#668 Uma poça deveria se surpreender que existe? E nós?
July 17, 2020Recentemente, topei com argumentos de ateus que dizem que o universo não tem ajuste fino para a vida, mas a vida é que tem ajuste fino para o universo; eles descrevem isto tudo na analogia da “poça” (tenho certeza que o senhor a conhece). Procurei no seu site algo que abordasse este argumento, mas talvez tenha procurado mal. Poderia oferecer sua refutação ou me indicar um lugar em seu site onde o senhor fale sobre o assunto? O argumento tem me incomodado e não sei como tratá-lo. Muito obrigado por todo seu trabalho e por sua atenção.
Simon
Estados Unidos
United States
Dr. Craig responde
A
Do jeito que está formulada, a objeção incorpora inúmeras confusões. Primeiro, ao afirmar que “o universo não tem ajuste fino para a vida”, o objetor parece compreender mal o termo “ajuste fino”. Trata-se de termo técnico para as constantes e quantidades fundamentais a fim de que a natureza se enquadrasse num estreitíssimo espectro propício à vida. O objetor, porém, parece tomar o termo como se significasse “projetado”.
Ele quer dizer que, como o buraco no qual a poça existe não é projetado para a poça, assim também o universo não é projetado para nós e, portanto, não tem ajuste fino. Isto é totalmente errado. O termo “ajuste fino” é neutro, nada dizendo quanto à explicação do ajuste fino observado. Do contrário, tentativas de explicar o ajuste fino do universo pelo acaso ou a necessidade seriam contraditórias em si mesmas. O fato de que o universo tem ajuste fino para agentes corpóreos e conscientes é bem estabelecido na física e, portanto, dificilmente debatível. A questão é como melhor explicar o ajuste fino: necessidade, acaso ou projeto?
A afirmação subsequente de que “a vida tem ajuste fino para o universo” me é ininteligível. O objetor não pode significar “projetado”, assim não subvertendo sua objeção. Mas aí estaria ele dizendo que, para que o universo exista, os parâmetros da vida devam se encaixar num estreito espectro propício à vida? Isso não faz o menor sentido. Suspeito que a afirmação do objetor é apenas um slogan capcioso, mas sem sentido.
A razão por que você não conseguiu encontrar nada sobre a analogia da poça não é por ter “procurado mal”, mas por não reconhecer que se trata de antiga objeção com uma nova fachada apelativa. A analogia da poça é simplesmente nosso velho amigo o Princípio Antrópico, mais uma vez. Apela-se para um efeito de auto-seleção a fim de eliminar a surpresa com o que se observa, por mais improvável que seja. A poça antropomorfizada pode se surpreender com a própria existência somente se o buraco existe. Assim, ela não deveria se surpreender com o fato de que o buraco e ela se encaixem tão bem. Se o buraco não estivesse ali, a poça não existiria para se surpreender com ele.
Há múltiplas falhas na analogia. Por exemplo, a analogia sugere que estamos tentando explicar por que este universo (esta poça) existe.[1] Mas não estamos. Estamos tentando explicar por que um universo propício à vida existe. A analogia estaria perguntando por que a poça existe. Poças podem ter qualquer forma ou tamanho, de modo que não há nenhum ajuste fino das poças a ser explicado. A analogia desmorona.
Além disso, proponentes do Princípio Antrópico reconhecem que o princípio pode ser legitimamente empregado apenas em conjunto com a Hipótese do Conjunto de Mundos (ou multiverso). O multiverso talvez seja tacitamente pressuposto pelo objetor, já que, obviamente, há uma multidão de poças em existência, aparecendo em diferentes formas e tamanhos. Agora, porém, o objetor lançou sua barca nas profundezas metafísicas e precisará defender sua Hipótese do Conjunto de Mundos contra objeções.
Por fim, e mais importante ainda, o suposto efeito de auto-seleção para agentes corpóreos é vão. Conforme explicou Robin Collins, não há nenhum motivo para pensar que apenas universos com ajuste fino tenham em si observadores. Este é o cerne do problema do Cérebro de Boltzmann. Mundos que consistem em um único observador com percepção ilusória de um mundo externo ao seu redor são fisicamente possíveis. Assim, como é que o objetor prova que não estamos num mundo do Cérebro de Boltzmann? Uma vez que ele não tem como fazê-lo, sua afirmação de que nós, como a poça, podemos observar apenas mundos com ajuste fino para nossa existência é fracassada e, com ela, sua objeção ao argumento a favor do projeto.
[1] A objeção também parece pressupor que a forma e tamanho da poça sejam essenciais para sua existência, o que soa falso.
- William Lane Craig