tal hipótese não é apenas completamente antifísica, mas também fútil. Isto porque, como explica o físico Aron Wall, esse universo em espelho, com tempo invertido, não está, em nenhum sentido, no nosso passado. O que realmente se tem aí são dois universos, cada qual expandindo a partir de um ponto inicial comum.
Quanto à Causa do universo como mente incorpórea, nas minhas publicações, como Apologética contemporânea, ofereço-lhe três argumento favoráveis. Fica a cargo do cético mostrar que a mente é, de alguma forma, inerentemente dependente da matéria, o que até agora não conseguiu fazer (ver os argumentos de J. P. Moreland para o dualismo de mente e corpo em nosso livro Filosofia e cosmovisão cristã). A atemporalidade e a-espacialidade da Mente que criou o universo é implicação dela ser a causa de tempo e espaço. Para a coerência de personalidade atemporal, ver meu capítulo em Time and Eternity: Exploring God’s Relationship to Time (Wheaton, Ill.: Crossway, 2001).
Fico feliz que esteja pensando nestas questões, Fieonne. São assuntos difíceis e fascinantes. Tenho certeza, porém, que, se você continuar a ler e investigar com uma mente aberta, chegará a enxergar a plausibilidade da perspectiva teísta, em contraste com as alternativas.
- William Lane Craig