#708 O AECN de Plantinga mais uma vez
March 23, 2021Dr. Craig,
Preciso da sua ajuda com o argumento evolutivo contra o naturalismo de Alvin Plantinga. Desde que o descobri, eu me apaixonei pelo argumento; a ideia de que “é irracional crer no naturalismo, seja ele verdadeiro ou não” me deixou em choque. No entanto, ao refletir no argumento, passei a pensar que, mesmo que seja sólido, ele acaba sendo autodestrutivo (exatamente o que ele está buscando provar sobre o naturalismo!).
1. P (C | N&E) é baixa.
2. Quem aceita (acredita em) N&E e considera que P (C | N&E) é baixa tem um derrotador de C.
3. Quem tem um derrotador de C tem um derrotador de qualquer outra crença que possua, incluindo até N&E.
4. Se alguém que aceita N&E obtém um derrotador de N&E, [então] N&E é contraproducente e não pode ser aceito racionalmente.
Ora, concedo que as premissas são verdadeiras (ou mais plausíveis do que falsas), mas penso que a primeira premissa colapsa em si mesma. Pense no seguinte: se alguém que crê no naturalismo e evolução tem um derrotador para todas as suas crenças porque ele aceita (1), ele tem um derrotador de N&E; porém, será que o naturalista não poderia objetar que, assim como ele tem um derrotador de todas as suas crenças, ele também tem um derrotador para “P (C | N&E) é baixa”, pois, dado (1), não se pode confiar na verdade de N&E ou qualquer outra crença, de nada importando como “P (C | N&E) é baixa” se encaixe em “qualquer outra crença”? Isto é, dado N&E, as nossas crenças não são confiáveis, nem mesmo N&E, mas a nossa crença em (1) tampouco seria confiável, e é essa a premissa subjacente ao argumento inteiro. Acho que estou perdendo de vista alguma coisa... Poderia apontar se eu estiver errado? Desculpe se meu texto é ruim, mas ele mostra como tudo isso me confunde. Deus o abençoe.
Israel
Venezuela
Dr. Craig responde
A
Bem na semana passada, discuti o argumento evolutivo contra o naturalismo (AECN) de Plantinga, na pergunta # 707. Ali pudemos descartar muito rapidamente algumas objeções que se baseiam em compreensões errôneas do argumento. Por outro lado, você entendeu corretamente o argumento e identificou uma das suas características mais paradoxais.
Embora você tenha enunciado o seu argumento usando símbolos, permita-me colocar aqui uma formulação do argumento em prosa comum para quem não está acostumado com argumentos simbólicos. O argumento de Plantinga pode ser formulado simplesmente assim:[1]
1. A probabilidade de que as nossas faculdades cognitivas sejam confiáveis, dado o naturalismo e a evolução, é baixa.
2. Se alguém acredita no naturalismo e na evolução e vê que, portanto, é baixa a probabilidade de que as suas faculdades cognitivas sejam confiáveis, tem-se aí um derrotador da sua crença de que as suas faculdades cognitivas são confiáveis.
3. Se alguém tem um derrotador da crença de que as suas faculdades cognitivas são confiáveis, tem-se um derrotador de qualquer crença produzida por suas faculdades cognitivas (incluindo a sua crença no naturalismo e na evolução).
4. Logo, se alguém crê no naturalismo e na evolução e vê que, portanto, é baixa a probabilidade de que as suas faculdades cognitivas sejam confiáveis, tem-se aí um derrotador da sua crença no naturalismo e na evolução.
Conclusão: O naturalismo e a evolução não podem ser aceitos racionalmente.
Pois bem, você fez bem em apontar que, se o naturalista tem um derrotador de qualquer crença produzida por suas faculdades cognitivas, ele tem um derrotador de (1) — ou, aliás, de quaisquer premissas do argumento ou da conclusão do argumento. Por isso, você não está errado; contudo, você está perdendo de vista uma coisa. O que isto mostra é que o naturalista está preso num atoleiro lógico de onde não consegue escapar por meio do pensamento racional. Ao refletir sobre esse argumento, ele não pode concluir racionalmente que o naturalismo e a evolução não podem ser aceitos racionalmente e, portanto, ele deve abandonar o naturalismo. Ele não pode concluir nada racionalmente. Ele fica preso num ciclo de onde não há escapatória racional.
Em preparação para o meu debate com Erik Wielenberg, em que apresentei uma forma do AECN aplicada ao raciocínio moral, estive em correspondência com Andrew Moon, um jovem filósofo brilhante que se dedicou extensivamente ao argumento. Ele me escreveu o seguinte:
Do jeito que Plantinga montou tudo, ele dá a entender que o naturalista tem um derrotador de C e, portanto, de todas as suas crenças. O naturalista está num estado de desordem epistêmica. É interessante que o naturalista nunca dá o próximo passo de dizer: “A próxima coisa que o naturalista deve fazer é desistir de N e, então, pensar que a evolução é guiada. Assim, tudo ficará bem epistemicamente falando”. Acho que Plantinga pensa que não há nada que o naturalista possa fazer racionalmente a esta altura, e ele tem essa frase engraçada onde diz: “a esta altura, o naturalista só pode ser salvo pela graça, e não pelas obras” (Andrew Moon para William Lane Craig, 11 de outubro de 2017)
No caso, mais uma vez, vemos o gênio brilhante de Alvin Plantinga. Superficialmente, podemos pensar que o argumento dele dá ao naturalista bom motivo para abandonar o naturalismo; porém, paradoxalmente, não o faz. Simplesmente deixa o naturalista num ciclo de contradição de onde não pode sair, senão ao repudiar todo o círculo vicioso.
[1] Alvin Plantinga, Where the Conflict Really Lies: Science, Religion, and Naturalism (Oxford: Oxford University Press, 2011), pp. 344-345 [publicado em português como Ciência, religião e naturalismo: onde está o conflito? (São Paulo: Vida Nova, 2018)].
- William Lane Craig