#667 O cristianismo é muito severo?
July 17, 2020Olá, Dr. Craig.
É uma honra e privilégio lhe escrever; o senhor é um dos meus acadêmicos, debatedores e professores favoritos. Sou agnóstico, mas, para deixar claro, creio num deus onisciente e onipotente, mas não sei qual religião tem a melhor descrição do caráter desse deus. No entanto, escolhi investigar o conceito de deus primeiro na fé cristã. Embora haja aspectos do retrato cristão de deus que fazem sentido, há algumas coisas que me dão dificuldade para tomar a decisão de virar cristão.
Primeiramente, a crença de que apenas quem aceita a Jesus pode ir para o céu.
Penso que esta crença é uma das ordens mais severas da religião cristã. Como é que um deus onibenevolente e onipotente não vê como as complexidades da existência humana talvez não permitam que alguém venha a conhecer a Jesus, muito menos a aceitá-lo? Há humanos que jamais deixaram seus vilarejos e nada sabem da fé cristã — e disto não têm nenhuma culpa, pois não controlam onde nasceram, nem a cultura onde nasceram. Mesmo que alguém ouça de Jesus, como é que um deus onisciente não vê que, se uma pessoa nasce numa cultura com uma religião que sua sociedade pratica há gerações, espera que ela largue tal religião e simplesmente adote uma nova? Com certeza, um deus onisciente e inteligente conseguiria ver como isso seria difícil para o ser humano comum. Deus também sabe que criou humanos imperfeitos e não oniscientes. Digo isso para mencionar que deus sabe que humanos cometerão erros. Por que isto não aconteceria nas religiões também?
Como é que um deus onibenevolente não seria empático com um ser humano que cogitou a história de Jesus, mas cometeu o erro de não crer nela ou de escolher outra religião? Como é que um deus perfeito pode deliberadamente criar humanos imperfeitos, colocando-os deliberadamente em diferentes ambientes, deliberadamente em diferentes culturas, e ainda esperar que tomem a decisão perfeita de aceitar Jesus para a salvação? Para mim, a conta não fecha.
Grato,
Andrew
Estados Unidos
United States
Dr. Craig responde
A
Fico muito feliz de saber que você está considerando a fé cristã, Andrew! Tenho certeza de que, das religiões globais, você verá que não há nenhuma que apresenta um conceito de Deus tão exaltado e enobrecedor quanto o faz a fé cristã.
O que dizer da doutrina de que “apenas quem aceita a Jesus pode ir para o céu”? Talvez lhe seja uma surpresa ouvir que não é o que a fé cristã afirma. Todo cristão concorda que personagens do Antigo Testamento, como Abraão e Moisés, que viveram antes do tempo de Jesus, acharam perdão e salvação, embora jamais tivessem ouvido de Cristo, nem tampouco crido nele. Conforme expliquei em meu estudo sobre particularismo cristão, os cristãos acreditam que a salvação está disponível apenas com base na morte expiatória de Cristo por nossos pecados, mas a salvação pode ser alcançada sem o conhecimento da morte expiatória de Cristo por nossos pecados. É como, de repente, descobrir que você é o beneficiário no testamento de um tio rico de quem você nunca ouviu falar. Os fiéis do Antigo Testamento responderam adequadamente, com fé, à revelação que Deus lhes dera e, portanto, são beneficiários da morte expiatória de Cristo. Não só isto, mas é intrigante também que haja personagens no Antigo Testamento, por vezes chamados de “santos pagãos do Antigo Testamento”, que não eram sequer membros da velha aliança de Deus com o povo judeu, mas que, não obstante, tinham claramente uma relação salvífica com o Deus de Israel — gente como Jó e Melquisedeque.
Assim, as pessoas podem ir para o céu sem depositar sua fé em Jesus, ainda que não possam chegar lá sem Jesus. Pois bem, eis a questão: será que existem Jós e Melquisedeques modernos que, sem culpa alguma, jamais ouviram de Cristo, mas respondem adequadamente à revelação, principalmente na natureza e na consciência, que Deus lhes deu? Não vejo por que não. À medida que as boas novas do evangelho se espalharam a partir da Palestina do século I, as pessoas que se encontravam em regiões do mundo ainda não alcançadas eram ainda, efetivamente, como as pessoas que viveram antes do tempo de Cristo. Dessa forma, Deus os julgará com base em sua resposta à luz do que têm. Talvez sejam salvos em suas religiões nativas, mas não mediante ou com base em suas religiões nativas. Ainda mais radical é minha sugestão de que é possível, bem como plausível, que Deus, dada sua vontade salvadora universal (2 Pedro 3.9; 1 Timóteo 2.4), tão providencialmente ordenou o mundo que Ele trará o evangelho a qualquer um que, segundo Ele mesmo sabe, aceitaria o evangelho se o ouvisse. Quem nunca ouviu o evangelho e não está salvo não o teria aceitado, sendo, pois, salvo, mesmo que o tivesse ouvido. Nosso destino está, verdadeiramente, em nossas mãos.
Você pergunta, porém, sobre aquelas pessoas que, por meio da influência de suas culturas, não conseguem crer em Jesus, quando e se ouvem a mensagem do evangelho. Creio que você subestima, Andrew, o poder do Espírito Santo para vencer tal resistência e levar a pessoa a um ponto de decisão genuinamente livre; mas tudo bem assim mesmo. Já sugeri que Deus tão providencialmente ordenou o mundo que qualquer um que rejeite o evangelho em suas circunstâncias presentes não creria nele, mesmo que tivesse nascido em circunstâncias mais favoráveis. Embora você mencione que Deus seja “onisciente e inteligente”, não acho que realmente compreenda o que isto acarreta. Um Deus onisciente conhece todas “as complexidades da existência humana”; deveras, essas complexidades praticamente infinitas estão sob seu controle providencial. Você está pensando num Deus que insere pessoas num mundo que não foi planejado por Si mesmo, em vez de um Deus que providencialmente ordena o mundo de tal maneira que a salvação humana seja maximizada. Deus sabe em quais circunstâncias colocar as pessoas, tendo em vista a salvação delas.
Veja o que o apóstolo Paulo tinha a dizer a este respeito:
O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há, Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens. Tampouco é servido por mãos humanas, como se necessitasse de alguma coisa. Pois é ele mesmo quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas. De um só fez toda a raça humana para que habitasse sobre toda a superfície da terra, determinando-lhes os tempos previamente estabelecidos e os territórios da sua habitação, "para que buscassem a Deus e, mesmo tateando, pudessem encontrá-lo. Ele, de fato, não está longe de cada um de nós"; pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como também alguns dos vossos poetas disseram: “Pois dele também somos geração.” (Atos 17.24-28)
Na mente de Paulo, os tempos e lugares onde as pessoas vivem não são decorrentes de acidente, mas, sim, do planejamento do próprio Deus, tendo em vista encontrarem a salvação. Deus coloca as pessoas em diversas circunstâncias, conforme Ele mesmo escolhe, e, então, por meio de seu Santo Espírito, concede-lhes dádivas da graça a fim de que sejam livremente atraídos para Si. Portanto, ninguém se perderá por mero acidente histórico ou geográfico.
- William Lane Craig