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#696 O destino dos que viveram bem antes de Cristo

March 23, 2021
Q

Olá, Dr. Craig.

Sou cristão, mas tenho lutado quanto ao que fazer com Adão e Eva. Acredito que Deus criou o mundo, já que a ideia de que a realidade simplesmente calhou de existir me parece absurda. Creio que tanto a sua teoria quanto, para falar a verdade, uma espécie de versão modificada da teoria de Swamidass sobre o Adão histórico funcionem.

Porém, o que me incomoda como cristão e, para ser honesto, tem me levado a duvidar, é a quantidade de tempo entre o presente e os primeiros humanos. Quinhentos mil anos é muito tempo mesmo. Pense em toda a humanidade que existiu entre Adão e Abraão. Parece ter simplesmente havido tempo demais para a vida humana que existiu fora do escopo da história de Deus. O que pensa a esse respeito? Será que Deus tinha um plano para todos esses homens? Será que Cristo morreu por eles? Eles terão um lugar nos novos céus e nova terra? Acho que eu seria um tolo se ignorasse as provas a favor do cristianismo por uma coisa dessas. Porém, o intervalo de tempo me incomoda profundamente. Parece um grande desperdício. Tenho certeza de que algumas dessas questões já passaram por sua mente! Obrigado!

John

Estados Unidos

Dr. Craig responde


A

Trato desta questão no meu livro a ser lançado, In Quest of the Historical Adam [Em busca do Adão histórico] (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans, 2021). Se Adão e Eva eram, como defendo, os ancestrais dos neandertais e outros humanos arcaicos, segue que estes, como Adão e Eva, foram criados à imagem de Deus, pois estão incluídos nas afirmações genéricas de Gênesis 1.26-27. Enquanto seres humanos criados à imagem de Deus, neandertais e outros humanos arcaicos têm, portanto, valor moral intrínseco e partilham da vocação do homem.

A ideia de que neandertais e outros humanos arcaicos tenham sido criados à imagem de Deus e partilhem da nossa vocação leva à surpreendente compreensão de que, enquanto membros da família humana, neandertais, denisovanos e outros mais eram, assim como nós, pessoas que Deus ama e pelas quais Cristo morreu. Paulo descreve como Deus “não levou em conta os tempos de ignorância” (Atos 17.30) e “deixou de punir os pecados anteriormente cometidos”, aqueles praticados antes do advento de Cristo (Romanos 3.25). A morte de Cristo propiciou os pecados da humanidade passada, voltando até ao pecado de Adão. A menos que se adote o estranho ensino da expiação limitada, a morte expiatória de Cristo deve ter, portanto, envolvido os pecados desses humanos arcaicos.

Embora situar Adão e Eva centenas de milhares de anos antes de Cristo, como eu faço, talvez acentue nas nossas mentes o problema do destino daqueles que viveram antes de Cristo, não consigo enxergar como a duração maior da era humana pré-cristã acrescenta algo de relevância filosófica à questão.[1] De fato, a questão não é essencialmente diferente da questão do destino das pessoas vivas hoje que ainda não ouviram o evangelho. Qualquer solução ao problema, como o apelo à revelação geral de Deus na natureza e na consciência, pode ser aplicada, mutatis mutandis, aos neandertais e demais humanos arcaicos.[2]

Na verdade, como é que sabemos que os neandertais não foram mais receptivos à revelação de Deus na natureza do que, digamos, Homo sapiens, e, assim, muitíssimos deles são herdeiros da vida eterna?

Talvez até venhamos a ver neandertais, denisovanos e outros humanos arcaicos no céu, e penso que teremos alegria em fazê-lo.


[1] Vale também lembrar que, durante a maior parte da sua história, a população humana mundial era contada apenas aos milhares, chegando enfim a um milhão somente por volta de 10000 a.C. Só no início do século XIX foi que a população mundial atingiu a marca de um bilhão de pessoas. Aproximadamente 100 bilhões de pessoas viveram entre 50000 a.C. e o dia atual. Ver https://www.worldatlas.com/feature/how-many-people-have-ever-lived-on-earth.html. Para estimativas dos tamanhos da população de neandertais em dezenas de milhares, ver “Genetics Spills Secrets from Neanderthals’ Lost History”, Quanta Magazine, 18 de setembro de 2017, https://www.quantamagazine.org/genetics-spills-secrets-from-neanderthals-lost-history-20170918/. Da população mundial atual de 7,4 bilhões, estima-se que entre 15-25% ainda precisam ouvir o evangelho de Cristo.

[2] Para uma discussão da doutrina da salvação por meio de Cristo somente e os desafios dela decorrentes, ver os meus artigos “Como é possível Cristo ser o único caminho para Deus?” ou “‘No Other Name’: A Middle Knowledge Perspective on the Exclusivity of Salvation through Christ”.

- William Lane Craig